LOADING

Type to search

Share

[:pt]

Situado no extremo oriental do Mar Mediterrâneo, o Chipre é um país insular que transita entre dois mundos. Geograficamente está localizado no Oriente Próximo: a 65 km da Turquia, 100 km da Síria e a 770 km da parte continental da Grécia. Contudo, cultural e politicamente sua história está intimamente ligada à Europa e suas tradições cristãs, mesmo após ter passado mais de 300 anos sob domínio islâmico do Império Otomano.  

Trata-se de um país marcado por um conflito político que divide seu território em duas partes: uma habitada pela população de ascendência turca e outra pela população de ascendência grega. As origens do litígio remontam ao ano de 1963, três anos após o Chipre tornar-se independente do Reino Unido, quando os desentendimentos políticos internos começavam a se acirrar. Em 1964, a Organização das Nações Unidas (ONU) instalou no país uma força para manutenção da paz que continua ativa até hoje. 

Mesmo com a presença da ONU no terreno, as décadas seguintes assistiram ao surgimento do que atualmente é uma das querelas internacionais mais longevas na pauta da ONU. Em 1974, após mais de uma década de desentendimentos políticos entre cipriotas de origem turca e de origem grega, a Grécia interveio politicamente na ilha. Em resposta, o Governo da Turquia ocupou militarmente a parte mais ao norte do território, situação que persiste inalterada até o presente. Estava desenhado, então, o caso que a comunidade internacional conheceria como o “Problema do Chipre(Cyprus Problem).

Por diversas ocasiões o “Problema do Chipre” foi alvo de mediação da ONU, mas sempre sem conseguir alcançar a almejada reunificação da ilha. Em maio de 2015 começou a rodada mais recente de mediação, novamente liderada pela ONU. Desde então, vários encontros bilaterais foram realizados entre os representes políticos da comunidade cipriota grega, que comanda o governo internacionalmente reconhecido do país, e os líderes da comunidade cipriota turca, que comanda a República Turca do Norte do Chipre reconhecida somente pela Turquia.

Ao longo de 2016 as conversas se aprofundaram, gerando expectativas de que as partes poderiam chegar a um acordo ainda neste ano. Em agosto, uma fonte diplomática da União Europeia disse que “o senso de urgência sobre a matéria é elevado e que existe a real percepção de que o momento para o acordo é agora, pois a janela para a reconciliação começa a se fechar após o final deste ano” (tradução livre).

O mês de setembro acumulou uma série de eventos que evidencia a vitalidade da atual rodada de negociações. No dia 14, líderes das duas comunidades cipriotas lançaram um comunicado conjunto, após uma série de oito reuniões, apresentando os avanços das discussões sobre um novo arranjo político para o país e destacando o compromisso de chegar a um acordo ainda neste ano.  Nos dias 16 e 20 de setembro, o Presidente do Chipre, Nicos Anastasiades,  reuniu-se respectivamente com líderes da União Europeia e da Rússia, dois interlocutores estratégicos ao longo das rodadas de negociações, dando força à leitura do diplomata europeu mencionado acima.

Na sequência, o Presidente do Chipre dedicou boa parte do seu discurso na 71ª Assembleia Geral das Nações Unidas, proferido no dia 22 de setembro, em Nova Iorque, para dar publicidade aos avanços na discussão da futura Constituição Federal do Chipre, principalmente nas temáticas Governança, União Europeia e Economia. Na ocasião foi ressalvado, porém, que diferenças críticas persistiam na temáticas Propriedade, Território, Segurança e Garantias.

Dois dias depois, ainda em Nova Iorque, os líderes cipriotas de ambas as comunidades se encontraram com o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-Moon. Em tom avalizador, ele saudou a boa vontade dos líderes e o progresso das negociações, deixando claro seu engajamento pessoal no processo e o interesse da ONU em ver a querela resolvida com a maior brevidade possível.

Comprometido com a resolução do litígio e interessado em finalizá-lo em 2016, o Presidente cipriota fez das festividades do 56º Aniversário de Independência de seu país, comemorado no dia 1º de outubro, um chamado à unidade nacional. Além de reafirmar o conteúdo do discurso proferido na semana anterior, em Nova Iorque, o Mandatário falou em tom mais duro sobre a ocupação ilegal do território cipriota pela Turquia, instando-a a retirar-se. Ele declarou que “a implementação (da paz) não está somente nas mãos dos cipriotas, pois depende diretamente da demonstração de boa vontade por parte da Turquia (em retirar suas tropas do território cipriota)” (tradução livre).

A expectativa é que sejam realizadas por volta de nove ou dez reuniões no mês de outubro entre as equipes dos dois líderes cipriotas. Na última terça-feira, dia 4 de outubro, foi realizada a primeira delas, com a participação de ambos. Foram revisados os pontos já acordados e aventada a possibilidade de aprofundamento do debate sobre o tema Território da futura Constituição Federal, um dos mais críticos da agenda de negociação. Segundo o Presidente do Chipre, dependendo dos avanços obtidos nessa temática, as portas começariam a se abrir para uma possível reunião multilateral com o objetivo de tratar do tema Garantias, juntamente com as terceiras partes diretamente envolvidas: Turquia, Grécia e Reino Unido*. Fato que representaria um significativo avanço no processo de paz.

———————————————————————————————–                    

* O Reino Unido está diretamente envolvido no ‘Problema do Chipre’ porque por mais de 50 anos o Chipre fez parte do Império Britânico. Após a independência, que foi negociada entre as autoridades locais e os britânicos, em 1960, ambos os países continuaram a ter uma relação comercial e política privilegiada, em boa medida desenvolvida no âmbito da Commonwealth of Nations. Além disso, até hoje, o Reino Unido mantém na ilha duas bases militares operacionais que ocupam em torno de 2,8% do território cipriota.

———————————————————————————————–                    

ImagemO Chipre divido: ao norte está a comunidade de origem turca e ao sul a de origem grega” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/70/Cy-map.png

[:]

Marcos Françozo - Colaborador Voluntário

Graduado em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e mestre em Política Internacional e Comparada pela Universidade de Brasília (UnB). Possui experiência acadêmica nas áreas de governança internacional, estudos europeus e regimes internacionais. Atualmente é Analista de Relações Internacional na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) com atuação nas áreas de articulação, desenvolvimento e cooperação internacional. Principais ramos de atuação: Relações Internacionais, Políticas Globais, Europa, Cooperação Técnica e Cooperação Científica.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!