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O prolongamento das negociações nucleares com o Irã

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Na última segunda-feira, 24 de novembro, os sete países envolvidos nas conversas acerca do Programa Nuclear Iraniano – notadamente, de um lado, o Irã, e, do outro, o P5+1, composto por Alemanha, China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – anunciaram um novo prazo para a conclusão das negociações[1].

Enquanto alguns criticaram a extensão, afirmando que apenas dará ao Irã uma maior margem de manobra[2], tempo parece ser o principal fator sobre o sucesso ou o fracasso das negociações.

Como observado por Aaron David Miller e Jason Brodsky, escrevendo para a Foreign Policy, os dois lados negociantes enxergam o tempo de forma diferentes. Enquanto os americanos – e também seus aliados nas negociações – possuem um senso temporal focado em blocos de 4 e 8 anos, guiados por eleições e pela política, o relógio iraniano parece ser mais flexível: “apesar do quão pressionados aqueles que querem um acordo possam se sentir, o Irã demonstrou uma notável capacidade de resistir à pressão econômica e de se ajustar à imposição de sanções e declínio dos preços do petróleo[3]. As sanções econômicas de longa data sobre o Irã tiveram, sim, um peso econômico responsável por trazer o país à mesa de negociações, mas elas não podem forçar um Acordo.

Como destaca George Perkovich, o P5+1 tem enxergado o problema como uma questão de cumprimento iraniano com as regras de transparência previstas pelo Acordo Nuclear de Não-Proliferação (assinado pelo Irã) e de indicações de que seu Programa Nuclear é pacífico. Sob essa perspectiva[4], as negociações nucleares tratam de uma construção de confiança internacional, tarefa para a qual tempo é essencial.

De fato, o Irã tem buscado manter o máximo possível de sua capacidade nuclear enquanto tenta reduzir ao mínimo as sanções econômicas – e, para isso, a diplomacia iraniana tem jogado com o (e por mais) tempo[3]. Isso fica claro ao observar que a administração Obama, ansiosa por alcançar um acordo, “parece pronta para concordar com termos que, há alguns anos atrás, consideraria inaceitáveis[5]. Entrementes, com a suspensão parcial de sanções, o Irã conseguiu conter uma inflação galopante, aumentar sua exportação de petróleo e melhorar a confiança do setor privado[6].

No entanto, o tempo também se torna um fator perigoso para o sucesso das negociações, na medida que o Congresso americano, “suspeitando que o presidente [Obama] aceitaria mesmo um mau acordo a fim de reivindicar uma vitória para sua política externa[5], está ameaçando acirrar as sanções americanas sobre o Irãantes que um acordo seja alcançado[5]. Nesse contexto, a pergunta que surge é: o Irã e o P5+1 terão, de fato, 7 meses a mais para chegar a um acordo final?

Por um lado, Jeffrey Lewis, para a Foreign Policy, aponta que se tais sanções tivessem sido aprovadas anteriormente, os Estados Unidos teriam conseguido maior poder de barganha, aumentando as chances de alcançar um acordo favorável dentro do prazo previamente estabelecido[2]. Ao mesmo tempo, no entanto, esse argumento reflete o que Leonam Guimarães destacou, em análise de conjuntura publicada no CEIRI NEWSPAPER, como uma lógica errônea, que tem nas “sanções internacionais e ameaças de ação militar [como] a melhor tática para alterar a política de Teerã e interromper suas atividades de enriquecimento[7]. Em verdade, a aprovação de tais sanções poderiam prejudicar os avanços obtidos durante o último ano de negociações.

Lewis, em seu artigo, se pergunta se as partes envolvidas têm qualquer motivo para acreditar se as negociações se tornarão mais fáceis com o tempo concedido pela extensão[2]. O secretário de estado americano John Kerry respondeu a essa pergunta em frente a diversos jornalistas, em Viena. Afirmou: “Essas discussões não serão mais fáceis simplesmente porque nós a prolongamos. Elas são difíceis e continuarão difíceis[8]. Portanto, a aprovação, pelo Congresso americano, de novas sanções tornaria tais discussões ainda mais difíceis. Nesse cenário, as negociações nucleares tornam-se, mais do que um jogo por mais tempo, uma contagem regressiva.

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ImagemOs representantes dos governos americano e iraniano nas negociações, John Kerry (à esquerda) e Mohammad Javad Zarif (à direita), respectivamente” (Fonte):

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/11/24/4_big_reasons_the_iranian_nuclear_deal_didn_t_happen_zarif_kerry                                                        

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://www.nytimes.com/2014/11/25/world/middleeast/iran-nuclear-talks.html?_r=0

[2] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/11/24/the_iran_nuke_extension_is_a_death_sentence_vienna_talks_framework_congress

[3] Ver:

http://www.foreignpolicy.com/articles/2014/11/24/4_big_reasons_the_iranian_nuclear_deal_didn_t_happen_zarif_kerry

[4] Ver:

http://carnegieendowment.org/2014/11/25/iran-nuclear-talks-extended-again/hvc4

[5] Ver:

http://www.foreignaffairs.com/articles/142386/peter-d-feaver-and-eric-lorber/long-view-on-iran

[6] Ver:

http://carnegieendowment.org/2014/11/20/risk-of-premature-sanctions/hv0q

[7] Ver:

http://jornal.ceiri.com.br/dez-razoes-para-o-ira-nao-querer-a-bomba/

[8] Ver:

http://www.liberation.fr/monde/2014/11/24/l-iran-et-les-puissances-occidentales-reportent-leurs-discussions-a-decembre_1149633

 

Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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