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Shimon Peres, um dos fundadores do Estado de Israel, nascido Szymon Perski,  em 2 de agosto de 1923, em Višneva, Bielorrússia, faleceu em 28 de setembro de 2016, em Israel. Ele emigrou para a Palestina durante o Mandato Britânico, em 1934. Na juventude viveu num kibbutz da Galileia, onde desempenhou algumas tarefas junto a criadores de gado. Neste período, filiou-se no partido político Mapai, de ideologia sionista-socialista e, em 1944, foi eleito Secretário do partido. No ano de 1946, foi um dos delegados ao Congresso Sionista de Basileia e, no ano seguinte, passou a integrar o Haganah[1]. Ao longo dos seus 93 anos de vida, construiu a identidade de um líder hábil que dedicou a sua existência à defesa de seu país, cujas maiores vitórias não estão inscritas nos campos de batalha, mas no campo da condução dos negócios estrangeiros de seu país.

Diplomata exímio, Peres usou o seu talento em favor de Israel na medida em que se empenhou em edificar as bases da atual doutrina de Segurança e Defesa do Estado. Pioneiro do programa nuclear israelense, em 1959, ele conseguiu convencer o então Presidente francês, Charles de Gaulle, a vender um reator nuclear a Israel. Esta façanha permitiu ao seu país ter, mais do que uma arma de destruição em massa, um recurso de dissuasão do inimigo. Do mesmo modo, ignorando as perspectivas pouco otimistas a nível mundial, atuou na tentativa de se estabelecer a paz entre o seu povo e os palestinos, o que culminou no Acordo de Oslo (1993), assinado pelo Primeiro-Ministro de Israel, Yithzchak Rabin, e o líder palestino, Yasser Arafat. Embora a ação diplomática não tenha sido suficiente para pôr um fim definitivo ao conflito israelo-palestino, a iniciativa conseguiu mostrar que é possível a abertura para o diálogo. Esta atitude conferiu, em 1994, a Shimon Peres, o Prêmio Nobel da Paz, co-atribuído a Yithzchak Rabin e a Yasser Arafat.

Shimon Peres sobreviveu a todos os líderes da sua geração e, com habilidade política, transitou entre aliados e a oposição, sempre agindo em nome de um projeto coletivo e de bem-estar para Israel. Na longa jornada de sua vida pública, ele destacou-se por ser um grande negociador e um líder que tomou decisões importantes com repercussões positivas e, por vezes, controversas como, por exemplo, os acontecimentos acerca do campo de refugiados palestinos de Jenin, no norte da Cisjordânia. Sobre esta questão, afirma-se que Peres, na ocasião Ministro das Relações Exteriores de Israel, transformou o problema em “tabu[2]. Porém, os acertos e os erros que fazem parte da vida do estadista israelense compõem a trajetória de um homem cuja história individual se confunde com a própria história do país que ajudou a edificar, mesmo sob a ameaça externa constante presente no período que antecedeu a independência de Israel em 1948 e, também, na fase seguinte.

As condições adversas enfrentadas por Israel nas relações com os vizinhos árabes fomentaram a necessidade de se manter em alerta permanente. Esta situação fez com que muitos de seus fundadores sepultassem os sonhos de infância ante o objetivo maior, que era a consolidação do jovem país. Shimon Peres que, com tenra idade, sonhava ser pastor de ovelhas, ou “poeta das estrelas”, viu-se confrontado com realidades, muitas vezes hostis, que transformaram os desejos pueris e o levaram a trabalhar por um ideal nacional, servindo o seu país ao ocupar por quase 50 anos um assento como membro do Knesset (Parlamento israelense) e, também, a ser o único político israelense a assumir os cargos de Primeiro-Ministro e de Presidente.

A luta para fazer de Israel a potência regional mais forte do Oriente Médio correspondeu a uma meta conquistada por Shimon Peres. A profundidade estratégica que ele concebeu tornou-se o instrumento determinante na política de Segurança e Defesa israelense. O cenário de conflito, no qual Israel está inserido, levou o líder Shimon Peres, no decorrer da sua carreira política, a descortinar o nexo entre segurança e consenso. Para ele, mais do que as armas e a geografia, a paz tornou-se o recurso mais eficiente para assegurar a harmonia entre os judeus, os palestinos e os demais povos árabes. Na verdade, ele acreditava que era possível a paz entre Israel e os vizinhos árabes. Esta crença, alimentada por Peres, permaneceu até o seu último dia de vida enquanto que a sua proposta pacifista, de abertura ao diálogo e às negociações, parte importante de seu legado político, já há algum tempo está presente nas mesas de negociações, não somente de Israel, mas em situações que envolvem os conflitos mais complexos da atualidade.

Shimon Peres foi o braço direito de David Ben Gurion e, quando foi necessário, cumpriu com afinco o papel de comprador de armas no exterior numa fase difícil para Israel que, recém-independente, era militarmente frágil e enfrentava a Guerra da Independência. Porém, a tarefa que lhe foi atribuída, embora tenha sido vital para o país, não significou, para a população de Israel, algo digno de enaltecimento pelo fato de ele não ter envergado uniforme militar nem ter pegado em armas em 1948. Isto implicou na pouca popularidade de Peres, pois “os eleitores israelenses nunca respeitaram ou confiaram nele tanto quanto nos contemporâneos como Yithzchak Rabin e Yigal Allon, que tinham sido comandantes famosos da Guerra de Independência”. Esta situação foi alterada somente nos últimos anos como Presidente, embora, no exterior, sempre tenha sido considerado um político excepcional. Enquanto “figura de relevo universal”, Peres desempenhou um papel decisivo em momentos cruciais da política israelense, tanto ao nível interno quanto ao externo. Durante sete décadas de vida pública, a mais longa da história de Israel, que vai desde antes da independência até o fim do mandato de Presidente, em 2014, ele ocupou todos os cargos do Estado e jamais perdeu a esperança naquilo em que acreditava, mesmo quando foi derrotado em várias eleições.

Aquando da morte de Shimon Peres, o povo israelense sentiu pela falta daquele que aprendeu a amar. No instante em que foi anunciado o falecimento do derradeiro fundador de Israel, quase todo o mundo, atualmente carente de líderes sérios, avaliou a perda de um dos últimos grandes políticos dos nossos tempos, que foi, também, o “símbolo da busca por um consenso nacional”. Ele morreu como um lutador incansável pela paz, no momento em que muitas pessoas deixaram de acreditar nesta possibilidade. Peres não conseguiu ver realizado o projeto de paz entre o Estado israelense e os vizinhos árabes, mas plantou uma semente que, por mais discreta que seja, está presente quando se abrem as possibilidades de negociações e de diálogo entre Israel e a Palestina. O trabalho do homem que escreveu: “sou filho da geração que perdeu um mundo e construiu outro”, legou-nos o exemplo de que, com seriedade, é possível construir um país próspero e que, simultaneamente, a melhor segurança é aquela pautada pela paz.

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ImagemShimon Peres” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/4/4f/Shimon_Peres_at_2009_WEF.jpg

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Notas e Fontes bibliográficas:

[1] Haganah: Organização paramilitar sionista, atuante durante o Mandato Britânico da Palestina, entre 1920 e 1948. Lutou contra a ocupação britânica e, também, contra a população local, de origem árabe.

[2] Ver:

Marli Barros Dias. Israel e Palestina: O Papel do Poder Político e da Ideologia na Construção da Paz, Curitiba: Juruá Editora, 2015, pág. 132.

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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