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A Rússia em 2014 foi o epicentro das polêmicas diplomáticas relacionadas à crise ucraniana, cujas consequências das ações e reações, tanto de russos quanto de seus opositores, levaram ao longo do segundo semestre à perda da força de sua moeda, o Rublo. Junto a este cenário, e também neste período, o barril do petróleo sofreu uma forte queda no mercado internacional, o que tem forçado a economia russa a ficar perto do seu limite, de acordo com alguns especialistas. Para compreender o atual cenário da economia russa e o grau de influência do preço do petróleo na sua moeda, é necessário entender alguns dos elementos que envolvem a atual conjuntura internacional no que tange à questão da Ucrânia e as estratégias usadas no mercado mundial de petróleo.

Observando o histórico da crise ucraniana, analistas apontam que é possível identificar a anexação da República da Crimeia como sendo um “divisor de águas”, pois tal ação acabou escalonando para o cenário regional e depois mundial uma crise de segurança interna na Ucrânia, já que a Rússia recebeu logo após a anexação forte contraposição de Estados importantes da comunidade internacional, como Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, Austrália e membros da União Europeia, os quais lançaram Sanções contra instituições e personalidades russas.

É importante ressaltar que a Rússia, para anexar a República da Crimeia, utilizou o princípio da “autodeterminação dos povos”, pelo qual um determinado povo tem o direito legítimo de decidir seu destino e, por meio de um Referendo, optou pelo ingresso como subunidade da Federação Russa, solicitação oficial que, por sua vez, foi analisada no Congresso da Rússia e aprovada quase por unanimidade, resultando na introdução da Crimeia como uma República parte da Federação Russa.

A Rússia, em retaliação aos países que lhe aplicaram Sanções, cortou as relações comerciais em setores importantes, como o de laticínios e pescado[1], gerando aproximações e negociações com novos parceiros, algo que possibilitou o incremento das já existentes e significativas relações com o Extremo Oriente, em especial com a China, além do desenvolvimento e estímulo das relações comerciais com países da América Latina, dentre eles, o Brasil[2].

Com relação à exportação oriunda de sua matriz energética, novas parcerias com a China[3] se demonstram promissoras. Necessário se faz mencionar que, mesmo com os investidores captados e as novas parcerias feitas, o mercado com o oeste europeu era significativamente maior e, por essa razão, até o momento, tal perda acabou mantendo a evasão de capital da Rússia, enfraquecendo continuamente a sua moeda ao longo do ano de 2014, destacando-se ainda que uma forte acentuação da perda de valor da moeda ocorreu também devido à queda do preço do barril do petróleo.

O petróleo e o gás natural são as principais fontes de movimentação da economia russa até os dias de hoje. Devido a isso, a flutuação negativa do seus preços é um ponto de sensível reflexo no equilíbrio da economia da Rússia. Por essa razão, quando, no início de outubro[4], a Arábia Saudita anunciou a redução nos preços do petróleo, alegando querer aumentar a sua presença no mercado internacional, dois meses depois ela afetou a balança do preço mundial do barril de petróleo[5] e colocou a Federação Russa em uma situação econômica mais complicada do que a que se encontrava, pois, até então, os investidores observavam a sólida estrutura energética russa como um ponto forte de sua economia e apostavam nesta condição para aguardar o esfriamento das tensões ocorridas entre a Rússia e os países que lhe estavam enfrentando devido à Crise Ucraniana.

É possível constatar nesse caso que o argumento alegado pela Arábia Saudita da “presença no mercado” seja apenas uma cortina para não expor os possíveis reais interesses vinculados à conjectura internacional envolvendo à crise política e de segurança regional que compreende o problema entre Rússia e “Ocidente”, pois trouxe à tona uma estratégia norte-americana que está sendo aplicada no momento para baratear o preço do petróleo no mercado mundial, a qual pode também estar atrelada a esta questão. Nesse sentido, uma das possíveis causas indicadas por analistas para a redução do preço por parte da Arábia Saudita seria a concorrência que o gás de xisto e o óleo de xisto betuminoso estadunidense[6] tem exercido no mercado internacional, algo que, por sua vez, pode estar ligado a uma intenção norte-americana de afetar a Rússia.

Outras causas seriam que a Arábia Saudita tem interesse em pressionar a Rússia para cessar o apoio ao Programa Nuclear do Irã; cessar o apoio internacional a Bashar Al Assad, na Síria; além de buscar acelerar os processos de negociação envolvendo a região sudeste da Ucrânia, já que os sauditas estão alinhados com os objetivos norte-americanos[7].

A relação com o gás de xisto e o óleo de xisto betuminoso (que é um substituto do petróleo convencional, embora sua extração seja mais cara) é notavelmente fácil de ser identificada, uma vez que a diminuição do valor ocorreu em maior quantidade para a Ásia, tendo sido pequenina para o Estados Unidos, levando em consideração o impacto do mercado asiático para a Rússia. Existem, no entanto, controvérsias entre os especialistas, acerca da realidade dessa estratégia, uma vez que o óleo de xisto betuminoso e o gás de xisto não são concorrentes diretos no mercado asiático, algo que, no entanto, não invalida a percepção dessa relação.

Apesar desse cenário, é possível notar que, mesmo com as dificuldades e estratégias aplicadas contra a Federação Russa, o Governo deste país vem negociando a sua estabilização econômica atualmente com perspectivas de sucesso, pois vem pensando em várias alternativas ao impacto negativo que o baixo preço do petróleo tem trazido, ainda mais pelo fato de esta questão ter de ser levada em conta por uma questão de conceito, pois a força do petróleo está atrelada à imagem até esse momento construída de que a Rússia é uma potência energética, algo que pesa na sua capacidade de negociação internacional, bem como na captação de recursos e investimentos internacionais.

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Imagem (Fonte):

http://www.forbes.com/sites/chriswright/2014/11/07/a-plunging-rouble-shows-russias-spiralling-decline/

Link Direto:

http://blogs-images.forbes.com/chriswright/files/2014/11/ruble-e1415370731408-1940×1090.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] VerRussia Bans Food Imports in Retaliation for Western Sanctions” (Publicado em 7 de agosto de 2014):

http://online.wsj.com/articles/russia-bans-food-imports-in-retaliation-to-western-sanctions-1407403035

[2] VerRússia habilita 100 novos produtores de alimentos do Brasil (Publicado em 12 de agosto de 2014):

http://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2014/08/russia-habilita-100-novos-produtores-de-alimentos-do-brasil-20140812114006701771.html

[3] VerDocuments signed at the 19th Regular Meeting of the Heads of Government of Russia and China” (Publicado em 13 de outubro de 2014):

http://government.ru/en/news/15201/

[4] VerArábia Saudita anuncia queda de preços e influencia mercado de petróleo” (Publicado em 2 de outubro de 2014):

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/mundo/2014/10/02/interna_mundo,450226/arabia-saudita-anuncia-queda-de-precos-e-influencia-mercado-de-petroleo.shtml  

[5] VerPetróleo cai depois de a Arábia Saudita baixar preços” (Publicado em 4 de dezembro de 2014):

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/petroleo-cai-depois-de-a-arabia-saudita-baixar-precos  

[6] VerA nova economia do petróleo, segundo a Economist’: xeques versus xisto” (Publicado em 5 de dezembro de 2014):

http://oglobo.globo.com/economia/a-nova-economia-do-petroleo-segundo-economist-xeques-versus-xisto-14749289  

[7] VerIs the oil crash a secret US war on Russia?” (Publicado em 16 de outubro de 2014):

http://www.bbc.com/news/blogs-echochambers-29651742  

Daniel Costa Sampaio - Colaborador Voluntário Júnior

Pósgraduado em Ciência Política (IUPERJ) e Bacharel em Relações Internacionais (UCAM). Experiência profissional em Representação Comercial e atualmente Gerente de Projetos e Novos Negócios na Prefeitura do Rio de Janeiro. No CEIRI Newspaper escreve no grupo Europa desde março de 2013, em que desenvolve publicações com ênfase na Política Externa Russa.

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