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A Diocese de Turim acolheu, nos dias 21 e 22 de junho, o Papa Francisco. Nas palavras do próprio Santo Padre, a visita pastoral à capital da região do Piemonte teve, como objetivo principal, “venerar o Santo Sudário” e homenagear “São João Bosco, na celebração do bicentenário de seu nascimento[1]. Realizada alguns dias após a publicação da segunda Encíclica de seu Pontificado, Laudato, Si[2], a viagem de Francisco a Turim foi guiada pelo lema da ostentação do Santo Sudário para 2015: “O amor maior[3].

O Arcebispo de Turim, Dom Cesare Nosiglia, no anúncio da confirmação da ida do Papa, em novembro do ano passado, salientou que a “visita do Papa Francisco ocorre em um momento em que nossa região e cidade sofrem uma situação econômica e social de grande dificuldade por causa da falta de trabalho e de famílias na pobreza, que afetam fortemente os idosos e os jovens. A vinda do Papa é, portanto, um sinal de grande esperança e encorajamento para encontrar as raízes cristãs da fé e da fraternidade, tão bem testemunhadas pelo exemplo de nossos santos e beatos, a vontade comum de lutar nas ruas pela recuperação moral e social da nossa região[4].

Dois temas congregaram as atenções desta visita papal: o Sudário de Turim e, como já referimos, a crise laboral que assola toda a Itália, com ênfase para o norte do país, sua região mais industrializada. O Sudário, que muitos consideram ter sido a mortalha de Jesus Cristo, é uma das mais conhecidas relíquias relacionadas com a Paixão. Ele pertenceu à Real Casa de Saboia desde 1357, tendo sido doado ao Vaticano em 1983. Apesar de, “em 1988, o pano da mortalha ter sido datado por radiocarbono em três laboratórios diferentes (em Zurique, em Oxford e na Universidade do Arizona) […] e de os resultados terem dado um intervalo de datas entre 1260 e 1390[5], a Igreja Católica não tomou posição pública sobre a autenticidade da relíquia, embora a Enciclopédia Católica afirme que o Sudário está além da capacidade de qualquer falsário medieval[6].

O Sudário, que estará aberto à visitação pública, este ano, entre 19 de abril e 24 de junho, acolheu as orações de Francisco na manhã de domingo, 21 de junho. Ante a relíquia, que se conserva na Catedral de São João Batista, o Papa declarou: “O Sudário nos atrai através da face e corpo martirizado de Jesus[7]. Por outro lado, Francisco sublinhou, durante a oração do Angelus, que o Sudárionos empurra em direção ao rosto de cada pessoa que sofre e que é injustamente perseguida. Ele nos empurra na mesma direção, como presente do amor de Jesus[8].

O mundo do trabalho acolheu a primeira das reuniões do Papa Francisco, em Turim. O trabalho, considerado como fonte para a realização da pessoa, foi abordado nesta oportunidade. “O trabalho não é necessário somente para a economia, mas para a pessoa humana, para sua dignidade, para sua cidadania e, também, para a inclusão social[9], sublinhou o Papa. Considerando o papel das classes laboriosas para a construção da Itália, assim como a crise de emprego que assola o país – a taxa oficial de desemprego é superior a 12%, enquanto entre os jovens ela supera os 40%[10]Francisco frisou nesta oportunidade: “Turim é historicamente um polo de atração laboral, mas hoje se ressente fortemente da crise: falta trabalho, aumentaram as desigualdades econômicas e sociais, muitas pessoas empobreceram e têm problemas com a casa, a saúde, a instrução e outros bens primários. A imigração aumenta a competição, mas os migrantes não devem ser responsabilizados, porque eles são vítimas da iniquidade, desta economia que descarta e das guerras. Faz chorar ver o espetáculo destes dias, nos quais os seres humanos são tratados como mercadorias[11]. Daí, a proposta feita pelo Papa, aos turineses, no sentido de fomentarem a “via da solidariedade entre gerações, que se realiza antes de tudo na família[12].

O segundo centenário do nascimento de São João Bosco serviu para Sua Santidade realizar, junto com a comunidade salesiana, aquilo que especialistas consideraram ter sido uma MiniJornada Mundial da Juventude. Referindo-se ao fundador da Congregação Salesiana, Francisco destacou a importância da ação social para ajudar os jovens: “Dom Bosco nos ensina que o melhor caminho é o da prevenção: até o conflito social deve ser evitado e isso se faz com justiça[13].

É de referir, também, que a vida daqueles que sofrem mereceu, por parte do Sumo Pontífice, especial atenção ao longo desta viagem. Reunido com os doentes e pessoas com deficiência, na Piccola Casa della Divina Provvidenza, o Papa retomou o exposto em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium[14]: “A exclusão dos pobres e da dificuldade para os indigentes receberem a assistência e o tratamento necessário, é uma situação que, infelizmente, ainda hoje existe. Houve grandes avanços na medicina e na assistência social, mas se espalhou uma cultura de desperdício, como resultado de uma crise antropológica que não coloca no centro as pessoas, mas o consumo e os interesses econômicos[15].

À visão técnica dos problemas sociais, Francisco contrapôs seu entendimento holístico, das pessoas e do mundo: “A razão de ser desta Piccola Casa não é o assistencialismo, ou a filantropia, mas o Evangelho: o Evangelho do amor de Cristo é a força que a fez nascer e que a faz andar adiante: o amor da predileção de Jesus pelos mais frágeis e os mais débeis. Este é o centro[16]. Anteriormente, ao proferir a homilia da missa concelebrada na Praça Vittorio, ante dezenas de milhares de fiéis, o Papa enfatizara: “O espírito do mundo está sempre à procura de novidade, mas somente a fidelidade de Jesus é capaz da verdadeira novidade de fazer-nos homens[17].

A viagem pastoral a Turim – cidade na qual o Papa tem algumas de suas raízes familiares, onde seu pai, Mario Giuseppe Bergoglio Vasallo, foi batizado, e seus avós casaram – reafirma algumas das traves-mestras do seu Pontificado: o empenho por uma cultura de paz, a denúncia da coisificação da vida humana a partir do individualismo e do relativismo imperantes no mundo atual, a crítica veemente ao capitalismo global e, também, a reafirmação da Igreja Católica nas suas vertentes eclesiológica e pastoral[18].

Profundamente inspirado por São Francisco – “manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado pela sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal[19] – é de supor que o primeiro Papa argentino e integrante da Companhia de Jesus se deixe penetrar, crescentemente, pelo amor gêmeo, tal como ele foi formulado por Santo Antônio de Lisboa[20].

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Imagem O Papa Francisco reza ante o Santo Sudário (Catedral de São João Batista, de Turim, 21 de junho de 2015)” (Fonte):

https://www.telemundo.com/sites/nbcutelemundo/files/styles/article_cover_image/public/images/article/cover/2015/06/21/papa-visita-sudario.jpg?itok=aTaMwGKP

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.diocesi.torino.it/diocesi_di_torino/in_primo_piano/00051667_21_giugno_2015__il_Papa_a_Torino_per_Ostensione_Sindone__Preghiera_di_ringraziamento_nelle_parrocchie_il_9_novembre_2014.html

[2] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[3] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/o-amor-maior

[4] Ver:

http://www.diocesi.torino.it/diocesi_di_torino/in_primo_piano/00051667_21_giugno_2015__il_Papa_a_Torino_per_Ostensione_Sindone__Preghiera_di_ringraziamento_nelle_parrocchie_il_9_novembre_2014.html

[5] Ver:

http://www.livescience.com/6912-voice-reason-truth-shroud-turin.html

[6] Ver:

http://www.newadvent.org/cathen/13762a.htm

[7] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/shroud-of-turin-reminds-us-of-all-human-suffering-pope-francis-says-29925/

[8] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/shroud-of-turin-reminds-us-of-all-human-suffering-pope-francis-says-29925/

[9] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2015/june/documents/papa-francesco_20150621_torino-mondo-lavoro.html

[10] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/pope-francis-speaks-up-for-italys-unemployed-youth-61827/

[11] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2015/june/documents/papa-francesco_20150621_torino-mondo-lavoro.html

[12] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/das-raizes-ao-futuro

[13] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/pope-francis-asks-workers-give-immigrants-compassion-not-blame-22432/

[14] Ver:

Cf. PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium – A Alegria do Evangelho, 2.ª ed., São Paulo, Paulus Editora – Edições Loyola Jesuítas, 2014, trad. do italiano, págs. 40-41 [52-53].

[15] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2015/june/documents/papa-francesco_20150621_torino-malati-disabili.html

[16] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/speeches/2015/june/documents/papa-francesco_20150621_torino-malati-disabili.html

[17] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/it/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150621_omelia-torino.html

[18] Ao celebrar sua primeira missa, como Papa, Francisco alertou os Cardeais: “Se não professarmos Jesus Cristo, nos converteremos em uma organização não-governamental piedosa, não em uma esposa do Senhor”. Ver:

http://www.bbc.com/portuguese/ultimas_noticias/2013/03/130313_papa_ong_lk_rn

[19] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html

[20] Santo António de Lisboa enfatiza o papel do amor gêmeo nos seus Sermões, tanto os Dominicais, quanto os Festivos. O franciscano, pregador in universum, não se cansa de falar no amor a Deus e ao Próximo, sentimento total e retributivo que consiste na paga do Amor dispensado aos homens na Criação e na Redenção. Tal Amor é, a um tempo, atitude de doação caritativa entre semelhantes: “Amor, no étimo latino, significa ligar dois entre si. O amor, na verdade, começa por dois: o amor de Deus e o do próximo. O amor só nos bons costuma existir. Amar significa ligar dois.”, ver: SANTO ANTÓNIO DE LISBOA (Introdução, tradução e notas de Henrique Pinto Rema), Obras Completas, Porto, Lello & Irmão – Editores, 1987, Vol. II (Sermões Dominicais), pág. 20.

Prosseguindo, o Santo escreve, agora no plano dialógico: Deus, “no princípio antes de existires, deu-te a ti, no segundo momento, sendo tu mau, deu-se a ti, para que fosses bom, e quando se te deu, restituiu-te a ti. Dado, portanto, e restituído, de­ves-te duas vezes e deves-te todo.”, Id., ib., pág., pág. 22.

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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