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O que se deve priorizar quanto a implementação de políticas públicas no Brasil e no exterior: Mitigar ou Adaptar às Mudanças Climáticas?

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As precipitações neste mês de junho, marcado pela estiagem, surpreendem os brasilienses, que bateram recordes de ligações para o “Instituto Nacional de Meteorologia” (INMET). Normalmente, junho, em Brasília, significa período de intensa seca, sem chuvas e de pouca umidade.  Entretanto, o que se pôde verificar no início deste mês são temporais, baixas temperaturas e uma paisagem típica dos meses de janeiro e fevereiro.  Ao mesmo tempo, na Europa, a chuva castiga a Alemanha, tendo ocorrido a maior enchente em 10 anos, destacando-se ainda a temperatura extremamente baixa para o período do verão europeu.

Entretanto, de acordo com alguns estudos, todas essas variações climáticas nada comuns no mês de junho são normais. A forte chuva que ocorreu nos últimos dias em Brasília é explicada pelo INMET como um fenômeno cíclico, que ocorre a cada cinco ou sete anos.  

No caso da Europa, as enchentes têm causado importantes danos materiais nas regiões central e sul da Alemanha, República Checa, Áustria, Eslováquia e Hungria, sem mencionar as vidas que foram perdidas.  Diques que represam os rios Elba, Danúbio, Moldava e o Saale transbordaram e o nível da água foi acima dos 9 metros.

Diante desse cenário, deve-se destacar as consequências econômicas das mudanças climáticas, que têm sido cada vez mais frequentes, conforme está sendo observado neste ano.  A produção de leite e de produtos lácteos, por exemplo, tem sido significativamente afetada.  Entre janeiro e março, a produção de leite na “União Europeia” foi aproximadamente 1,1% menor que no ano anterior. A atual produção continua abaixo de 2012 na França, no “Reino Unido” e Irlanda, entre outros países.  O clima frio predominante em grande parte da “Europa Ocidental” e o lento início da primavera e verão está atrasando o crescimento do pasto, que em muitas regiões foi severamente afetado pelas recentes enchentes. Com isso, a produção de leite continua vários pontos abaixo do percentual do ano anterior.

No início do ano, ocorreu na “Nova Zelândia” um longo período de estiagem, que resultou no aumento do custo da produção do leite e consequentemente no aumento do seu preço no mercado interno. A diminuição da oferta de leite na “Nova Zelândia” afetou também as exportações para a China, país que tem acordo comercial com os neozelandeses, mas sua demanda não pode ser suprida. 

Com uma demanda maior que a oferta disponível, o preço do leite na China também aumentou e houve a necessidade de comprar a demanda reprimida de leite em outros mercados internacionais, aumentando, assim, o preço internacional do produto. Para piorar, no momento, a produção de leite na “Nova Zelândia” está diminuindo, à medida que o inverno se aproxima na região.

Na mesma semana em que estes eventos climáticos no Brasil, na Europa e na Oceania ocorreram, foi realizada entre os dias 3 e 7 de junho a sétima “Conferência Europeia sobre Tempestades Severas”, em HelsinkiFinlândia. De acordo com os estudos apresentados na Conferência, ainda que preliminares, a expectativa é de que tempestades, granizo, tornados e outras intempéries devam ficar cada vez mais frequentes e extremas em consequência das mudanças climáticas. 

Nesse sentido, é possível levantar o debate sobre o que se deve fazer quando confrontamos a atual situação das mudanças climáticas, se devemos trabalhar para mitigá-la ou simplesmente fazer uma adaptação à nova realidade, criando diques, como na Alemanha, que, no entanto, tenderão a ser cada vez mais altos para conter níveis de enchentes sequencialmente maiores, apesar de que, tal situação, seja simplesmente impensável quando deparamos com a realidade brasileira, por exemplo, que tem rios com uma variação de nível de água extremamente grande entre os períodos de seca e chuvas, além de serem imprescindíveis para a preservação das florestas.

Enquanto isso, as políticas públicas ambientais, tanto no Brasil como no âmbito internacional, seguem a passos lentos. No Brasil, o “Fórum Brasileiro de Organizações Não-Governamentais e Movimentos Sociais” (FBoms) e o “Observatório do Clima” (OC), redes que juntas congregam mais de 700 organizações da sociedade civil, se retiraram do processo de revisão do “Plano Nacional sobre Mudança do Clima” (PNMC), em retaliação ao longo atraso do “Governo Federal” e a falta de elementos, como a definição clara da metodologia para que fossem realizados diálogos setoriais como etapa inicial do processo de revisão do PNMC.  Sem mencionar que, até o momento, não existe uma estratégia nacional de REDD+*  (apesar de vários estados brasileiros já possuírem) e o “Código Florestal”, que completou um ano desde a sua implementação, ainda possuir pendências.

Apesar do ceticismo que se manifesta acerca das negociações internacionais de mudanças climáticas, lideradas pela “United Nations Climate Change Secretariat” (UNFCCC, em português, “Secretaria de Mudanças Climáticas das Nações Unidas”) sob comando da secretária executiva Christiana Figueres, emerge a esperança de que as negociações progridam e na próxima “Conferência das Partes” não represente apenas mais uma reunião anual, mas, sim, um momento de decisões concretas.

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* REDD+: Sistema Nacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação, Conservação, Manejo Florestal Sustentável, Manutenção e Aumento dos Estoques de Carbono Florestal.

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Imagem – Mapa (Fonte):

http://www.focus.de/wissen/natur/meteorologie/lage-in-deutschland-hochwasser-karte-zeigt-betroffene-staedte_aid_1004195.html

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Fontes consultadas:

[1] ver:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/06/11/interna_cidadesdf,370744/sem-registro-de-chuvas-inmet-preve-estiagem-ate-o-mes-de-agosto.shtml

[2] ver:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/06/05/interna_cidadesdf,369698/chuvas-inesperadas-em-junho-podem-ocorrer-em-ciclos-de-cinco-ou-sete-anos.shtml#.Ua-kt_-abPQ.twitter

[3] ver:

http://www.ams.usda.gov/AMSv1.0/ams.fetchTemplateData.do?template=TemplateR&navID=MarketNewsAndTransportationData&leftNav=MarketNewsAndTransportationData&page=DairyMarketNewsCommodityReportsInternationa

[4] ver:

http://www12.senado.gov.br/codigoflorestal/infograficos/economia-verde-1

[5] ver:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/06/05/interna_cidadesdf,369692/tempo-deve-continuar-encoberto-nesta-quarta-feira-diz-inmet.shtml

[6] ver:

http://www.focus.de/wissen/natur/meteorologie/kurz-erklaert-wetterphaenomen-verschwindender-schnee_aid_712653.html

[7] ver:

http://exame.abril.com.br/meio-ambiente-e-energia/noticias/aumento-das-aguas-do-elba-rompe-outro-dique-na-alemanha

[8] ver:

http://www.focus.de/panorama/videos/elbe-hochwasser-akw-kruemmel-muss-erstmals-fluttore-schliessen_vid_39422.html

[9] ver:

http://www.institutocarbonobrasil.org.br/?id=734216

[10] ver:

http://www.climatenewsnetwork.net/register/?redirect_to=/2013/06/intense-thunderstorms-likely-to-batter-a-warming-world/

[11] ver:

http://diepresse.com/home/wirtschaft/economist/1415677/Hochwasser_Bauernbund-fuer-hoehere-Milchpreise 

[12] ver:

http://oc.org.br/cms/arquivos/cartadilmafbmcass.pdf

[13] ver:

http://unfccc.int/files/press/press_releases_advisories/application/pdf/20130611_sbi.pdf

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Bernhard Javier Lago Smid - Colaborador Voluntário Sênior

Doutor pela ESC Rennes (França), possui Mestrado em Negócios Internacionais pela Munich Business School (Alemanha) e MBA em Comércio Exterior pela Fundação Getúlio Vargas (Brasil). Atualmente, é Diretor Executivo do Instituto de Capital Natural da Amazônia – ICNA, uma ONG com sede em Manaus (Brasil), que atua em questões relacionadas ao meio ambiente e ao clima (silvicultura, REDD+, pagamento por serviços ecossistêmicos, análise de políticas e assuntos governamentais). Através do ICNA, Bernhard compõe o CCT sobre Salvaguardas de REDD, estabelecido pelo Ministério do Meio Ambiente. Além de seu trabalho no ICNA, é relevante mencionar seu envolvimento com a empresa Matchmaking Brazil, que presta consultoria e apoio em gestão empresarial, gestão da qualidade, comércio exterior e promoção de comércio internacional. Adicionalmente, é associado sênior e membro da comissão de relações de mercado na Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais (ABRIG) e Membro do Conselho Diretor da Climate Markets & Investment Association (CMIA), com sede em Oxford – UK. Adicionalmente, ele participa frequentemente de vários treinamentos e workshops sobre agronegócios e mudanças climáticas, incluindo o treinamento oferecido pela International Carbon Action Partnership – ICAP, Alemanha, para Líderes de Países Emergentes e em Desenvolvimento; a Summer School sobre mudanças climáticas e a adaptação de cidades e áreas metropolitanas (Havencity University de Hamburgo, Alemanha); e o curso técnico em agronegócios (CNA / SENAR).Viajar e aprender novas culturas são a paixão de Bernhard, que já teve a oportunidade de viajar por prazer e trabalhar para um grande número de países. É fluente em português, inglês, espanhol e alemão. Outros detalhes estão disponíveis no Linkedin: http://www.linkedin.com/in/bsmid

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