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O papel das dinâmicas sociais nas Smartcities

“No Brasil, por exemplo, existem bairros como o Brás e o Bom Retiro que concentram um grande número de trabalhadores estrangeiros e trabalhadores informais, essa dinâmica funciona há décadas, o que transformou ambos bairros em grandes polos têxteis. Um projeto para transformar esses bairros, hoje degradados, em novos espaços deve integrar essas pessoas, caso contrário aumentará a desigualdade e a marginalidade já existentes.”

Wesley S.T Guerra
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Muito além dos prédios, serviços, empresas e governo, a população é o coração e a mente do espaço urbano, afinal, “são as pessoas que fazem uma cidade”.

Não é possível gerir de forma eficiente ou promover o desenvolvimento de projetos inteligentes sem levar em consideração as dinâmicas populacionais e a formação social de uma cidade. Caso contrário, um projeto sempre será incompleto ou irá gerar maiores assimetrias e desigualdades do que resultados ao longo do tempo.

Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais

Contemplar o município como um grande empreendimento ou uma grande organização, embora possa ser positivo para determinados setores, colide com a própria natureza desses espaços, já que nem todos os cidadãos estão incluídos socialmente, nem todos estão no mercado de trabalho formal, nem todos são legalizados (como no caso de alguns estrangeiros), nem todos tem possibilidades ou poder aquisitivo para acessar determinados serviços, existindo uma parcela dependente a longo prazo do Estado (órfãos, idosos sem recursos, pessoas incapacitadas) e, principalmente, o povo nem sempre responde como um grande rebanho às determinações  de alguns grupos, seja de forma consciente ou inconsciente.

Existem dinâmicas sociais oriundas da própria evolução do espaço urbano que, quando negligenciadas em um determinado projeto, afloram como uma forma de resistência ou de não aderência a um específico plano. O famoso “rolezinho”* que tomou conta das grandes cidades nos últimos anos é um exemplo desse processo.

O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência

Para consolidar uma Smartcity é fundamental conhecer as dinâmicas sociais de uma cidade e como as mesmas influenciam no próprio funcionamento do espaço urbano. No Brasil, por exemplo, existem bairros como o Brás e o Bom Retiro que concentram um grande número de trabalhadores estrangeiros e trabalhadores informais, essa dinâmica funciona há décadas, o que transformou ambos bairros em grandes polos têxteis. Um projeto para transformar esses bairros, hoje degradados, em novos espaços deve integrar essas pessoas, caso contrário aumentará a desigualdade e a marginalidade já existentes.

Nessa linha, podemos salientar que a comunidade estrangeira pode se transformar em um vetor importante da economia, quando são integradas às dinâmicas urbanas. Os estrangeiros podem gerar mão de obra, valor agregado e até mesmo competitividade. Mas a sua marginalização gera problemas de inclusão, informalidade e demais problemas. Uma cidade como São Paulo, pode fazer uso de suas comunidades de imigrantes para gerar sinergias com outras regiões do mundo e, através da paradiplomacia, transformar essa realidade em um fator competitivo – certo que isso já ocorre com as comunidades mais antigas – mas deve ser um processo contínuo.

Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo

Outro exemplo importante sobre o impacto da dinâmica social é a divisão populacional e os movimentos realizados dentro do espaço urbano, pois é um problema que vai além da simples mobilidade e que denuncia outros fatores, tais como a distribuição dos serviços, opções de lazer, trabalho, representações públicas, preço do metro quadrado, segurança etc. Muitas das cidades do Brasil sofrem com esse problema, a cidade de Florianópolis por exemplo, com menos de um milhão de habitantes, possui problemas de trânsito equivalentes aos da grandes cidades; o entorno de Brasília também enfrenta problemas de mobilidade e de concentração dos serviços e emprego na região central.

Uma cidade inteligente, precisa funcionar como um ente inteligente, formado por diversos processos e dinâmicas internas inerentes a esse espaço urbano. Caso os problemas sejam isolados e tratados mediante intervenções localizadas e pontuais, não haverá uma real repercussão na realidade da cidade, somente a solução temporária de uma deficiência. É necessário pensar a cidade como um espaço integrado, onde o fechamento de uma determinada avenida afetará o trânsito em uma região ao outro lado da cidade, onde o fechamento de espaços públicos na periferia aumentará o fluxo para a região central etc.

É de vital importância compreender que os projetos de Smartcity, mesmo liderados pelo poder público, não atendem a uma visão ideológica ou partidária, mas à própria natureza da cidade, aos seus desafios e as suas potencialidades, as suas mazelas e as suas conquistas. Cada projeto é algo único, já que cada cidade é um universo, sendo necessário ter a maturidade de aceitar que se trata de um projeto em benefício de todos, capaz de integrar e melhorar a qualidade de vida de todos, não somente por um período, mas a longo prazo.

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Nota:

* O termo “rolezinho” é uma gíria brasileira para designar um pequeno passeio com amigos para algum lugar, especialmente para Shoppings Centers.  

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Fontes das Imagens:

Imagem 1 Fases de uma cidade em uma cidade emergente e sustentável” (Fonte):

http://servicesaws.iadb.org/wmsfiles/images/0x0/-40249.png

Imagem 2 Trânsito Florianópolis. A mobilidade tem como origem problemas estruturais e dinâmicas sociais” (Fonte):

http://www.mobfloripa.com.br/imagens/noticia002688.jpg

Imagem 3 O Bairro do Brás gera um volume superior ao de muitas cidades no Brasil, porém é um espaço degradado e com elevadas taxas de violência” (Fonte):

https://media-cdn.tripadvisor.com/media/photo-s/0f/13/d6/a6/atacado-e-varejo.jpg

Imagem 4 Fluxo de trabalhadores na Grande São Paulo” (Fonte):

http://s2.glbimg.com/GHcbkefmKUhohwRnwWf_PPMMfDQ=/620×465/s.glbimg.com/jo/g1/f/original/2015/03/24/mapaibge.jpg

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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