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[:pt]Obama admite responsabilidades na situação da Síria[:]

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Na metade do mês de dezembro passado, Barack Obama, Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), afirmou que seu governo possui responsabilidades na dramática situação em que se encontra a Síria. Durante coletiva de impressa na Casa Branca, provavelmente a última antes da posse de Donald Trump, em janeiro, Obama admitiu responsabilidades no conflito sírio, mas também teceu críticas à atuação do Governo sírio e seus aliados, mais precisamente a Rússia e o Irã, no combate ao Estado Islâmico (EI) e à retomada da cidade de Aleppo, no norte do país, salientando que essa campanha reforçou e estimulou a repressão do Governo sírio sobre os rebeldes.

O conflito sírio eclodiu em março de 2011, em Da’ra, na região sul do país, onde manifestantes pediram “o fim do estado de emergência, a legalização dos partidos políticos e o expurgo de oficiais corruptos do governo” (VIZENTINI, 2012, p. 147)[1]. Cabe pontuar, contudo, que a demanda pela abertura do regime remete ao ano 2000, quando Bashar al-Assad assumiu a Presidência da Síria, após a morte de seu pai e a legitimidade outorgada pelo partido Baas.

Em 2011, diante do agravamento da crise e o seu alastramento para outras regiões da Síria, os EUA e a União Europeia (UE) reforçaram as sanções ao país, que incluía o embargo de armas e o congelamento de ativos de oficiais do Governo. No entanto, as relações entre Estados Unidos e Síria já eram bastante conturbadas durante a presidência de George W. Bush. Por exemplo, a Síria foi incluída no chamado Eixo do Mal, sendo acusada pelos Estados Unidos de desenvolver armas de destruição em massa e por oferecer ajuda a fugitivos iraquianos.

O conflito na Síria já dura quase seis anos, deixou mais de 12 milhões de deslocados e milhares de mortos, no entanto, é impossível estimar um número preciso de vítimas fatais. Em julho de 2015, Ban Ki-moon, Secretário da Organização das Nações Unidas (ONU), disse que o conflito havia deixado mais de 250 mil mortos. Mais recentemente, em setembro do ano passado (2016), o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) afirmou que o número de vítimas passava de 300 mil, já para o Centro Sírio de Pesquisa Política o número de mortos no conflito chegava a 470 mil, já em fevereiro de 2016, conforme divulgado no The Guardian.

De acordo com o Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), cerca de 13,5 milhões de pessoas na Síria necessitam urgentemente de assistência humanitária e, desses, mais de 9 milhões passam fome. Tais números são realmente assustadores e, não por acaso, a ONU e outros atores internacionais apontam que o conflito sírio se tornou a maior crise humanitária do mundo.

No último dia 16 de dezembro, durante seu pronunciamento na Casa Branca, Barack Obama assinalou que apesar das inúmeras reuniões com agentes políticos, militares e atores internacionais, não foi possível encontrar uma solução para atual situação síria. Para o presidente estadunidense, sua decisão foi adequada, até porque não havia apoio internacional para uma ação direta na Síria, que poderia resultar num conflito com a Rússia e o Irã, além disso, também não havia apoio do Congresso dos EUA, haja vista os trilhões de dólares que a guerra no Iraque havia custado ao país. Ainda durante a coletiva de imprensa, Obama declarou que não há um momento desde que assumiu a presidência onde não tenha sentido alguma responsabilidade, assim, todos os dias se questiona sobre suas responsabilidades, se há algo que poderia fazer para salvar vidas ou poupar alguma criança de sofrer.

Embora a administração Obama tenha logrado uma série de progressos, tais como a reaproximação com Cuba, o Acordo Nuclear com o Irã, a redução da taxa de desemprego, alguns analistas afirmam que a catastrófica situação síria deixará uma grande mancha no legado de Barack Obama. Parte das críticas ao Presidente, enfatizam que o maior erro do Governo Obama foi ter negado enfrentar a Síria, após a utilização de armas químicas pelo governo de Assad contra rebeldes, ainda no início do conflito. A Agência Angola Press (ANGOP), por exemplo, ressaltou as palavras usadas há 15 anos por Samanta Power, ex-jornalista e escritora que se tornou embaixadora dos EUA na ONU, apontando a situação de Ruanda e da antiga Iugoslávia, na qual questionava que “Os Estados Unidos tiveram inúmeras oportunidades de evitar um massacre, mas homens e mulheres honestos escolheram, em cada caso, desviar os olhos. Todos temos sido espectadores de um genocídio. A pergunta decisiva é: por quê?”. Nessa ordem de ideia, Rainer Sollich pontuou em sua análise para DW.de que o mundo assiste totalmente inerte o massacre em Aleppo e no resto da Síria.

Para muitos analistas essas palavras cabem bem a atual situação neste país. Nesse sentido, Michael Knigge, articulista da DW, apontava em 2013 que, com a indecisão em relação ao conflito, o presidente Obama não apenas fortaleceu os inimigos e enfraqueceu os apoiadores como também falhou em sua principal missão como líder. Para Knigge, desde que o conflito iniciou o Presidente dos EUA tem hesitado, não tem conduzido uma solução, mas apenas reagido à pressão de seu próprio Gabinete, da oposição e do agravamento do conflito. Ainda segundo o analista, os EUA não tinham, nem de forma genérica, uma estratégia para a Síria.

Outra crítica ao governo Obama refere-se ao programa de ajuda militar supervisionado pela Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA), que, desde meados de 2014, vem fornecendo armas e treinamentos ao que o Governo chama de rebeldes moderados, em conjunto com outros países, tais como a Arábia Saudita, o Catar, a Jordânia e a Turquia. Naquele ano, durante a Assembleia Geral da ONU, Obama, defendendo a ação militar promovida pela coalizão internacional formada por aproximadamente 60 países, afirmou que a única linguagem entendida por assassinos como esses é a da força, portanto os EUA iriam trabalhar em conjunto com uma ampla coalizão para desmantelar o grupo jihadista. Enquanto o Governo estadunidense apoiava os “rebeldes moderados”, a Rússia que teve papel importante na mediação para que o governo Assad destruísse estoques de armas químicas em 2013, entrou no conflito em meados de 2015, em apoio ao Governo sírio. Desde então, diversas vezes os EUA e Rússia buscaram estabelecer um cessar-fogo. Em setembro, após mais um colapso das negociações do cessar-fogo, os Estados Unidos viram diante de si o alinhamento de parte dos chamados rebeldes moderados ao ramo sírio da Al-Qaeda. Para Frederic Hof, ex-assessor de Obama na Síria, que no presente está no think tank Conselho Atlântico, a eclosão dessa “bagunça” precisará ser solucionada, mas muito provavelmente perdurará para além do primeiro mandato de Trump.

No final do mês de novembro passado, Recep Tayyip Erdogan, Presidente da Turquia, afirmou que a administração Obama tem demonstrado uma abordagem pouco assertiva na resolução do conflito sírio. Durante uma entrevista à emissora CBS, conforme ressaltou o  Sputnik, Erdogan teceu críticas ao Governo dos EUA, argumentando que a guerra síria provocou ameaça à segurança nas fronteiras ao sul do país, minou suas capacidades defensivas e resultou em 3 milhões de refugiados sírios em território turco. Ainda em maio do ano passado, o Governo turco assinalava que a estratégia dos Estados Unidos para a solução do conflito na região era no mínimo dúbia.

Naquela ocasião, Mevlüt Cavusoglu, Ministro das Relações Exteriores da Turquia, categorizou a estratégia estadunidense de hipócrita. Isso porque, a agência de notícias AFP (Agence France-Presse) havia fotografado a presença de soldados dos EUA junto a uma milícia curda que combate o EI na região norte da Síria, próxima à fronteira da Turquia.   Essa milícia curda faz parte Unidade de Proteção do Povo (YPG), e é considerada terrorista pela Turquia. O Governo turco acredita que o YPG está ligado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que atua fortemente na região desde 1984 buscando o estabelecimento do Estado Curdo. Em contrapartida, o YPG é considerado pelos EUA como um dos grupos armados mais eficazes para combater em solo o EI. 

Em respostas as críticas, Josh Earnest, porta-voz da Casa Branca, afirmou que é simplesmente ofensivo sugerir que os EUA e o mundo não fizeram nada para solucionar o conflito sírio. No entanto, ressalvou que os Estados Unidos aceitam sua responsabilidade, mas essa é responsabilidade particular, porque é o país mais influente no mundo. Ainda em novembro, durante a reunião da Cúpula de líderes de países da região do Pacífico, Barack Obama já assinalava sua opinião quanto às decisões do seu Gabinete. Naquele momento, salientou que os EUA não possuem base legal para um envolvimento militar no país estrangeiro, argumentando que promover uma intervenção seria um erro, haja vista o esforço empregado na estabilização do Afeganistão e do Iraque. Em seu recente pronunciamento na Casa Branca, o Presidente alegou que as propostas sugeridas não teriam promovido um cenário diferente do atual. Na crítica de Sollich, a vitória de Assad em Aleppo com apoio russo e iraniano pode representar um novo futuro, no qual países como Egito, Iraque e Líbano podem vir a simpatizar com essa nova “Ordem regional”, mas países como Arábia Saudita e seus tradicionais aliados no Golfo Pérsico contestarão, e por sua vez continuarão a armar grupos rebeldes.

Photographs by Ed Thompson

As responsabilidades sobre o agravamento da guerra síria, também foi ressaltada por Ban Ki-moon durante o encontro de emergência do Conselho de Segurança da ONU, ocorrida no último dia 13 de dezembro. Para o secretário-geral da ONU, “a história não nos absolverá facilmente, mas esse fracasso nos obriga a fazer ainda mais para oferecer ao povo de Aleppo nossa solidariedade nesse momento”. Nesse aspecto, o próprio Obama afirmou não haver dúvidas de que continuará a existir forças extremistas nessa região, mas é preciso mudar a maneira como todas as partes pensam o conflito, ou então o mesmo não findará.

Em 2013, alguns analistas apontavam que os ataques aéreos representavam uma nova guinada na política dos EUA no combate ao terrorismo. Hoje, muitas críticas surgem e ressurgem quanto ao posicionamento adotado pelo Governo Obama. Em seu discurso na base da força aérea MacDill, na Flórida, o Presidente estadunidense salientou que, ao invés de organizar invasões e sobrecarregar as tropas terrestres, os Estados Unidos construíram uma rede de parceiros que atuam em conjunto contra o terrorismo. Obama destacou ainda que manter os valores do país e aderir ao Estado de Direito não representa uma fraqueza, mas, sim, representa a maior força dos EUA, no longo prazo. No entanto, assim como ressaltado anteriormente pela nota publicada no CEIRI NEWSPAPER, é válido questionar se as estratégias adotadas até aqui conduzem realmente a estabilização da Síria, ou se, ao contrário, fragmentam e fomentam suas rivalidades, haja vista o cenário no Iraque. Embora esses casos sejam distintos em uma série de aspectos, desde a invasão em 2003, o Iraque vem sofrendo um progressivo processo de desmantelamento do Estado.

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Imagem 1Destruição em Aleppo” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Bombed_out_vehicles_Aleppo.jpg

Imagem 2 Obama segurando o prêmio Nobel ao lado de Thorbjørn Jagland, presidente do Comitê do Nobel, em 10 de dezembro de 2009” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Barack_Obama

Imagem 3 Mapa da Guerra Civil Síria, em agosto de 2016” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_Civil_S%C3%ADria#/media/File:Bombed_out_vehicles_Aleppo.jpg

Imagem 4Aperto de mãos entre Obama e o líder cubano Raúl Castro, em abril de 2015” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Barack_Obama

Imagem 58º SecretárioGeral da ONU” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Ban_Ki-moon

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Fonte Consultada:

VIZENTINI, Paulo Fagundes. A Primavera Árabe: entre a democracia e a geopolítica do petróleo. Porto Alegre: Leitura XXI, 2012

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Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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