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O Vaticano beatifica Dom Óscar Romero, o Arcebispo dos Pobres

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Óscar Arnulfo Romero y Galdámez (1917 – 1980), arcebispo metropolitano de San Salvador, foi morto pelo capitão Álvaro Saravia, um atirador de elite do Exército salvadorenho[1], quando celebrava missa na capela do Hospital da Divina Providência.

A opção de Dom Romero por uma Igreja defensora dos pobres, na América Latina, assim como pela defesa dos Direitos Humanos, a denúncia da repressão do regime militar de El Salvador e, também, da violência praticada pelos esquadrões da morte estiveram na origem de seu trágico final e de aproximadamente 40 pessoas que participavam em suas exéquias fúnebres, e foram massacradas por atentados à bomba e tiroteios indiscriminados.

O assassinato do padre Rutilio Grande García, sacerdote jesuíta amigo pessoal de Dom Romero, e de dois membros da Igreja, em Paisnal, em março de 1977, marcou o início da opção do bispo salvadorenho pelos pobres de seu país. No funeral de Rutilio, Romero apresentou as ideias-chave do caminho que o levaria ao martírio: “Esperamos a voz de uma justiça imparcial, porque, na motivação do amor, a justiça não pode ficar ausente, não pode haver verdadeira paz e verdadeiro amor com base na injustiça, na violência, na intriga[2].

Esta reflexão constituiria o foco da atuação moral de Dom Romero: a paz verdadeira só pode ser construída a partir da justiça social. Tendo como pano de fundo a violência e a exclusão existentes, à época, em seu país, o arcebispo implorou, no dia que antecedeu seu assassinato, em 24 de março: “Em nome de Deus e desse povo sofredor, cujos lamentos sobem ao céu todos os dias, peço-lhes, suplico-lhes, ordeno-lhes: cessem a repressão[3].

A morte de Dom Óscar Romero esteve na origem da Guerra Civil de El Salvador (1980 – 1992), conflito que pôs em confronto o Governo conservador e os guerrilheiros de esquerda aglutinados em torno da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional. Associado, por terceiros, à Teologia da Libertação, Dom Romero foi proclamado, em 1997, “Servo de Deus” pelo papa João Paulo II[4]; em 2010, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, reconhecendo a atuação de Dom Romero na Defesa dos Direitos Humanos, declarou o dia 24 de março como o Dia Internacional pelo Direito à Verdade acerca das Graves Violações dos Direitos Humanos e à Dignidade das Vítimas[5].

O Papa Francisco aprovou, no passado dia 3 de fevereiro, o Decreto para a beatificação de Dom Romero[6]. A cerimônia, que teve lugar em 23 de maio, na Praça O Salvador do Mundo, em San Salvador, foi presidida pelo cardeal Dom Angelo Amato, Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, na presença de mais de 200.000 pessoas. Estiveram presentes o presidente salvadorenho Salvador Sánchez Cerén, seus homólogos Rafael Correa (Equador), Juan Orlando Hernández (Honduras), Juan Carlos Varela (Panamá), assim como os vicepresidentes da Bolívia, Costa Rica e Belize[7].

O vigáriogeral de San Salvador, monsenhor Ricardo Urioste, um dos mais próximos colaboradores de Dom Romero, em entrevista concedida à Agência Católica de Notícias por ocasião da beatificação do BispoMártir, declarou que ele “nunca teve um pensamento marxista ou a ideologia marxista em sua mente[8]. Monsenhor Urioste, que serve como Presidente da Fundação Monsenhor Romero, aproveitou a oportunidade para contextualizar o legado de Dom Romero no período de tempo que se seguiu à sua morte. De acordo com Urioste, “a esquerda politizou-o, pondo-o como sua bandeira. E a direita também o politizou, afirmando coisas que são inverdades acerca do bispo, que são puramente falsas, eles denegriram-no[9].

Trinta e cinco anos após sua morte, El Salvador e o mundo têm, finalmente, a oportunidade de saber que a postura do arcebispo Romero, segundo Urioste, “foi sempre a de um sacerdote, a de um bispo, a de alguém que se guia pelas coisas do Evangelho e do Magistério da Igreja, e esta foi sua preocupação: levar a mensagem de Cristo e a mensagem da Igreja a todos os grupos e a todos os campos que havia no país. E isto tornava-o crítico de diversas situações de seu tempo, e falava dos ricos, ‘ai de vocês os ricos’, repetiu em diversas ocasiões. Esta era sua postura, a postura que, desde o Evangelho, queria levar uma nova ordem, uma nova nação, um novo ressurgir[10] da dignidade e esperança humanas.

As palavras de Dom Romero continuam a ecoar, hoje, ante as desigualdades e a barbárie que, um pouco por todo o mundo, se têm ampliado desde seu desaparecimento prematuro. Para o agora beato, “o maior perigo diante de tanta violência é que fiquemos insensíveis. Eu tento pensar diante de Deus que um só morto representa uma grave ofensa e que, todas as vezes que um homem ou uma mulher morre, é como matar novamente Jesus Cristo[11].

A lição de vida do ex-arcebispo salvadorenho continua sendo particularmente inspiradora numa época de crise global, como a nossa, em que o relativismo dos valores preside à vida de diferentes povos e culturas, gerando a indiferença e profundas injustiças sociais.

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Imagem Mural em honra de Dom Óscar Romero, Suchitoto, Cuscatlan (El Salvador)” (Fonte):

https://i.huffpost.com/gen/1206309/images/o-OSCAR-ROMERO-facebook.jpg

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://site.adital.com.br/site/noticia.php?lang=ES&cod=85113

[2] Ver:

http://fraternitasmovimento.blogspot.com.br/2015/05/romero-o-bispo-que-morreu-pelos-pobres.html

[3] Ver:

http://fraternitasmovimento.blogspot.com.br/2015/05/romero-o-bispo-que-morreu-pelos-pobres.html

[4] Ver:

http://saintsresource.com/saint-index/archbishop-oscar-romero-servant-of-god/

[5] Ver:

http://www.un.org/es/events/righttotruthday/

[6] Ver:

http://pt.radiovaticana.va/news/2015/02/04/d_romero_será_beatificado_papa_reconhece_o_seu_martírio/1121440

[7] Ver:

http://www.infobae.com/2015/05/23/1730631-el-salvador-se-vistio-fiesta-celebrar-labeatificacion-monsenor-oscar-romero

[8] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/insides-that-didnt-decompose-and-other-stunning-facts-about-oscar-romero-52016/

[9] Ver:

http://www.catholicnewsagency.com/news/insides-that-didnt-decompose-and-other-stunning-facts-about-oscar-romero-52016/

[10] Ver:

http://archivo.elfaro.net/dlgalp/romero/urioste.asp

[11] Ver:

http://fraternitasmovimento.blogspot.com.br/2015/05/romero-o-bispo-que-morreu-pelos-pobres.html

J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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