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O Papa na América Latina: Equador, Bolívia e Paraguai, Três Nações Irmãs

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O Papa Francisco realizou, entre 5 e 13 de julho, a sua segunda viagem à América Latina, depois de, em 2013, ter participado, na XXVIII Jornada Mundial da Juventude, realizada no Brasil. A viagem apostólica do Sumo Pontífice decorreu no Equador,Bolívia e no Paraguai, “‘três nações irmãs’ que compartilham a mesma fé’[1]. Na mensagem em vídeo, emitida antes do início da viagem apostólica, o Papa referiu que “a fé que todos nós compartilhamos é fonte de fraternidade e solidariedade, constrói povos, forma uma família de famílias, promove a concórdia e anima o desejo e o compromisso em prol da paz[2]. Este périplo de mais 24.000 Km e 22 discursos e homilias, cumprido em pouco mais de uma semana, foi desenhado pelo próprio Papa e teve, nas palavras de Dom Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, inegáveis “conotações políticas[3].

Em sua primeira intervenção pública, realizada no Aeroporto Internacional Mariscal Sucre, de Quito, no dia 5, Franciscoadvogou pela necessidade de se fomentar a justiça social, retomando assim um dos fundamentos da mensagem essencial do cristianismo. O Papa afirmou: “Hoje, também nós podemos encontrar no Evangelho as chaves que nos permitam enfrentar os desafios atuais, avaliando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões, para que as realizações alcançadas no progresso e desenvolvimento se consolidem e possam garantir um futuro melhor para todos[4]. Deste modo, indicou o Santo Padre, é um dever pessoal, mas também coletivo, prestar “especial atenção aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis, uma dívida que tem ainda toda a América Latina[5]. Na verdade, tal como o Sumo Pontífice afirmou na missa celebrada na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra, no dia 9 de julho, durante a sessão de abertura do V Congresso Eucarístico Nacional, “a riqueza mais plena de uma sociedade se mede na vida de seu povo, se mede em seus idosos que conseguem transmitir sua sabedoria e a memória de seu povo aos mais pequenos[6].

A par da ênfase colocada na realização dos excluídos, tanto na América quanto no resto do mundo, o Papa Francisco destacou, igualmente, a necessidade de alguns governantes hispano-americanos evitarem a repressão em seus países. No encontro com a sociedade civil equatoriana – de comunidades indígenas a empresários –, realizado na Igreja de San Francisco, em Quito, em 7 de julho, o Papa referiu que “a emigração, a concentração urbana, o consumismo, a crise da família, a falta de trabalho, as bolsas de pobreza produzem incerteza e tensões que constituem uma ameaça para a convivência social[7]. Deste modo, de acordo com o máximo representante da Igreja Católica, é preciso, na linha do proposto na Carta Encíclica Laudato Si[8], que haja um cuidado particular na promoção do bem comum. O Papa foi claro: “As normas e as leis, bem como os projetos da comunidade civil, devem procurar a inclusão, abrir espaços de diálogo, espaços de encontro e, assim, deixar como uma triste recordação qualquer tipo de repressão, de controle excessivo e a perda de liberdade[9]. A luta do Papa por uma mudança de paradigma sócio-político-econômico mundial o levou a propor: “A esperança dum futuro melhor passa por oferecer oportunidades reais aos cidadãos, especialmente aos jovens, criando emprego, com um crescimento econômico que chegue a todos e não se fique pelas estatísticas macroeconômicas; criar um desenvolvimento sustentável que gere um tecido social firme e bem coeso. Se não há solidariedade, isso é impossível[10].

Na Bolívia, país de maioria indígena, onde foi calorosamente recebido pela população local, o Papa, após a cerimônia de boas-vindas, no Aeroporto Internacional El Alto, em La Paz, teve o ensejo de homenagear Luis Espinal, o sacerdote jesuíta espanhol assassinado pelos esquadrões da morte em 21 de março de 1980[11]. Francisco evocou, no local onde o corpo foi encontrado, perto do Rio Choqueyapu: “Me detive aqui para saudar-vos e, sobretudo, para recordar. Recordar um irmão, um irmão nosso, vítima dos interesses que não queriam que se lutasse pela liberdade[12]. Rezando pela alma daquele que, à altura de sua morte, era o diretor do semanário Aquí, o Sumo Pontífice almejou “que o Senhor tenha em sua glória o Pe. Luis Espinal que predicou o Evangelho, esse Evangelho que nos traz a liberdade, que nos torna livres, como qualquer filho de Deus. Que Jesus o tenho junto d’Ele. Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno e brilha para ele a luz que não tem final[13].

O mais politizado discurso do Papa, segundo analistas, teve lugar na Bolívia. Intervindo no encerramento do II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 9, o Sumo Pontífice criticou a idolatria do dinheiro[14], tendo apelado à mudança mundial das estruturas econômicas. Inquirindo os presentes – “Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?[15]Francisco não hesitou ao proferir uma “resposta comprometida” com aquela que, em seu entender, é a melhor opção de futuro, para a Humanidade: “Queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais[16]. Aquilo que o Papa designou como “globalização da esperança” e que constitui a alternativa para a ordem econômica vigente exige, além da inclusão dos menos privilegiados, a promoção do “fortalecimento, melhoria, coordenação e expansão destas formas de economia popular e produção comunitária. Isto implica melhorar os processos de trabalho, prover de adequadas infraestruturas e garantir plenos direitos aos trabalhadores deste setor alternativo. Quando Estado e organizações sociais assumem, juntos, a missão dos ‘3 T’[17], nós estamos ante a concretização do Trabalho, Teto e Terra.

Repetindo o gesto de São João Paulo II[18], o Papa Francisco pediu perdão pelas ofensas e crimes cometidos pela Igreja Católica durante a expansão europeia na América[19]. Contextualizando, Francisco reconheceu que se cometeram “muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus. Reconheceram-no os meus antecessores, afirmou-o o CELAM, o Conselho Episcopal Latino-americano, e quero reafirmá-lo eu também[20]. Ao tomar posição relativamente às atrocidades levadas a cabo no Novo Mundo, o Papa foi inequívoco quanto a esta problemática, assim como em relação ao martírio dos sacerdotes católicos às mãos de interesses inconfessados: “Eu quero dizer-vos, quero ser muito claro, como foi São João Paulo II: Peço humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América. E junto com este pedido de perdão e para ser justos, também quero que lembremos a milhares de sacerdotes, bispos, que fizeram oposição à lógica da espada com a força da Cruz[21].

Ao chegar ao Paraguai, na tarde de 10 de julho, o Papa Francisco aproveitou a ocasião para reafirmar, mais uma vez, o papel das mulheres na Igreja, reconhecendo, durante a visita de cortesia ao Presidente da República, Horacio Cartes, o contributo das mulheres para a reconstrução do país, na sequência da Guerra de 18641870 contra o Brasil, a Argentina e o Uruguai, que vitimou entre 60% e 70% da população e dizimou aproximadamente entre 70 e 90% dos homens, deixando um ratio de 4:1 mulheres em relação aos homens: “Como mães, esposas e viúvas, elas carregaram os fardos mais pesados; elas encontraram a maneira de seguir adiante com suas famílias e seu país, instilando nas novas gerações a esperança por um amanhã melhor[22]. Durante a missa campal, no Santuário Mariano de Caacupé, no dia 11, o Papa, apoiado na mensagem do Evangelho e reiterando a mensagem do dia anterior, enfatizou serem as mulheres as “guardiãs da memória, a corrente sanguínea daqueles que reconstroem a vida, a fé e a dignidade[23] do povo paraguaio.

A viagem apostólica de Francisco à IberoAmérica, caracterizada por uma expressiva dimensão missionária, esteve longe de ser um conjunto de formalidades protocolares e religiosas. Tal como afirmou na Bolívia, o Papa efetuou esta visita ao Novo Mundo como “peregrino e testemunha[24] da fé mas, também, como alguém que não hesitou em denunciar a exclusão, a violência e o abuso dos poderes públicos num continente historicamente marcado pela dor, o sofrimento e a morte.

A presença do Papa em alguns dos países mais pobres da América correspondeu, no dizer de Dom Fermín Carriquiry, VicePresidente da Comissão Pontifícia para a América Latina, à plenitude da geografia de Francisco, que “é a de uma Igreja solidária com o sofrimento dos povos, sejam ou não católicos. Como se viu nas suas duas Encíclicas, Francisco propõe um encontro que derrube muros e construa pontes[25] de entendimento entre as pessoas, as diversas confissões religiosas e, também, os modelos convivenciais de sociedade.

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Imagem O Papa Francisco é recebido por crianças indígenas na chegada a Quito” (Fonte):

http://www.publico.pt/mundo/noticia/papa-francisco-diz-que-a-pobreza-e-a-divida-que-a-america-latina-tem-1701219

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/tres-irmas

[2] Ver:

http://www.osservatoreromano.va/pt/news/tres-irmas

[3] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/07/05/actualidad/1436047828_340299.html

[4] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150705_ecuador-benvenuto.html

[5] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150705_ecuador-benvenuto.html

[6] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/es/homilies/2015/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-omelia-santa-cruz.html

[7] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150707_ecuador-societa-civile.html

[8] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/laudato-si-a-enciclica-do-papa-francisco-sobre-a-criacao/

[9] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150707_ecuador-societa-civile.html

[10] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150707_ecuador-societa-civile.html

[11] Ver:

http://pt.radiovaticana.va/news/2015/07/09/papa_padre_espinal,_assassinado_por_pregar_o_evangelho/1157081

[12] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150708_bolivia-espinal.html

[13] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/es/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150708_bolivia-espinal.html

[14] O tempo, irmãos e irmãs, o tempo parece exaurir-se; já não nos contentamos com lutar entre nós, mas chegamos até a assanhar-nos contra a nossa casa. Hoje, a comunidade científica aceita aquilo que os pobres já há muito denunciam: estão a produzir-se danos talvez irreversíveis no ecossistema. Está-se a castigar a terra, os povos e as pessoas de forma quase selvagem. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia – um dos primeiros teólogos da Igreja –  chamava ‘o esterco do diabo’: reina a ambição desenfreada de dinheiro. É este o esterco do diabo. O serviço ao bem comum fica em segundo plano. Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa casa comum, a irmã e mãe terra.”. Disponível em:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html

[15] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html

[16] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html

[17] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html

[18] Ver:

SÃO JOÃO PAULO II, Incarnationis Mysterium – Bula de Proclamação do Grande Jubileu do Ano 2000:

http://www.vatican.va/jubilee_2000/docs/documents/hf_jp-ii_doc_30111998_bolla-jubilee_po.html

[19] Ver:

  1. M. DE BARROS DIAS, “Espanha e Ibero-América, do Século XVI aos Nossos Dias: Relatos de Vida, Apatia e Esperança”, in FRANCISCO MARTINS RAMOS, et al. (Coordenação), Homenagem ao Professor Augusto da Silva, Évora, Évora, Universidade de Évora –   Departamento de Sociologia, 2000, pp. 105-116.

[20] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn6

[21] Ver:

http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/july/documents/papa-francesco_20150709_bolivia-movimenti-popolari.html#_ftn6

[22] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/francis-lauds-strength-of-paraguay-women-amid-nations-bloody-history-58346/

[23] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/pope-calls-on-paraguays-women-to-build-the-future-38015/

[24] Ver:

http://en.radiovaticana.va/news/2015/07/09/pope_francis_in_bolivia_a_pilgrim_and_a_witness/1157072

[25] Ver:

http://internacional.elpais.com/internacional/2015/07/05/actualidad/1436047828_340299.html

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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