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[:pt]O Papa Francisco e a Unidade entre Católicos e Luteranos[:]

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O Papa Francisco realizou, entre 31 de outubro e 1o de novembro, uma viagem apostólica à Suécia, por ocasião da comemoração comum luterano-católica da Reforma. O Pastor Heiner Bludau, Decano da Igreja Evangélica Luterana na Itália e Pastor da Comunidade Evangélica Luterana de Turim sublinhou, aos microfones da Rádio Vaticano, que “as Igrejas luteranas sempre celebraram os centenários da Reforma. No passado, estas manifestações eram realizadas ‘contra’ a Igreja Católica, ou assumiam um caráter nacional. Em 2017, porém, pela primeira vez abriu-se a possibilidade de celebrar este aniversário em um clima de diálogo”. Tal como referiu Monsenhor Franco Buzzi, Prefeito da Biblioteca Ambrosiana de Milão, “a grande novidade deste centenário é que se trata do primeiro a ser celebrado em uma época ecumênica”.

Desejando criar o entendimento entre católicos e luteranos, que cessou logo em 1517, com a publicação das 95 Teses de Martinho Lutero sobre o poder e a eficácia das indulgências católicas, o Papa Francisco assinalou o fato de, hoje em dia, estarmos ante a possibilidade de se estabelecer um caminho comum “que se foi configurando ao longo dos últimos cinquenta anos no diálogo ecuménico entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica”, que se viu plasmado na Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, assinada em 31 de outubro de 1999, pelo Bispo Dr. Christian Krause, da Federação Luterana Mundial, e pelo Cardeal Dom Edward Idris Cassidy, da Igreja Católica.

Naquele documento, as duas Igrejas passaram a professar a mesma doutrina sobre a justificação da fé, embora com desdobramentos diferentes. Tal como o Sumo Pontífice referiu na homilia proferida em Lund, sul da Suécia, no dia 31 de outubro, é ponto assente, para a Igreja Católica, a existência da “possibilidade de reparar um momento crucial da nossa história, superando controvérsias e mal-entendidos que impediram frequentemente de nos compreendermos uns aos outros”.

Mais tarde, na Declaração Conjunta assinada, em Lund, no âmbito da comemoração católico-luterana da Reforma, lemos a intenção de se construir um caminho comum, diferente do passado marcado por massacres, guerras e ódios que se estenderam pelos últimos quinhentos anos[1]. Se, por um lado, o passado não pode ser modificado, o “que se recorda e o modo como se recorda podem ser transformados”. Atualmente, quer para os católicos, quer para os luteranos, há a intenção de rejeitar a dor e o sofrimento “implementados em nome da religião. Hoje, escutamos o mandamento de Deus para se pôr de parte todo o conflito. Reconhecemos que fomos libertos pela graça para nos dirigirmos para a comunhão a que Deus nos chama sem cessar”. O compromisso de ambas confissões religiosas em prol de um testemunho comum foi expresso desta maneira: “Desejamos ardentemente que esta ferida no Corpo de Cristo seja curada. Este é o objetivo dos nossos esforços ecuménicos, que desejamos levar por diante inclusive renovando o nosso empenho no diálogo teológico”.

Apelando à unidade como prioridade, para católicos e luteranos, na Malmö Arena, o Papa Francisco, depois de ouvir o testemunho do Bispo Dom Héctor Fabio Henao Gaviria, Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral Social – Cáritas Colombiana, referiu: “É uma boa notícia saber que os cristãos se unem para dar vida a processos comunitários e sociais de interesse comum. Peço-vos uma oração especial por aquela terra maravilhosa para que, com a colaboração de todos, se possa chegar finalmente à paz, tão desejada e necessária para uma digna convivência humana”.

Referindo-se ao testemunho proferido por Marguerite Barankitse, em Malmö, o Papa qualificou da seguinte maneira o trabalho daquela ativista pela paz, levado a cabo na Maison Shalom e no Hospital REMA: “Aquilo que tu consideras como uma missão, foi uma semente, uma semente que produziu frutos abundantes, e hoje, graças a esta semente, milhares de crianças podem estudar, crescer e recuperar a saúde. Apostaste no futuro! Obrigado. E agradeço-te pelo facto de agora, mesmo no exílio, continuares a comunicar uma mensagem de paz”.

Reforçando seu apreço em relação à obra da vencedora, em 2016, do Prêmio Aurora para o Despertar da Humanidade, Francisco acrescentou: “Disseste que, todos os que te conhecem, pensam que aquilo que fazes é uma loucura. Sim, é a loucura do amor a Deus e ao próximo! Quem dera que esta loucura pudesse propagar-se, iluminada pela fé e a confiança na Providência!”.

Apesar das críticas dos católicos tradicionalistas à aproximação aos luteranos, promovida pelo Papa Francisco[2], o certo é que, para o Vigário de Cristo, de acordo com o vaticanista Edward Pentin, a posição adotada em relação aos seguidores de Martinho Lutero “é um reflexo de como o papa enxerga as demais religiões. É como se não existisse um chamado à conversão e que todas têm o seu caminho a Deus”. Para o Sucessor de Pedro é ponto assente que “a nossa fé comum em Jesus Cristo e o nosso Batismo exigem de nós uma conversão diária, graças à qual repelimos as divergências e conflitos históricos que dificultam o ministério da reconciliação”.

Defendendo que as intenções de Lutero não foram erradas[3], Francisco demonstrou, publicamente, querer deixar de lado as controvérsias doutrinais abrindo, assim, o caminho da unidade entre católicos e luteranos, que deverá ser construído a partir da diversidade. Na verdade, os sinais de aproximação, que agora se tornaram evidentes aos olhos do público, podem conduzir-nos, tal como afirmou o Bispo Dr. Munib A. Younan, Presidente da Federação Luterana Mundial, “a uma reconciliação pacífica, em vez de contribuir, como habitualmente, para mais conflitos no nosso já conturbado mundo”.

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ImagemMartinho Lutero inscreve as 95 Teses na Igreja de Wittenberg com uma pena gigante. Impressão feita para o Jubileu da Reforma, 1617” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Ninety-five_Theses#/media/File:G%C3%B6ttlicher_Schrifftmessiger_print.jpg

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Notas e Fontes consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] A excomunhão de Martinho Lutero pelo Papa Leão X, em 3 de janeiro de 1521, foi, talvez, “o clímax do conflito entre duas visões da religião cristã que acabaria numa das mais importantes cisões do Cristianismo”. Pároco da Igreja de Wittenberg, sul de Berlim, desde 1514, o sacerdote e teólogo Martinho Lutero verificou que muitos fiéis preferiam comprar cartas de indulgência a confessar-se com ele. Na altura, “essas indulgências são vendidas nas feiras livres, e, negociando com o pecado, a Igreja arrecada o capital de que precisa urgentemente. Conta-se que o monge dominicano Johann Tetzel anunciava: ‘Quando o dinheiro cair na caixinha, o Céu estará recebendo a sua alminha’”. Lutero, crítico da venda de indulgências, pela Igreja Católica, e defensor da confissão, tal como da confiança na Graça divina, enviou, em outubro de 1517, as “95 teses a seus superiores eclesiásticos. Conta a lenda que Lutero pregou as teses com estrondosos golpes de martelo na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg. O documento é logo impresso e distribuído entre a gente de Leipzig, Nurembergue e da Basileia”.

[2] O blog Rorate Cæli, veículo de divulgação das teses dos católicos tradicionalistas, referiu a propósito da aproximação entre católicos e luteranos: “O movimento da Reforma e Martinho Lutero são exaltados repetidas vezes, enquanto que a Contrarreforma, os Papas e os Santos do século XVI são ignorados em total silêncio”. Por outro lado, assinala o blog, “a ênfase esmagadora neste material recai sobre aquilo que supostamente une os católicos e luteranos, enquanto que as doutrinas que nos ‘dividem’ – doutrinas pelas quais inumeráveis mártires católicos e confessores sofreram, deram o seu sangue, combateram e morreram – são omitidas e abandonadas”.

[3] Na conferência de imprensa concedida pelo Santo Padre durante o voo de regresso da Armênia, no dia 26 de junho de 2016, ele declarou: “Creio que as intenções de Martinho Lutero não fossem erradas: era um reformador. Talvez alguns métodos não fossem justos, mas naquele tempo, se lermos por exemplo a história do Pastor (um luterano alemão que, ao ver a realidade daquele tempo, se converteu e fez católico), vemos que a Igreja não era propriamente um modelo a imitar: havia corrupção na Igreja, havia mundanidade, havia apego ao dinheiro e ao poder. E por isso ele protestou. Sendo inteligente, deu um passo em frente justificando por que motivo fazia isso. E hoje luteranos e católicos, com todos os protestantes, estamos de acordo sobre a doutrina da justificação: sobre este ponto tão importante, ele não errara. Elaborou um ‘remédio’ para a Igreja, depois este remédio consolidou-se num estado de coisas, numa disciplina, num modo de crer, num modo de fazer, num modo litúrgico”.

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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