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Desde o verão (do hemisfério norte) do ano passado, o Líbano vinha presenciando uma intensificação do transbordamento das tensões na Síria, país vizinho, para seu território. Em 15 de agosto de 2013, 20 pessoas foram mortas em ataque de carro bomba em reduto do Hezbollah no sul de Beirute[1]. Uma semana mais tarde, dois carros bombas explodiram próximos a mesquitas na cidade libanesa de Tripoli, deixando 42 mortos e mais de 400 feridos[2]. Em novembro de 2013, duplo atentado suicida à Embaixada Iraniana em Beirute deixou pelo menos 22 mortos e mais de 140 feridos em Beirute[3].

Os grupos terroristas (sunitas) afiliados à Al-Qaeda, Nusra Front e Brigada Abdullah Azzam, incluíram a oposição sistemática ao Hezbollah (xiita) em suas agendas, afirmando, após cada ataque, que eles “continuariam até que os militantes do partido [o Hezbollah] se retirassem da Síria[4].

A oposição entre sunitas e xiitas esteve no cerne do acirramento de tensões no norte do país, como relatado pela Human Rights Watch em dezembro de 2013[5], e consiste no principal exemplo do transbordamento do conflito sírio – também dividido em uma dicotomia sunita-xiita – para o território libanês.

No entanto, nos últimos meses, a frequência de ataques terroristas em solo libanês, que vinham atuando como um grande desestabilizador do sensível equilíbrio sectário no país, caiu drasticamente nos últimos meses. Abril de 2014 foi o primeiro mês a não experienciar explosões desde outubro de 2013, refletindo uma melhora gradativa de 5 ataques suicidas em fevereiro para apenas 2, em março, sendo estes últimos confinados à região fronteiriça com a Síria[4].

Observadores internacionais têm apontado o sucesso libanês à combinação de forças do Governo com as do próprio Hezbollah; isto é, os grupos terroristas filiados à al Qaeda atuantes no país “uniram os atores mais poderosos do Líbano contra eles[4][6].

Em artigo publicado nessa semana na revista online Foreign Policy, a analista Susannah George explicou que a lógica por trás dessa aliança é “fazer qualquer coisa para interromper os [ataques de] carros bombas[7].

O Ministro do Interior libanês, Nohad Machnouk, é um alto oficial do partido Corrente para o Futuro (Future Movement), predominantemente sunita e contrário a Assad, além de ser crítico sonoro do Hezbollah, a quem culpa por ter trazido a guerra civil na Síria para o Líbano. Ainda assim, ele percebeu, como aponta a especialista, que para solucionar a crise humanitária de abril na vila de Tufail[8], ele dispunha de apenas duas opções: trabalhar com o Governo sírio ou com o Hezbollah. Ele optou pelo Hezbollah, porque “eles são libaneses, afinal[7], afirmou.

Como observa Susannah George, essa aliança, adicionando suporte político a medidas que até então se fundavam apenas na força, foi capaz interromper o transbordamento do conflito sírio no Líbano[7].

Contudo, os ataques terroristas que vinham se tornando frequentes desde a metade do ano passado (2013) – e agora parecem ter encontrado uma solução ao menos provisória – não são a única fonte de estabilidade no país. Hoje, com mais de um milhão de refugiados vindos da síria, correspondendo a cerca de 25% de sua população, o Líbano enfrenta o desafio de hospedar uma crescente população refugiada que não apenas esgota seus recursos, mas também afeta diretamente o sensível equilíbrio sectário no país[9].

Considerando que o país recentemente negou a entrada de refugiados vindos da Síria, e mesmo retornou refugiados ao país de origem, violando o princípio internacional de non-refoulement[11], a busca libanesa por formas de se proteger das consequências do conflito no país vizinho leva a questionar até que ponto a estabilidade do Líbano não será garantida às custas dos direitos (e das vidas) daqueles que também procuram sobreviver à guerra civil síria.

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ImagemPôster do presidente sírio Bashar al-Assad e do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, próximo a Damasco” (Fonte):

http://www.nytimes.com/2014/05/21/world/middleeast/syrian-fighting-gives-hezbollah-new-but-diffuse-purpose.html?_r=0

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Fontes consultadas:

[1] Ver:

http://www.reuters.com/article/2013/08/15/us-lebanon-explosion-idUSBRE97E0S520130815

[2] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/News/Lebanon-News/2013/Aug-23/228408-explosion-heard-in-north-lebanon.ashx#axzz32ClTdapQ

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-middle-east-24997876

[4] Ver:

http://www.dailystar.com.lb/Opinion/Commentary/2014/May-20/257054-has-lebanon-ended-al-qaeda-attacks.ashx#axzz32KKK8Qlw

[5] Ver:

http://www.hrw.org/news/2013/12/19/lebanon-sectarian-attacks-tripoli

[6] Ver:

http://www.aawsat.net/2014/04/article55331706

[7] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/05/20/strange_bedfellows_and_a_strange_calm_in_lebanon_hezbollah_syria

[8] Ver:

http://www.naharnet.com/stories/en/127573

[9] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/refugiados-sirios-no-libano-pais-dos-cedros/

[10] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/libano-rejeita-refugiados-palestinos-vindos-da-siria/

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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