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O Papa Emérito Bento XVI e a “Crise Profunda” da Igreja Pós-Conciliar

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Nascido Joseph Aloisius Ratzinger, Bento XVI foi Papa da Igreja Católica e Bispo de Roma entre 19 de abril de 2005 e 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou a sua abdicação*. Esta foi uma medida inusitada entre os sucessores de São Pedro desde que, em 4 de julho de 1415, o Papa Gregório XII renunciou para pôr termo ao Grande Cisma do Ocidente[1]. Em 11 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI anunciou que deixaria o Pontificado no dia 28 do mesmo mês[2]. Ele comunicou sua renúncia em discurso pronunciado, em latim, durante um consistório convocado para anunciar três canonizações. “No mundo de hoje”, disse, “sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida e para a fé, para governar a barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário vigor, tanto do corpo como do espírito, vigor que, nos últimos meses, diminuiu de tal modo em mim que devo reconhecer a minha incapacidade de administrar bem o ministério a mim confiado”.

No entanto, além da idade e dos problemas de saúde, outros motivos despoletaram o fim do Papado de Bento XVI. O chamado caso VatiLeaks, que diz respeito aos documentos secretos que vazaram do Vaticano, revelou a existência de uma rede de corrupção, nepotismo e favoritismo. O termo VatiLeaks foi criado pelo responsável da Sala de Imprensa do Vaticano, Padre Federico Lombardi, SJ**, em 2012, numa alusão direta ao WikiLeaks, uma organização sem fins lucrativos, com sede na Suécia, fundada em 2006 que, em seus sítios web, divulga, a partir de fontes anônimas, documentos, fotos e informações secretas e reservadas, de governos e empresas[3]. Paolo Gabriele, o Mordomo de Bento XVI desde 2006, repassou ao jornalista Gianluigi Nuzzi[4] informações sensíveis que feriram de morte o Pontificado do Papa alemão. Condenado a 3 anos de reclusão, reduzidos para 18 meses em função da ausência de antecedentes criminais, Gabriele, que reconheceu ter traído a confiança do Vigário de Cristo, foi perdoado por este, através de um indulto natalino, em dezembro de 2012.

Recluído no mosteiro Mater Ecclesia, nos Jardins do Vaticano, onde reside, desde sua abdicação, o Papa Emérito é, atualmente, em função de sua avançada idade, “como uma vela que lenta e serenamente vai se apagando, como acontece com uma pessoa idosa. No entanto, ele é sereno, lucidíssimo e em paz com Deus, consigo mesmo e com o mundo. Ele se interessa por tudo o que acontece e mantém seu humor fino e sutil; mantém também sua paixão por dois gatos, Contessa e Zorro”. Ainda assim, Bento XVI continua a defender, com a determinação e a solidez intelectual que lhe são características, a centralidade da missão eterna da Igreja Católica.

Ele disse: “A Igreja é o lugar da transmissão da fé e o lugar no qual, pelo batismo, fomos imersos no mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, que nos liberta da prisão do pecado, nos concede a liberdade de filhos e nos introduz na comunhão com o Deus trinitário. Ao mesmo tempo, somos imersos na comunhão com os outros irmãos e irmãs de fé, com todo o Corpo de Cristo, libertados do nosso isolamento[5]. Contudo, o aggiornamento promovido pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), que pretendeu renovar a missão espiritual da Igreja, dando aos leigos um maior protagonismo, nomeadamente através de sua inserção nas Pastorais sociais, Movimentos e Novas Comunidades, não conseguiu trazer, ao catolicismo, tempos de paz e de concórdia. Nas últimas décadas, escândalos como o do Banco Ambrosiano[6] e o dos abusos sexuais por eclesiásticos, problemas como o da Teologia da Libertação, o do celibato dos sacerdotes, o da negação dos métodos contraceptivos artificiais, o da reprodução tecnicamente assistida, a par do dos meios profiláticos que a Igreja considera como inadequados para o tratamento do HIV/AIDS, abalaram profundamente a relação dos fiéis com a Igreja Católica.

Recentemente, no dia 16 de março, o diário Avvenire, órgão da Conferência Episcopal Italiana, publicou uma entrevista concedida pelo Papa Emérito, escrita em alemão e traduzida pelo jesuíta belga Jacques Servais. Antes, as declarações de Bento XVI foram divulgadas pelo Arcebispo Dom Georg Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia e Secretário Particular do Papa Emérito, no Congresso Por Meio da Fé. Doutrina da Justificação e Esperança de Deus na Predicação dos Exercícios Espirituais, realizado na Reitoria da Igreja del Gesù, em Roma, entre 8 e 10 de outubro de 2015, na altura em que decorria a XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos.

Bento XVI, que raramente concede entrevistas públicas, falou acerca da “crise profunda” que a Igreja enfrenta, desde o Concílio Vaticano II. Outrora, lembrou o Papa Emérito, a Igreja acalentou a crença da possibilidade da perda da salvação eterna ou, por outras palavras, defendeu a hipótese de as pessoas irem para o Inferno. Ou seja, consistiu um dos pilares norteadores do catolicismo, durante séculos, a ideia de que fora da Igreja não há salvaçãoextra Ecclesiam nulla salus. De acordo com a análise levada a cabo por Bento XVI, “os missionários do século XVI estavam convencidos de que a pessoa que não foi batizada se condena eternamente. Na Igreja Católica, depois do Concílio Vaticano II, tal convicção foi definitivamente abandonada”, o que originou, segundo o Sumo Pontífice, “uma crise profunda em duas vertentes”. Na verdade, “isto parece tolher qualquer motivação para um futuro compromisso missionário”; entretanto, inquiriu o Papa, “por quê tentar convencer as pessoas a aceitarem a fé cristã, quando elas podem salvar-se sem ela”? Para os cristãos surgiu, portanto, uma questão fundamental: atualmente, “ficou incerta e problemática a obrigatoriedade da fé e da sua forma de vida”. Refletindo acerca da evolução do dogma, no período situado entre a Idade Média e o Renascimento, que caracterizou o início do embate entre a tradição, a modernidade e a secularização, na Europa e no mundo, Bento XVI refere que, se na medievalidade, se podia aceitar que, “na substância, o gênero humano se tornara católico e que o paganismo existia agora somente nas margens, a descoberta do Novo Mundo, no início da era moderna, mudou radicalmente as perspectivas”.

Entrementes, considera Sua Santidade, “na segunda metade do século passado se desenvolveu completamente a consciência de que Deus não pode deixar ir para a perdição todos os não batizados e que, também, uma felicidade puramente natural não representa, para essas pessoas, uma resposta real à questão da existência humana”. Bento XVI rejeita a ideia do cristão anônimo, elaborada por Karl Rahner, SJ, tal como a doutrina relativista de que todas as religiões são igualmente válidas para alcançar a vida eterna, na medida em que “seriam meios de salvação e, neste sentido, devem considerar-se equivalentes em seus efeitos”.

Aludindo às ideias do Cardeal Dom Henri de Lubac, SJ, e de alguns outros teólogos acerca da suposta “substituição vicária de Cristo[7], o Pontífice alemão recomenda, em nossos dias, uma “reflexão” acurada. No que diz respeito à relação do ser humano com a tecnologia e o amor, Bento sublinha a importância do afeto, afirmando que, “na dureza do mundo tecnológico, no qual os sentimentos já não contam, aumenta a expectativa de um amor salvífico que seja doado gratuitamente”, ou seja, urge a “misericórdia de Deus e sua delicadeza” numa época em que a racionalidade tecnológica parece ter ofuscado o papel da sensibilidade e do querer.

Adversário do relativismo que assola as sociedades ocidentais, atitude que, genericamente, tem vindo a designar-se por pós-modernidade, Joseph Ratzinger viveu grande parte das convulsões que mudaram o curso da História, no século XX e, também, neste século. Ordenado sacerdote em 1951, ele teve a oportunidade de, em diversas oportunidades, manifestar o empenho em termos quer doutrinais, quer litúrgicos. Bento XVI, no livro A Fé e o Futuro, publicado em 2008 e ainda inédito no Brasil, previu tempos difíceis para a Igreja Católica. Ele escreveu: “A igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da capacidade renovada de olhar para dentro de si. Por que os habitantes de um mundo rigorosamente planificado se sentirão indizivelmente sós. E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo”.

Em 16 de setembro de 2010, na entrevista concedida durante o voo ao Reino Unido, o então Vigário de Cristo reiterou que “uma Igreja que procura sobretudo ser atraente já estaria num caminho errado, porque a Igreja não trabalha para si, não trabalha para aumentar os próprios números e, assim, o próprio poder. A Igreja está ao serviço de um Outro: não serve a si mesma, para ser um corpo forte, mas serve para tornar acessível o anúncio de Jesus Cristo”, dado que ela só terá sentido se for em Cristo, por Cristo e com Cristo.

Corroborando a posição assumida por Bento XVI a respeito da crise que a Igreja Católica está vivendo, Dom Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, considerou, em declarações prestadas a Le Journal du Dimanche, que “nosso combate é Cristo, nossa referência é o Evangelho. Eu penso que a grande crise que nós atravessamos é uma crise antropológica que tem vindo a minar os fundamentos do Ocidente”. Deste modo, o Cardeal guineense defende que “uma sociedade sem Deus, uma sociedade secularizada, não pode responder às necessidades do ser humano. O bem-estar material não pode satisfazer suas necessidades”.

Apesar de a Igreja Católica ter como fundamento um conjunto de preceitos que se insere na abertura à transcendência, após o Concílio Vaticano II, às vezes sem um rumo claramente definido, ela tem tentado a popularidade desde o relativismo mundano, chegando a minorar o peso da mensagem da qual é a guardiã. Bento XVI, à luz da pædagogia perennis que o orienta, tem advertido religiosos e leigos para o desejo de ver a Igreja de hoje retomar os rumos da Igreja de sempre. Sua voz, que não é isolada, é, no entanto, uma voz minoritária num tempo em que o sentido festival da existência humana, alicerçado no Carpe Diem, parece coroar os atos e as intenções de grande parte dos seres humanos, incluindo os católicos.

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* Alguns analistas consideram que, no caso da Igreja, o termo seria “renunciou”, já que o ele é chefe de uma Instituição religiosa. Abdicação seria aplicada apenas em referência ao seu afastamento da Chefia do Estado do Vaticano, onde ele é monarca. Sendo assim, aconselhariam o uso dos dois termos, “abdicou” e “renunciou” para tratar do ato de Bento XVI. No que diz respeito à “abdicação”, no entanto, deve-se esclarecer que o Papa é, além de responsável pelos destinos da Igreja Católica, o último monarca absolutista da Europa. Por isso, os familiares dos Papas falecidos, as chamadas “famílias papais”, são, na Europa, aqueles que detêm uma dignidade nobiliárquica superior à de qualquer outra família nobilitada. Adota-se aqui o uso apenas do termo “abdicou”, seguindo a explicação, ao invés de “abdicou” e “renunciou”, como sugerem alguns.

** O SJ refere-se à Companha de Jesus (do Latim, Societas Iesu, resultando em S.J., SJ, ou SI). Ou seja, significa membro da Companhia de Jesus.

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ImagemPapa Emérito Bento XVI” (Fonte):

https://imagens.publico.pt/imagens.aspx/444492?tp=KM&db=IMAGENS

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Notas e Fontes Bibliográficas:

[1] Ver:

RICHARD P. McBRIEN, Os Papas. Os Pontífices, de São Pedro a João Paulo II, 2.ª ed., São Paulo, Edições Loyola, 2004, trad. do inglês por Barbara Theoto Lambert – revisão de Renato da Rocha Carlos, págs. 258-260.

[2] Declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, Sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20,00 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

[3] Ver:

PAUL KREINER, “Seiner Heiligkeit Untreuer Kammerdiener”, Der Tagesspiegel, Berlim, 30.05.2012.

Disponível online:

http://www.tagesspiegel.de/weltspiegel/vatileaks-seiner-heiligkeit-untreuer-kammerdiener/6686532.html

[4] Ver:

GIANLUIGI NUZZI, Sua Santidade. As Cartas Secretas de Bento XVI, Rio de Janeiro, Leya, 2012, trad. do italiano por Maria João Vieira – revisão de Fabíola Mattos, 301 (2) págs.

[5] Ver:

BENTO XVI (Organização de Giuliano Vigini), Minha Herança Espiritual, São Paulo, Paulus, 2013, trad. do italiano por José Bortolini – revisão de Cícera Gabriela Sousa Martins e Tiago José Risi Leme, pág. 46.

[6] O Banco Ambrosiano (posteriormente renomeado como Banco Ambrosiano Veneto, na sequência da fusão com o Banco Católico do Veneto) foi um dos principais Bancos privados católicos italianos, tendo, como principal acionista, o Instituto para as Obras de Religião. No começo do Pontificado de São João Paulo II, o Instituto para as Obras de Religião e o Banco Ambrosiano financiaram o Solidarność, sindicato polaco criado durante as revoltas de Gdansk, e os Contras, da Nicarágua.

Em início da década de 1980, no âmbito da Guerra das Malvinas, a Argentina procurou adquirir, no mercado negro, mísseis Exocet. Após a Inteligência britânica ter detectado um depósito de duzentos milhões de Dólares do Banco Andino de Lima – subsidiário e propriedade integral do Banco Ambrosiano – no Banco Central do Peru, soube-se que a soma havia sido provida pela Ambrosiano Holdings. O Ambrosiano, que na altura se encontrava em processo de falência, ainda não havia fechado as suas portas porque o Instituto para as Obras de Religião se comprometeu respaldá-lo. Entre os materiais sequestrados pelo juiz encarregado do caso havia um contrato de provisão de cinquenta e dois mísseis Exocet pelo preço unitário de novecentos e oitenta e cinco milhões de dólares. A transação esteve a cargo do Capitão de Mar-e-Guerra Carlos Alberto Corti, um dos argentinos membros da Loja P-2. No centro das operações que levaram à ruína do Banco estava o seu principal executivo, Roberto Calvi, os seus companheiros da Loja Maçônica P2 (Propaganda Due). Após a morte repentina do Papa João Paulo I, em 1978, surgiram rumores de que haveria ligações com as operações ilegais daquela instituição (hipótese explorada no filme The Godfather, Parte III). A empresa Touche Ross, de Londres, foi a liquidatária do Banco Ambrosiano.

Ver:

Horacio Verbitsky, “A las Malvinas en Subte”, Página 12, Buenos Aires, 25.03.2012. Disponível online:

http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-190366-2012-03-25.html

Ver:

JOHN CORNWELL, Nos Corredores do Vaticano. A Morte de João Paulo I, Lisboa, Edições 70, s. d. [1990], trad. do inglês por Carlos Santos – revisão de Moura Pimenta, 402 págs.

[7] Segundo o conceito de “substituição vicária”, a Igreja, que é o Corpo Místico de Cristo, não salvaria as almas fora dela, pelo simples fato de sua existência. Contudo, de acordo com Bento XVI, esta é outra maneira de dizer que as almas podem salvar-se sem o concurso da fé, o que é impossível.

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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