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[:pt]O Papa Francisco na Armênia: Servo do Evangelho, Mensageiro da Paz[:]

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Após São João Paulo II ter visitado a Armênia, entre 25 e 27 de setembro de 2001, o Papa Francisco se deslocou àquele país, entre 24 e 26 de junho passado, em sua 14.ª viagem apostólica internacional, intitulada “Visita ao primeiro país cristão”. A presença do Vigário de Cristo naquela República da Ásia Menor, com uma área de 28.203 km2, hoje com 3.017.712 habitantes[1] e 1 milhão de cidadãos vivendo na diáspora, se deveu a um convite de Karekin II, Patriarca e Catholicos de Todos os Armênios[2], das autoridades políticas e da Igreja Católica.

Nesta oportunidade, o Papa desejou sublinhar, no país do Cáucaso, o primeiro a acolher o cristianismo como religião oficial, em 301 d. C., como resultado da obra de evangelização de São Gregório, o Iluminador, a profunda fé, o desejo de paz e os sofrimentos daquele povo. No dia 22, o Papa enviou uma mensagem ao povo armênio, na qual destacou: “A história e as vicissitudes de seu povo amado causam em mim admiração e dor. Admiração porque vocês encontraram na cruz de Jesus e em sua inteligência a força de se reerguer sempre, até mesmo dos sofrimentos que estão entre os mais terríveis que a humanidade recorda. A dor pelas tragédias que os seus pais viveram em sua carne”.

No dia 25, o Papa visitou, em Yerevan, a capital armênia, o Memorial dedicado às vítimas do “Metz Yeghern”, ou “Grande Carnificina[3], local onde prestou homenagem aos mortos no Massacre dos Armênios. Outrossim, a posição de Francisco foi afirmada, pela primeira vez, em 12 de abril de 2015, quando presidiu, na Basílica de São Pedro, ao lado do Catholicos Karekin II, Bispos e fiéis de toda a diáspora, a uma missa para os fiéis do Rito Armênio, evocativa do centenário do Grande Massacre. Na altura, aquele evento trágico foi qualificado, por Francisco, como um enorme e louco extermínio.

Na Armênia, após ter depositado uma coroa de flores no Memorial de Tzitzernakaberd, construído em 1967, durante a era soviética, o Papa rezou longamente, em especial, durante uma oração ecumênica realizada em memória das vítimas do Massacre dos Armênios. Num derradeiro momento significativo durante esta cerimônia, Francisco se encontrou com 10 descendentes de alguns dos 400 refugiados armênios que foram acolhidos no Palácio Apostólico de Castel Gandolfo, na década de 1920, durante o Pontificado de Bento XV.

No final do dia, no Encontro Ecumênico e Oração pela Paz, que reuniu católicos e ortodoxos na Praça da República, em Yerevan, o Papa ressaltou: “Como são grandes, hoje, os obstáculos no caminho da paz, e trágicas as consequências das guerras! Penso nas populações forçadas a abandonar tudo, especialmente no Médio Oriente onde muitos dos nossos irmãos e irmãs sofrem violências e perseguição por causa do ódio e de conflitos sempre fomentados pelo flagelo da proliferação e do comércio de armas, pela tentação de recorrer à força e pela falta de respeito pela pessoa humana, especialmente os vulneráveis, os pobres e aqueles que pedem apenas uma vida digna”.

Ao finalizar a visita à Armênia, antes da oração proferida no Mosteiro de Khor Virap, o Papa Francisco e Sua Santidade Karekin II assinaram uma declaração conjunta na Santa Etchmiadzin, centro espiritual de Todos os Arménios. O documento assinado pelos dois dignitários religiosos tem, como linha norteadora, em termos políticos e sociais, o alcance que o problema dos refugiados possui, hoje em dia: “Estamos a ser testemunhas duma tragédia imensa que se desenrola diante dos nossos olhos: inúmeras pessoas inocentes que são mortas, deslocadas ou forçadas a um exílio doloroso e incerto devido a contínuos conflitos por motivos étnicos, económicos, políticos e religiosos no Médio Oriente e noutras partes do mundo”. Daqui decorre uma realidade com profundas implicações religiosas, sobretudo para as minorias que se tornaram “alvo de perseguição e tratamento cruel, a ponto de o sofrimento por uma crença religiosa se tornar uma realidade diária. Os mártires pertencem a todas as Igrejas e o seu sofrimento é um ‘ecumenismo de sangue’ que transcende as divisões históricas entre os cristãos, convidando-nos a todos a promover a unidade visível dos discípulos de Cristo”. No entanto, apesar dos esforços da comunidade internacional levados a cabo no sentido da proteção das minorias étnicas e religiosas, Francisco e Karekin II assinalaram o escasso alcance de tais iniciativas: “Insistimos que é necessário muito mais, por parte dos líderes políticos e da comunidade internacional, em ordem a garantir o direito de todos a viver em paz e segurança, para defender o estado de direito, proteger as minorias religiosas e étnicas, combater o tráfico de seres humanos e o contrabando”.

Antes de finalizar sua visita à Armênia, o Papa esteve no Mosteiro de Khor Virap, um dos lugares sagrados da Igreja armênia, situado aos pés do Monte Ararat. No Mosteiro, um dos símbolos nacionais do país, o Sumo Pontífice rezou ante o “Poço de São Gregório”, local onde, durante 13 anos, São Gregório, o Iluminador, permaneceu encarcerado por ordem do Rei Tirídates III, um feroz perseguidor dos cristãos que, mais tarde, se converteu àquela confissão religiosa.

Se, no dia 24, o Sumo Pontífice referiu o Genocídio dos Armênios durante o encontro com as autoridades civis e o Corpo Diplomático, no dia seguinte ele apelou à reconciliação entre a Armênia e a Turquia, assim como à solução do problema do enclave armênio de Nagorno-Karabakh, no Arzebaijão, negando, assim, a “força ilusória da vingança”. Entrementes, na entrevista coletiva concedida durante o voo de regresso a Roma, Francisco voltou a abordar o tema do genocídio de 1915. Ele disse: “Eu sempre falei dos três genocídios do século passado, sempre três. O primeiro, o arménio; depois, o de Hitler; e, por último, o de Estaline. Os três. Há outros menores. Houve um em África [Ruanda]. Mas, na órbita das duas Grandes Guerras, são estes três”.

Outra referência ao Genocídio dos Armênios se encontra, igualmente, na Declaração Conjunta assinada por Francisco e Karekin II. O Governo turco reagiu prontamente à utilização, por Francisco, da palavra “Genocídio”, tendo Nurettin Canlikli, o Vice-Primeiro Ministro turco, acusado o Papa de agir com “a mentalidade das Cruzadas”. Se manifestando em relação ao incidente, o Padre Frederico Lombardi, SJ, Porta-Voz do Vaticano, garantiu que “o Papa não está em nenhuma Cruzada. Ele não está tentando organizar guerras ou construir muros, mas ele quer construir pontes. Ele não disse uma palavra contra o povo turco”.

A Armênia, o 22.º país visitado pelo Papa Francisco desde sua eleição, foi a primeira etapa de uma visita mais ampla ao Cáucaso, visto que, em setembro, o Sumo Pontífice também visitará a Geórgia e o Azerbaijão. Esta viagem apostólica, marcada pela aproximação entre a Igreja Católica e a Igreja Apostólica Armênia[4], constituiu “uma peregrinação marcada pelo ecumenismo e pelo esforço de Roma e Armênia em caminharem juntas à plena união”. Entrementes, a paz, o outro pilar desta visita papal, requer, segundo o Papa, “grande tenacidade e passos contínuos, começando pelos pequenos e devagar fazendo-os crescer, indo um ao encontro do outro. Por isso, o meu desejo é de que todos e cada um deem a sua contribuição para a paz e a reconciliação”. Contudo, este objetivo é tanto mais difícil de alcançar quanto uma Europa, atualmente epicentro de múltiplas crises, constitui o âmago de um malogro coletivo, com contornos ainda inimagináveis de intuir.

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ImagemO Papa Francisco e Karekin II, o Catholicos de Todos os Armênios, regam a árvore plantada na escultura de uma Arca de Noé durante um encontro ecumênico e oração pela paz na Praça da República, em Yerevan, em 25 de junho de 2016” (Fonte):

https://thepeninsulaqatar.com/images/Pope%20Francis%20and%20Catholicos%20of%20All%20Armenians%20Karekin%20II%20water%20a%20tree%20planted%20in%20a%20Noahs%20Ark%20sculpture%20during%20an%20ecumenical%20meeting%20and%20a%20prayer%20for%20peace%20in%20Republic%20Square%20Yerevan%20on%20June%2025%202016%20AFP%20TIZIAN.jpg

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Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Ver:

United Nations, World Population Prospects: The 2015 Revision, s. l., Population Division – Department of Economic and Social Affairs, julho de 2015 [File POP/1-1: Total population (both sexes combined) by major area, region and country, annually for 1950-2100 (thousands)].

[2] O título Catholicos (em grego: Καθολικος; em latim: Catholicus) é inerente à autoridade máxima em algumas Igrejas orientais. No caso da Igreja Apostólica Armênia, o Catholicos é mais importante do que o Patriarca.

[3] Levado a cabo pelo Governo do Império Otomano, formado pelos Jovens Turcos, o Massacre Armênio, que teve início em 24 de abril de 1915, prolongou-se até 1923, tendo causado entre 800.000 e 1.500.000 mortos. A Turquia contesta os números apresentados pelos historiadores, negando que as mortes tenham sido sistematicamente orquestradas, constituindo, portanto, um massacre. O país também sustenta que, naquela ocasião, muitos muçulmanos turcos foram igualmente mortos.

[4] No caminho rumo à unidade, somos chamados a ter a coragem de deixar as nossas convicções rígidas e os interesses próprios, em nome do amor de Cristo”, afirmou Francisco ao finalizar sua viagem. No entanto, frisou o Papa,  a unidade entre católicos e apostólicos não é “submissão de um ao outro, nem absorção, mas um acolhimento de todos os dons que Deus deu a cada um

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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