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O (neo) Eurasianismo e a Política Externa Russa

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Os recentes acontecimentos envolvendo a Política Externa russa na Ucrânia, mas especificamente na “Península da Criméia”, têm atraído a atenção massiva da mídia internacional nas últimas semanas. Desde o início dos protestos na “Praça de Maidan” (ou “Praça da Independência”), localizada em Kiev, capital ucraniana, a situação do país permanece incerta – as manifestações tiveram início após o anúncio do rompimento das negociações para um “Acordo de Associação” com a “União Europeia” (UE)[1].

A adoção de políticas mais duras pelo “Presidente da Rússia”, Vladimir Putin, tem suscitado grandes preocupações entre os observadores internacionais. Muitos se questionam sobre o que estaria se passando pela cabeça do governante russo ao mandar tropas para a Criméia e, aparentemente, aprofundar a instabilidade na Ucrânia. Certamente, uma análise da psique de Putin torna-se impraticável e impossível, contudo, podemos analisar uma ideia que vêm demonstrando destacada influência entre a elite política russa e grande importância para o entendimento da atual “Política Externa” do país.

O Eurasianismo fora uma concepção teórica geopolítica concebida no início do século XX, mas cujas origens podem ser remetidas ao “Império Russo” – fundado em 1721 e dissolvido com a “Revolução Bolchevique”, em 1917. O desenvolvimento desta escola russa de pensamento ajuda-nos a compreender as pretensões de hoje e de outrora. Para estes teóricos, a (re) existência do “Império Russo” depende da realização plena do domínio territorial ao centro do continente euroasiático.

Após o término da “União Soviética”, em 1991, a projeção de poder e o território garantidos à Rússia pelo então regime soviético, de extrema vitalidade para pretensões eurasianas, foram dissolvidos. Desde então, uma revitalização da escola russa de geopolítica teve início, encabeçada principalmente pelo professor de sociologia das relações internacionais do “Departamento de Sociologia da Universidade de Moscou”, Aleksandr Dugin.

Para Dugin, e para os defensores do neo-Eurasianismo, torna-se impensável conceber uma ideia de Rússia sem a existência de um “Império [‘Euroasiático’]”. Ademais, a Rússia deveria se distanciar de um modelo europeu de desenvolvimento, rejeitando a identidade europeia, e defender um modelo próprio russo.

Uma das grandes influências de Dugin fora o geopolítico inglês Halford John Mackinder (1861-1947) e a sua teoria do Heartland. Para o pensador, a emergência de uma potência terrestre faria contraponto aos grandes poderes marítimos consolidados à sua época. Assim, o domínio terrestre da região da Eurásia, estrategicamente superior, constituiria um “coração continental”, ou Heartland, permitindo o deslocamento de forças terrestres para todas as direções do globo. A inexistência de um poder com as mesmas condições geopolíticas faria com que aquele Estado que dominasse a Heartland tivesse condições de expandir seus poderes, até níveis globais, sem grandes forças contrárias.

Durante muitos anos, a condução da “Política Externa” de grandes potências,como o “Reino Unido” fora feita tendo em consideração a necessidade de impedir o controle pleno da região do Heartland, impossibilitando assim um “domínio mundial”.

Desde o início de 2000, a concepção de Eurasianismo retornou à “Política Externa Russa”. Fato que comprova isso foi o presidente Vladimir Putin, ainda em seu primeiro mandato (2000-2004), ter declarado na “Cúpula Asiática” realizada em Brunei, em novembro de 2001, que “A Rússia sempre se sentiu como um país euroasiático. Nós nunca nos esquecemos de que grande parte do seu território está na Ásia. Mas deve ser dito, com total honestidade, que nós nunca fizemos uso desta vantagem. Acho que chegou a hora de acasalar palavras com ações, em conjunto com os países da região da Ásia e Pacífico e construir laços econômicos, políticos, entre outros. Hoje, a Rússia tem tudo que é necessário para fazê-lo[2].

As concepções teóricas do Eurasianismo fundamentaram, em grande medida, o atual conceito de “Política Externa” adotado no terceiro mandato de Putin (2012- atual). Um pouco antes das eleições presidenciais, o candidato Putin escreveu um artigo intitulado “A Rússia e o mundo em mudança”, no qual aponta a necessidade da criação de um conceito de política externa compatível com as mudanças ocorridas no sistema internacional, marcado pela crescente instabilidade.

Ao tomar posse do cargo, em 7 de maio de 2012, ele solicitou ao “Ministério das Relações Exteriores” que montasse um Comitê que seria responsável por sistematizar as novas diretrizes da “Política Externa Russa”, fazendo do país “uma espécie de foco de estabilidade capaz de atrair parceiros para traçar um caminho coletivo em um mundo turbulento[3].

No documento apresentado pelo Ministério responsável, a reconstrução do espaço soviético torna-se uma das primordiais prioridades do Governo de Putin. A, assim chamada, “União Euroasiática”. O projeto russo tem por objetivo unir os Estados que outrora pertenceram a “União Soviética” – com exceção, por ora, dos países bálticos – em um processo de integração, culminando, em 2015, em uma união política entre as partes.

O território da “União Euroasiática” assemelha-se ao da “União Soviética” que, por sua vez, possui fortes paralelos aos domínios terrestres do “Império Russo”. Este, como apontado por Mackinder, correspondeu historicamente ao Heartland.

A “Guerra da Geórgia”, em 2008, pode ser compreendida dentro da estrutura do neo-Eurasianismo, após o reconhecimento, por parte da Rússia, da independência da “Ossétia do Sul” e da Abkhazia.

A Ucrânia é um país chave na realização da “União Euroasiática” e a proximidade desta com a “União Europeia” (UE) pôs em risco uma das principais prioridades da política externa russa, se não a maior. Além disso, o Eurasianismo não consiste, apenas, de argumentos geopolíticos. A existência do “Império Russo”, que compreendia o atual território da Ucrânia, gerou laços históricos que dificilmente serão rompidos. Conforme apontado por um professor britânico, devemos olhar para a relação Rússia-Ucrânia e a consequência do rompimento, ou não, de suas relações e o impacto disto para a identidade dos países, da mesma forma que olhamos para a relação existente entre a Inglaterra e a Escócia e as consequências de uma possível independência do país escocês[5].

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Imagem Os limites territoriais do Império Russo (1721-1917)” (Fonte):

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/6/6d/Russian_Empire_(orthographic_projection).svg/541px-Russian_Empire_(orthographic_projection).svg.png

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/ucrania-rejeita-acordo-de-associacao-com-a-ue/

[2] Ver:

Laruelle, Marlène (2008) Russian Eurasianism. Na Ideology of Empire. Baltimore: The Johns Hopinkins University Press, pg. 7.

[3] Ver:

http://www.jornal.ceiri.com.br/breves-apontamentos-acerca-da-nova-politica-externa-russa/

[4] Ver:

http://euobserver.com/foreign/121304

[5] Ver:

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-que-esta-em-jogo-na-ucrania,1133443,0.htm

 

Thiago Babo - Colaborador Voluntário

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.

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