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[:pt]O Vaticano e o Esporte Promotor dos Valores da Lealdade e do Respeito Pelo Outro[:]

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Decorreu, na Sala Paulo VI, no Vaticano, entre 5 e 7 de outubro, a conferência internacional sobre o “Esporte ao Serviço da Humanidade”. O evento, que teve como ponto de partida um desafio lançado pelo Papa Francisco, foi organizado pelo Conselho Pontifício para a Cultura, com a colaboração do Comitê Olímpico Internacional e da ONU, tendo congregado cerca de 150 líderes do mundo do esporte, fé, negócios e da sociedade civil. A conferência, que contou com cerca de 7.000 participantes, pretendeu estabelecer os princípios de um novo movimento nos esportes.

Tal como em outras esferas da vida pública, o esporte, nomeadamente aquele que é praticado na vertente de rendimento, encontra-se sob escrutínio por parte da opinião pública mundial. Com efeito, escândalos diversos, da magnitude ainda imprevisível, têm abalado diversas modalidades esportivas e afetaram o prestígio de competições internacionais da mais elevada relevância. Ilustra aquilo que acabamos de afirmar, as pesquisas rumo à melhoria genética dos atletas[1], o escândalo de corrupção na FIFA, a autorização, pela Agência Anti-Doping dos EUA, a 200 atletas norte-americanos para utilizarem substâncias proibidas, a automutilação e a prática de tortura, ou seja, o doping dos atletas paralímpicos, o banimento do atletismo russo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, e a ingerência recorrente do Governo do Kuwait nos assuntos internos do Comitê Olímpico do país. Tentando recuperar o significado original das manifestações esportivas – mente sã em corpo são – a conferência “Esporte ao Serviço da Humanidade” desejou unir a prática das atividades esportivas à temática da espiritualidade. Para os organizadores da conferência, a vistos a história e os objetivos do evento, o “esporte, na sua forma mais simples, é uma das atividades humanas mais extraordinárias”. À luz do acabado de referir, se “o esporte impõe regras que apontam para uma competição justa, iguais oportunidades para todos, treinamento e prazer, e oferece aos participantes a oportunidade de alargar seus limites físicos e mentais, partilhar valores e experiências comuns”, a fé “é, talvez, o aspecto mais extraordinário da humanidade – a crença de que nós existimos em função e para um propósito; e que podemos viver de uma maneira que aumenta não só as nossas vidas, mas também as vidas daqueles ao nosso redor”. Deste modo, a relação copulativa entre esporte e fé pode, atualmente, “voltar a despertar as pessoas para o enorme poder para o bem que estes dois pilares da vida humana podem proporcionar” a cada um de nós.

No dia 5 de outubro, falando na cerimônia de abertura da conferência “Esporte ao Serviço da Humanidade”, o Papa Francisco frisou: “O esporte é uma atividade humana de grande valor, capaz de enriquecer a vida das pessoas”. Ao aludir aos Jogos Olímpicos e aos Jogos Paralímpicos, centro das atenções em todo o mundo, o Sumo Pontífice, centrado no ideal olímpico proposto por Pierre de Coubertin, o fundador do movimento olímpico da era moderna, “citius, altius, fortius” – “mais rápido, mais alto, mais forte” –, referiu o alcance daquela divisa, ao afirmar que ela constitui um “convite para desenvolver os talentos que Deus nos deu. Quando vemos atletas que dão o seu melhor, o esporte nos enche de entusiasmo e faz-nos sentir orgulhosos. Há uma grande beleza na harmonia de certos movimentos, bem como na força ou no jogo de equipe. Quando é assim, o esporte transcende o nível puramente físico e nos leva para dentro da arena do espírito e, até, do mistério. E estes momentos são acompanhados por grande alegria e satisfação, que todos nós podemos partilhar, mesmo não tendo competido”. No entanto, se o esporte não se reduz à sua dimensão puramente competitiva, pois também existe “o esporte amador, recreativo, não destinado à competição e que permite a todas as pessoas melhorar a saúde e o bem-estar, a aprender a trabalhar em equipe, a saber vencer e, também, a saber perder”, para que ele seja fruído pelas pessoas, consideradas em sua integralidade, se torna necessário o cumprimento de alguns requisitos. São eles a promoção da inclusão[2], o retorno à pureza do esporte[3] e o empenho das organizações internacionais no combate à corrupção e à manipulação[4].

Tendo em vista a continuidade do projeto iniciado na conferência levada a cabo em 2016 foi dada a conhecer, mesmo antes de sua realização, a respectiva Declaração de Princípios. O documento expressa, como ideias-chave, aquelas que devem obedecer ao jogo limpo, qualquer que seja a modalidade considerada: compaixão[5], respeito[6], amor[7], iluminação[8], equilíbrio[9] e a alegria[10]. Além de o sítio web de “Esporte ao Serviço da Humanidade” convidar todos quantos, no mundo, se identificam com esta iniciativa a se unirem a ela, há uma proposta que já tomou corpo. Trata-se de Humanity S. C. (Humanidade Esporte Clube), que tem, como ponto de partida, a paixão pelo esporte que, na ótica dos promotores, “reúne pessoas de todas as esferas da vida. E, se você está jogando, apoiando ou treinando, nós acreditamos que este amor compartilhado pode ajudar a mudar o jogo e tem um impacte positivo tanto dentro quanto fora do campo”. O apelo público à participação no Humanidade Esporte Clube pretende “mudar o jogo, nossas vidas e o mundo para melhor”. Fazendo nossas as palavras de Ban Ki-moon, o Secretário-Geral da ONU, a conferência “Esporte ao Serviço da Humanidade”, assim como sua continuidade, com as mais diversas ações no espaço e no tempo, “pode inspirar as pessoas a promoverem a paz e o desenvolvimento através do esporte”. Se, em nossos dias, o esporte assumiu uma dimensão universal, transcendendo “toda barreira nacional, transcende toda questão étnica e de nacionalismo e qualquer diferença que possa existir”, o desafio com o qual todos estamos confrontados consiste em assumir a dimensão holística do esporte, que deverá ser considerado como uma faceta importantíssima da atividade dos seres humanos, entendidos muito além de sua esfera física. Com efeito, a construção de culturas inclusivas assentes na diversidade exige, tal como o Vaticano acaba de preconizar, a consideração do esporte a partir de uma dimensão espiritual que deve compreender, de maneira integral, a pluridimensionalidade do agir humano.

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ImagemAtletas treinam para a prova da maratona dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, Atenas, 1896. No meio, Charilaos Vasilakos, de 19 anos, o medalhista de prata” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Spiridon_Louis#/media/File:1896_Olympic_marathon.jpg

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Notas e Fontes Consultadas, para maiores esclarecimentos:

[1] De acordo com Mário Marcelo Coelho, Professor de Teologia Moral e Bioética Faculdade Dehoniana Taubaté-SP, “o potenciamento genético para características esportivas traz consigo problemas éticos e legais; isso porque uma alteração da pessoa é matéria de juízo subjetivo, traz em seu escopo a eugenia positiva e como tal agride a dignidade e a sacralidade da vida humana. A introdução de agentes que melhoram a performance da pessoa confunde a imagem, nesse domínio e nos outros. Valorização artificial ou sintética pode certamente melhorar as habilidades da pessoa para certo desempenho, mas pode fazer separando pelo menos alguns elementos, como a realização do esforço para alcançar naturalmente tal desempenho, comprometendo a maturidade e a capacidade da pessoa alterada. As novas tecnologias permitem de fato não só dominar, mas interferir no interno, na íntima estrutura dos fenômenos e dos caracteres naturais, como orgulhosamente os pós-humanistas levantam a bandeira da ciência moderna ao lema de Francis Bacon ‘conquiste a natureza e alivie a condição humana’. Essas possibilidades de invasão da técnica no mais íntimo da pessoa suscitam desafios a uma reflexão ética que deverá sempre mais se confrontar com as profundas transformações provocadas pelas biotecnologias e pelos novos problemas levantados, como a divisão da sociedade entre os ‘geneticamente enriquecidos ou melhorados’ e os ‘naturais’, o que poderia aumentar ainda mais a desigualdade social, um tema ainda conflituoso na sociedade mundial”, Mário Marcelo Coelho, “Doping Genético, o Atleta Superior e Bioética”, Revista Bioethikos, Centro Universitário São Camilo, Pompeia-SP, 2012, v. 6, n. 2, p. 179.

[2] Segundo Francisco, “as nossas tradições religiosas compartilham o compromisso de garantir o respeito pela dignidade de cada ser humano. Por isso, é bonito saber que as instituições esportivas mundiais consideram o valor da inclusão. O movimento paralímpico e outras associações esportivas de apoio às pessoas com deficiência, como o Special Olympics, tiveram um papel decisivo em ajudar o público a reconhecer e a admirar as capacidades extraordinárias de atletas com diferentes habilidades e capacidades. Estes eventos nos presenteiam experiências que ressaltam de modo admirável a grandeza e a pureza do gesto esportivo”.

[3] Para o Papa, “o desafio é o de manter a pureza do esporte, protegê-lo das manipulações e da exploração comercial. Seria triste para o esporte e para a humanidade, se as pessoas não conseguissem mais confiar na verdade dos resultados esportivos, ou se o cinismo e o desencanto prevalecessem sobre o entusiasmo e a participação alegre e desprendida. No esporte, como na vida, é importante lutar pelo resultado, mas jogar bem e com lealdade é ainda mais importante!

[4] O Papa citou os esforços da ONU para erradicar todas as formas de corrupção e manipulação: “Sei que está em andamento uma campanha promovida pelas Nações Unidas contra o câncer da corrupção em todos os âmbitos da sociedade. Quando as pessoas lutam para criar uma sociedade mais justa e transparente, colaboram com a obra de Deus. Nós, responsáveis por várias comunidades religiosas, queremos dar a nossa contribuição neste sentido. A Igreja Católica está comprometida com o esporte para levar a alegria do Evangelho, o amor inclusivo e incondicional de Deus a todos os seres humanos”.

[5] USE O PODER DO ESPORTE PARA AJUDAR OS OUTROS – Partilhe os benefícios do esporte para capacitar aqueles que são pobres e desfavorecidos”.

[6] USE O ESPORTE PARA CONSTRUIR CONFIANÇA E ENTENDIMENTO – Respeite seus adversários. Através do esporte entenda-os e suas culturas mais profundamente. Condene a violência no esporte – dentro e fora do campo de jogos”.

[7] ESPORTE É PARA TODOS – Faça tudo o que puder para ajudar todos a participar no esporte. Faça tudo o que puder para que todos possam competir em igualdade de condições”.

[8] O ESPORTE TEM O PODER DE TRANSFORMAR VIDAS E CONSTRUIR O CARÁTER – Aprenda a graciosidade na vitória e a perspectiva na derrota. Aplique os valores que você aprendeu no esporte para o ajudarem a se destacar na vida”.

[9] O ESPORTE TEM O PODER DE NOS AJUDAR A FAZER O MELHOR DE NÓS – Então, jogue partindo do conhecimento de que ele pode revitalizá-lo física, mental, emocional e espiritualmente. Em todas as fases da vida, jogue por prazer, por saúde, por amizade”.

[10] O ESPORTE, ACIMA DE TUDO, É SOBRE A ALEGRIA – Então, divirta-se! E lembre-se, há mais, na prática do esporte, do que ganhar mais, quando você competir, seja e faça o melhor do que puder, sempre”.

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J. M. de Barros Dias - Colaborador Voluntário Sênior

É Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto (Portugal) e Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora (Portugal). Professor Associado da Universidade de Évora, reside em Curitiba desde início de 2012, onde é Professor na Faculdade São Braz e na Faculdade Inspirar. É autor de doze livros e mais de cem artigos científicos nas áreas da Ética, Filosofia da Educação e Filosofia Social e Política.

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