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O Papa Francisco com os Refugiados na Ilha de Lesbos

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No passado dia 7 de abril, a Sala de Imprensa do Vaticano confirmou a décima terceira viagem apostólica do Papa Francisco ao estrangeiro, a realizar à ilha grega de Lesbos, em resposta aos convites de Sua Santidade Bartolomeu I, Patriarca Ecumênico de Constantinopla, e do Presidente da Grécia, Prokopis Pavlopoulos. Lesbos, que com a ilha vizinha de Cós, é o epicentro da crise dos refugiados na União Europeia, acolhe atualmente cerca de 3.000 pessoas foragidas de conflitos, originárias em sua maioria do Oriente Médio, da África e da Ásia. Em início do mês, o Cardeal Dom Antonio Maria Vegliò, Presidente do Pontifício Conselho para os Migrantes e os Itinerantes, teceu considerações críticas acerca do acordo relativo à questão dos refugiados, entre a União Europeia e a Turquia, que entrou em vigor em 20 e março deste ano. O Documento, que “prevê que todos os migrantes irregulares oriundos da Turquia e que entrem nas ilhas gregas sejam devolvidos a este país”, segundo Dom Vegliò, “suscita muitas incertezas. Os refugiados não são mercadorias, são pessoas”. Por outro lado, considerou o dignitário da Santa Sé: “é preciso ser muito claro e distinguir entre migrantes e refugiados: em relação a estes, há um acordo internacional assinado pelos países mais desenvolvidos, os quais se comprometem a dar-lhes a possibilidade de viver fora dos territórios dos quais tiveram de fugir[1].

A viagem de Francisco a Lesbos foi, tal como declarou o Padre Federico Lombardi, Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, “estritamente humanitária e ecumênica”. Em entrevista concedida à Rádio Vaticano, Lombardi associou esta visita papal àquela que o Vigário de Cristo efetuou a Lampedusa, no sul de Itália, no dia 8 de julho de 2013, tendo referido o fato de ela constituir um “gesto de solidariedade e de proximidade cristã ao grande problema dos refugiados, dos prófugos, dos migrantes”. Para Francisco, a ida àquele território grego constituiu uma oportunidade para expressar a “proximidade e solidariedade tanto aos refugiados quanto aos cidadãos da ilha e a todo o povo grego, tão generoso no acolhimento” daqueles que chegam àquele país do Mediterrâneo. A bordo do avião que o levaria a Lesbos, Francisco foi peremptório ao declarar aos jornalistas que o acompanhavam: “[Esta] é uma viagem assinalada pela tristeza. E isso é importante. É uma viagem triste. Vamos encontrar a maior catástrofe humanitária após a Segunda Guerra Mundial. Veremos tantas pessoas que sofrem, que não sabem aonde ir, que tiveram que fugir. Também iremos a um cemitério: o mar! Tantas pessoas ali afogadas”.

No Campo de Refugiados de Moria, o Papa Francisco, juntamente com o Patriarca Bartolomeu I e Sua Beatitude Hieronymus II, Arcebispo de Atenas e de toda a Grécia, mantiveram um encontro com as pessoas ali instaladas. Naquela ocasião, os três líderes religiosos assinaram uma declaração ecumênica na qual sublinham o objetivo comum de “defender os direitos humanos fundamentais dos refugiados, requerentes de asilo e migrantes e de tantas pessoas marginalizadas nas nossas sociedades”, consistindo esta tarefa no cumprimento da “missão de serviço das Igrejas ao mundo”. Neste sentido, Francisco, Bartolomeu I e Hieronymus II assinalaram o significado profundo de sua presença naquela ilha do Mar Mediterrâneo: “O nosso encontro de hoje pretende dar coragem e esperança a quantos procuram refúgio e a todos aqueles que os acolhem e assistem. Os signatários do documento de Lesbos lançaram um apelo à comunidade internacional: Instamos a comunidade internacional a fazer da proteção das vidas humanas uma prioridade e a apoiar, em todos os níveis, políticas inclusivas que se estendam a todas as comunidades religiosas. A terrível situação de todas as pessoas afetadas pela atual crise humanitária, incluindo muitos dos nossos irmãos e irmãs cristãos, clama pela nossa oração constante”.

Dirigindo-se diretamente aos residentes no Campo de Moria, o Papa Francisco refletiu sobre as expectativas de vida daqueles seres humanos: “Suportastes grandes sacrifícios por amor das vossas famílias. Experimentastes a amargura de ter deixado para trás tudo o que vos era querido e – o que é talvez mais difícil – sem saber o que o futuro vos reservava. Há ainda muitos outros, como vós, que se encontram à espera, em campos de refúgio ou na cidade, ansiando construir uma nova vida”. Ante as dificílimas condições de vida existentes em Moria, o Papa – à semelhança do que fez em situações de complexidade idêntica àquelas que ali existem – deixou uma mensagem de esperança: “Não percais a esperança! O maior presente que podemos oferecer uns aos outros é o amor: um olhar misericordioso, a solicitude por nos ouvirmos e compreendermos, uma palavra de encorajamento, uma oração. Oxalá possais partilhar este presente uns com os outros”.

Durante o encontro com as autoridades gregas, no Presídio da Guarda Costeira, em Lesbos, Francisco indicou a solução para o problema dos refugiados que, segundo ele, ocorrerá unicamente quando cessarem os conflitos sangrentos que têm lugar em seus países de origem. Deste modo, assinalou o Sumo Pontífice, “para sermos verdadeiramente solidários com quem é forçado a fugir da sua própria terra, é preciso trabalhar para remover as causas desta dramática realidade: não basta limitar-se a resolver a emergência do momento, é preciso desenvolver políticas de amplo respiro”, capazes de se destacarem pela orientação determinada rumo ao bem comum.

Reforçando as traves-mestras de seu pensamento, o Papa afirmou que, “em primeiro lugar, é necessário construir a paz nos lugares aonde a guerra levou destruição e morte e impedir que este câncer se espalhe noutros lugares. Para isso, é preciso opor-se firmemente à proliferação e ao tráfico das armas e às suas teias muitas vezes ocultas; há que privar de todo e qualquer apoio quantos perseguem projetos de ódio e violência”. É, também, urgente que se estabeleça “a colaboração entre os países, as Organizações Internacionais e as instituições humanitárias, não isolando mas sustentando quem enfrenta a emergência”. Somente assim, “juntos, podemos e devemos procurar soluções dignas do homem para a complexa questão dos refugiados. E, nisto, é indispensável também a contribuição das Igrejas e das Comunidades Religiosas”. Por isso, reiterou Francisco, “a minha presença aqui, juntamente com o Patriarca Bartolomeu e o Arcebispo Hieronymos, é testemunho da nossa vontade de continuar a cooperar para que este desafio epocal se torne ocasião, não de confronto, mas de crescimento da civilização do amor

No regresso ao Vaticano, o Sumo Pontífice levou consigo 12 refugiados – dentre os quais 6 são menores de idade – que, até agora, estiveram confinados na ilha grega visitada pelo responsável máximo da Igreja Católica. As três famílias sírias agora acolhidas pelo Vaticano, que viviam em Moria antes do Acordo entre a União Europeia e a Turquia, professam o islamismo e são oriundas de Damasco e de Deir Ezzor, uma província controlada pelo Estado Islâmico, tendo tido as suas casas bombardeadas. Num primeiro momento, elas serão assistidas pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma. Com esta medida prática, o Papa procurou renovar o apelo ao “compromisso ordinário de todas as paróquias, dos movimentos e das agregações eclesiais” europeus, feito pela primeira vez no Centro Astalli de Roma para a Assistência aos Refugiados, em 10 de setembro de 2013, para abrirem as portas às famílias de refugiados. Para o Santo Padre, “os conventos vazios não servem à Igreja para serem transformados em hotéis e ganhar dinheiro. Os conventos vazios não são vossos, são para a carne de Cristo que são os refugiados. O Senhor chama a viver com mais coragem e generosidade nas comunidades, nas casas, nos conventos vazios”. Em Lesbos, por intermédio de atos e não de discursos, Francisco reiterou, mais uma vez, o caminho que ele pretende que o catolicismo siga: ele não é o de uma ONG sócio-caritativa, tal como asseverou quando foi eleito, na medida em que a Igreja Católica “não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência”.

Durante a entrevista coletiva a bordo do voo de regresso à Roma, respondendo a uma pergunta formulada por Elena Pinardi, jornalista da União Europeia de Radiodifusão, a respeito dos reforços nas fronteiras de diversos países europeus, que nos coloca ante a possibilidade do final da livre circulação de pessoas na União Europeia, o Papa disse: “Eu sempre disse que construir muros não é solução: vimos cair um, no século passado. Não resolve nada. Devemos fazer pontes. Mas as pontes são feitas de forma inteligente, fazem-se com o diálogo, com a integração. E, por isso, compreendo um certo medo. Mas fechar as fronteiras não resolve nada, porque tal encerramento com o passar do tempo prejudica o próprio povo. A Europa deve, urgentemente, adotar políticas de acolhimento e integração, de crescimento, emprego, reforma da economia… Todas estas coisas são as pontes, que nos levarão a não fazer muros”. Tendo presente o sofrimento inenarrável, sobretudo dos mais jovens, Francisco mostrou vários desenhos oferecidos pelas crianças de Moria: “As crianças ofereceram-me muitos desenhos. [o Papa mostra vários desenhos um a seguir ao outro e comenta-os] Um: Que querem as crianças? Paz, porque sofrem. Lá, no campo, têm cursos de educação… O que viram aquelas crianças! Vede este: viram até afogar-se uma criança. Isto, as criança têm-no no coração! Verdadeiramente, hoje, o caso era de chorar. Era de chorar. O mesmo tema fê-lo esta criança do Afeganistão: o barco que vem do Afeganistão chega à Grécia. Estas crianças têm isto na memória! E precisarão de tempo para se habituar. No dia seguinte, 17 de abril, domingo, no Palácio Apostólico, durante o Regina Cæli, ao fazer o balanço de sua ida à Ilha de Lesbos, o Papa confidenciou que viu, ali, “muito sofrimento”.

A visita do Sumo Pontífice à ilha de Lesbos, breve e intensa, constituiu, sobretudo, um grito de alerta contra a “globalização da indiferença” que tem vindo a se acentuar ao longo dos últimos anos. A União Europeia, embrenhada num fio de Ariadne difícil de desenvencilhar[2], tem vindo a tropeçar no tema dos refugiados, ante o descaso dos mais fundamentais direitos, liberdades e garantias. Por outro lado, atualmente, a opinião pública mundial está longe de querer exercer pressão junto dos governantes em relação à problemática dos refugiados. São, neste âmbito, as diferentes Igrejas e, dentre elas, a Igreja Católica, que têm vindo a chamar a atenção do mundo para um assunto que, crescentemente, tem vindo a cair no esquecimento da sensibilidade global.

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Imagem O Papa Francisco acolhe os refugiados sírios após terem aterrado no Aeroporto de Roma Ciampino, na sequência da visita do Sumo Pontífice ao Campo de Refugiados de Moria, na ilha grega de Lesbos (16 de abril de 2016)”. (Fonte):

https://www.slate.com/content/dam/slate/blogs/the_slatest/2016/04/16/pope_takes_12_syrian_refugees_to_vatican_after_trip_to_lesbos/521564792-pope-francis-welcomes-a-group-of-syrian-refugees-after.jpg.CROP.promo-xlarge2.jpg

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Notas:

[1] Dias mais tarde, em 11 de abril, em entrevista concedida à Rádio Vaticano, Dom Antônio Maria Vegliò foi mais longe quanto ao papel da União Europeia no âmbito desta crise humanitária. O Cardeal disse: “É um momento em que a Europa, com o recente acordo com a Turquia, continua a levantar barreiras, a fechar as fronteiras e a ferir os direitos fundamentais dos migrantes, refugiados e pessoas que pedem asilo. Estamos diante de um acordo míope que não consente uma gestão dos fluxos migratórios no respeito da pessoa. A política migratória dos Governos tem necessidade de visão e coesão por meio de ações miradas para por fim às causas das ‘viagens da esperança’ de milhares de pessoas que muito frequentemente se transformam em ‘viagens da morte’. É necessário dar vida a canais humanitários seguros para permitir um controle de fluxos migratórios e para vigiar sobre o respeito dos direitos fundamentais da pessoa; isto o Papa o diz claramente com a sua viagem apostólica e com a vontade de encontrar pessoalmente quem desembarcou nas costas de Lesbos, cheio de dor e de confiança”.

[2] Em seu estudo recente, Pol Morillas, Elena Sánchez-Montijano e Eduard Soler identificaram os seguintes pontos de estrangulamento no âmbito da problemática dos refugiados:

1.º – A crise de valores: a União Europeia no banco dos réus; 2.º  – A diluição do Estado de bem-estar; 3.º – Pressão e oportunidade nos mercados de trabalho; 4.º – O direito de asilo em jogo; 5.º – Schengen em xeque; 6.º – O aprofundamento da divisão entre o Oeste e o Leste; 7.º – Uma Alemanha mais aberta e dividida; 8.º – As debilidades da política exterior europeia; 9.º – A Turquia se tornou indispensável; 10.º – Rússia complica o panorama humanitário e diplomático.

Ver:

POL MORILLAS, ELENA SÁNCHEZ-MONTIJANO & EDUARD SOLER, Europa Ante la Crisis de los Refugiados. 10 Efectos Colaterales, Barcelona, CIDOB – Barcelona Centre for International Affairs, 2015, 39 págs.

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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