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[:pt]O Vaticano Defende a Condenação do Terrorismo pela Religião[:]

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O Ocidente que emergiu após os atentados de 11 de setembro de 2001, nos EUA, o Oriente Médio subsequente à criação do Estado Islâmico, em 2014, assim como a atividade dos grupos insurgentes na Ásia, no Chifre de África e na África Ocidental se assumem como variáveis que contribuíram para a instabilidade mundial que, atualmente, estamos vivendo.

No dia 19 de setembro, John Kerry, o Secretário de Estado dos EUA, se reuniu nas Nações Unidas, em Nova Iorque, com o Cardeal Dom Pietro Parolin, seu homólogo do Vaticano, numa cimeira destinada a debater as questões gerais relacionadas com os refugiados e migrantes. Ambos os líderes abordaram os problemas globais, assim como a situação humanitária na Síria. Um dia mais tarde, Dom Pietro Parolin, participou, também em Nova Iorque, no evento intitulado “Mantendo a Responsabilidade de Proteger: O Papel dos Líderes Religiosos na Prevenção de Atrocidades”, organizado pela Santa Sé e a Organização das Nações Unidas.

Naquela oportunidade, Parolin apelou à proteção das vítimas das atrocidades, tendo referido que tanto os líderes religiosos quanto as autoridades nacionais devem reforçar as medidas preventivas: “Em face destes crimes graves, existe uma responsabilidade grave, primeiro dos Estados nacionais e depois da comunidade internacional”. E continuou: “Parece inteiramente apropriado, por conseguinte, refletir acerca da responsabilidade dos líderes religiosos, especialmente num mundo cada vez mais interconectado, para ajudar a combater a propagação do ódio e da violência em nome da religião e para promover sociedades mais inclusivas e pacíficas”.

Em seu discurso, o Cardeal Parolin apontou a crescente popularização do extremismo, na religião, afirmando que algumas religiões foram manipuladas até se terem tornado campeãs da violência, do genocídio, de crimes de guerra e da limpeza étnica. Se as religiões são, para o Secretário de Estado do Vaticano, “um direito humano inalienável”, elas não estão na raiz das atrocidades, mas sim aqueles indivíduos que lutam pelo poder. De acordo com o Cardeal italiano, se “todas as religiões aspiram à paz”, em face da dor, do sofrimento e da morte coletivas, as “religiões não são a causa destes males que, em contrapartida, resultam de alguns interesses políticos, geopolíticos e econômicos, e do desejo de poder e de dominação”.

Naquela oportunidade, o Cardeal Parolin incitou os líderes religiosos e as autoridades nacionais a trabalharem em conjunto para compreenderem a responsabilidade das medidas preventivas, condenando o uso da religião para promover a violência: “Uma posição urgente é necessária por parte dos líderes religiosos para condenarem sem demora todas as formas de abuso da religião ou dos textos religiosos para justificar a violência e a violação da dignidade humana levada a cabo em nome de Deus ou de uma religião”. Ao finalizar sua intervenção, o Cardeal Pietro Parolin afirmou que a Santa Sé continuará a promover o princípio moral e jurídico fundamental da Responsabilidade para Proteger, assim como o direito a entender as consequências sociais da religião.

Deste modo, defendeu o dignitário: “Esperamos que através de esforços combinados dos líderes e crentes de todas as religiões e de todos os povos de boa vontade, em conjunto com as instituições estatais, baseados no respeito pela vida e pela dignidade humana, e orientados para o bem da pessoa humana, seja possível, um dia, pôr um final às atrocidades que por muito tempo abalaram a consciência da Humanidade, minando sua fibra moral e espiritual, tendo afastado as pessoas para longe do plano de Deus[1].

Reunido no dia 24 de setembro com sobreviventes do atentado de Nice, França, perpetrado em 14 de julho por Mohamed Salmene Lahouaiej Bouhlel, um “soldado do Estado Islâmico”, o Papa Francisco fez suas as palavras de Dom Pietro Parolin. Na Sala Paulo VI, local da recepção, no Vaticano, o Sumo Pontífice declarou: “É para mim uma grande emoção reunir-me convosco, vocês que sofrem no corpo ou em vossa alma porque numa noite de festa a violência vos golpeou cegamente, a vocês ou a alguém que vos é próximo, independentemente da origem ou religião. Eu quero partilhar a vossa dor, uma dor que é ainda mais viva quando eu penso nas crianças, por vezes famílias inteiras, cujas vidas foram ceifadas inesperada e dramaticamente”.

Prosseguindo seu discurso, Francisco abordou a possibilidade de se frear a violência em nossos dias. Ele reiterou: “O estabelecimento de um diálogo sincero e relações fraternais entre todos, em particular entre aqueles que confessam um Deus único e misericordioso, é uma prioridade urgente que os responsáveis, tanto políticos quanto religiosos, devem procurar promover e cada um é chamado a fazer cumprir em torno de si”. Neste contexto, de acordo com o Vigário de Cristo, mau grado “a tentação de se recolher em si mesmo, ou de responder ao ódio com o ódio e à violência com a violência sejam grandes, é necessária uma conversão autêntica do coração. Esta é a mensagem que o Evangelho de Jesus nos dirige a todos nós. Não podemos responder aos assaltos do Demônio a não ser pelas obras de Deus, que são o perdão, o amor e o respeito pelo próximo, mesmo se ele é diferente” de cada um de nós.

Dias mais tarde, em 29 de setembro, o Papa recebeu na Sala Clementina, no Vaticano, os membros de organizações católicas que servem no Iraque, na Síria e nos países limítrofes. Nesta ocasião, o Santo Padre elaborou o estado da arte naquela parte do mundo: “Um ano depois do último encontro, notamos com grande tristeza que, apesar dos muitos esforços feitos em várias áreas, a lógica das armas e da opressão, os interesses obscuros e a violência continuam a devastar estes países e, até agora, não se conseguiu pôr fim ao sofrimento desgastante e à violação contínua dos direitos humanos. As consequências dramáticas da crise já são visíveis muito além das fronteiras da região, sendo o grave fenómeno migratório a sua expressão”. Sublinhando sua preocupação relativamente às comunidades cristãs do Oriente Médio, “que sofrem as consequências da violência e olham para o futuro com medo”, o Papa ilustrou como, de modo prático, as diferentes Igrejas adotaram, no Oriente Médio, uma atitude comum contra a violência promovida pelos insurgentes: “Em meio a tanta escuridão, estas Igrejas mantêm bem alta a chama da fé, esperança e caridade. Elas, com coragem e sem discriminação, ajudam todos os que sofrem e trabalham para uma coexistência pacífica. Hoje, os cristãos do Oriente Médio são um sinal claro da misericórdia de Deus. Eles têm a admiração, o reconhecimento e o apoio da Igreja universal”.

Após São João Paulo II ter promovido, em outubro de 1986, em Assis, o encontro inter-religioso de oração, jejum e peregrinação, que reuniu representantes do judaísmo, islamismo, budismo, hinduísmo, religiões africanas, de outras confissões religiosas e ateus[2], os seus sucessores protagonizaram declarações enérgicas e tomadas de posição firmes quanto ao binômio paz/conflito. Atualmente, numa altura da evolução da Humanidade em que parece estarmos a viver o triunfo da marcha da insensatez, o Vaticano reafirma que o amor deve ser a única resposta ao mal. No âmago daquela que, no dizer do Papa Francisco, é a III Guerra Mundial em fragmentos[3], somente um esforço simultaneamente exigente e tolerante por parte das religiões e, ao mesmo tempo, de cada um de nós no caminho da não-violência poderá pôr fim ao ciclo de barbárie que estamos vivendo.

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ImagemDom Pietro Parolin durante uma missa em Caracas, julho de 2012” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Pietro_Parolin#/media/File:Monse%C3%B1or_Pietro_Parolin,_2012.JPG

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Notas e Fontes Consultadas para maiores esclarecimentos:

[1] Numa entrevista concedida a Paolo Mastrolilli, publicada pelo jornal La Stampa em 22 de setembro de 2016, Pietro Parolin esclareceu: “São importantes o respeito mútuo e a aceitação do Outro. Infelizmente, hoje, estamos testemunhando o revivalismo do extremismo e das tendências radicais. O radicalismo se caracteriza por uma atitude fechada em relação àqueles que não são como nós e que veem as coisas de um modo diferente. Em ordem a lidar com este problema tendo em vista sua resolução, necessita de ser obtido um grande acordo, começando pela maneira como as novas gerações são educadas, incutindo o respeito nelas. Eu uso a palavra respeito porque nós discutimos a tolerância na ONU, hoje, afirmando que não é palavra correta a usar. O que é necessário, em contrapartida, é o respeito mútuo, assegurando que cada pessoa seja aceite por ser quem é. Juntos, nós podemos construir algo bom, algo melhor”.

[2] O encontro de Assis “não foi único, porque João Paulo II regressou a Assis em 1993, para rezar pela paz nos Balcãs, com os judeus e os muçulmanos e, mais tarde, depois do dia 11 de Setembro de 2001, quando o mundo parecia deslizar inexoravelmente para o chamado ‘choque das civilizações e das religiões’”.

[3] Papa Francisco se referiu, até hoje, à III Guerra Mundial “fragmentada” nas seguintes ocasiões:

a) 18 de agosto de 2014, durante a viagem de regresso da Coreia do Sul. Ver:

http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2014/08/18/vivemos-a-3-guerra-mundial-diz-papa-francisco.htm

b) 13 de setembro de 2014, no Cemitério Militar de Redipuglia, na Itália. Ver:

http://www.bbc.com/news/world-europe-29190890

c) 06 de junho de 2015, durante a viagem apostólica a Sarajevo, capital da Federação da Bósnia e Herzegovina. Ver:

http://pt.euronews.com/2015/06/06/papa-francisco-evoca-especie-de-3-guerra-mundial/

d) 20 de setembro de 2015, no início da viagem apostólica a Cuba. Ver:

http://www.dn.pt/globo/interior/papa-pede-reconciliacao-nesta-atmosfera-de-terceira-guerra-mundial-que-vivemos-4787708.html

e) 14 de novembro de 2015, condenando os atentados de Paris, que tiveram lugar no dia anterior. Ver:

http://extra.globo.com/noticias/mundo/papa-francisco-chama-ataques-em-paris-de-uma-iii-guerra-mundial-desorganizada-18052432.html

f) 26 de agosto de 2016, Mensagem do Papa Francisco para a 50.ª Jornada Mundial da Paz, que terá lugar em 1 de janeiro de 2017, sob o lema “A Não-Violência: Um Estilo de Política para a Paz”. Ver:

https://press.vatican.va/content/salastampa/it/bollettino/pubblico/2016/08/26/0599/01345.html

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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