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A força com que o Estado Islâmico (EI) conquistou posições territoriais em 2014, ao capturar a cidade de Mosul, no Iraque, e ao proclamar o Califado, não permitia supor até onde aquele grupo jihadista poderia chegar e quais seriam as consequências para o Oriente Médio. Hoje, a percepção que se tem da região é que ela está passando por uma reconfiguração geoestratégica que determinará uma nova ordem regional, a qual ainda está indefinida, mas está a ser redesenhada a partir da influência dos objetivos traçados por Abu Bakr al-Baghdadi, independentemente das vitórias ou derrotas que o seu grupo enfrentará no futuro. As perdas territoriais do Estado Islâmico no Iraque e na Síria são um fato, mas não significam a eliminação definitiva dos militantes de al-Baghdadi, que têm planos para salvaguardar a sobrevivência do grupo. Os radicais islâmicos prepararam uma saída em face dos diferentes cenários, inclusive ante as perdas territoriais.

Faraj, um combatente do EI, em entrevista exclusiva ao jornal The Independent, afirmou que, “quando dizemos que o Estado Islâmico é eterno e vai expandir-se, não é uma mera frase poética e de propaganda”. O insurgente revela que o grupo traçou metas para dar continuidade aos seus objetivos, mesmo sendo vencido na Síria e no Iraque. Se esta hipótese se confirmar, ele projeta se instalar e se reconstruir na Arábia Saudita, no Egito, na Líbia e na Tunísia, acrescentando que a sua facção tem “agentes adormecidos no mundo todo e seus números estão aumentando”. A resposta desses radicais islâmicos às diferentes posições estatais que se encontram instaladas no momento, principalmente na Síria, traduz o quanto o alto comando do Estado Islâmico é pragmático para criar medidas capazes de reestruturar as suas bases em outras partes do mundo, consoante a necessidade.

A habilidade estratégica com que os extremistas islâmicos vêm conduzindo as suas pelejas na Síria e no Iraque não diz respeito apenas às comemorações das batalhas vencidas mas, também, à capacidade de distrair, através da propaganda, a atenção da mídia, do público e de seus simpatizantes sobre os fracassos militares que vem sofrendo. Geralmente, o insucesso do grupo é ocultado por ofensivas cometidas por seus soldados em alguma parte do planeta, principalmente, no Ocidente. O grande exemplo desta natureza refere-se à derrota do Estado Islâmico pelas tropas curdas no Iraque, onde perdeu uma importante posição estratégica do ponto de vista do abastecimento, que foi a cidade de Sinjar, fato que passou praticamente despercebido a parte da opinião pública. Segundo Javier Martín, um jornalista espanhol especialista no Oriente Médio, isto só foi possível porque o grupo conseguiu dispersar a atenção do mundo “graças à sua propaganda”, cuja derrota “ficou ofuscada pela ‘vitória de Paris’ aos olhos de seus seguidores”.

Nas sombras da guerra fratricida na Síria e de uma Guerra Civil no Iraque, que se aproxima, o Estado Islâmico prossegue em busca de seus objetivos através da construção de meios que desafiam as agências de Inteligência mundiais, ao mesmo tempo que desestabiliza o Oriente Médio. A própria luta da coalizão de países ocidentais que tentam suplantar a facção jihadista poderá, de acordo com análises, promover mais guerras sem conseguir destruí-la. Há a hipótese de que, se os radicais de al-Baghdadi forem derrotados definitivamente, dez novas guerras poderão ser desencadeadas. Neste contexto, supõe-se que a queda do Estado Islâmico implicará em mais conflitos entre países e demais insurgentes que não partilham de interesses comuns. As dez guerras previstas são as seguintes: “As forças curdas sírias apoiadas pelos EUA, contra as forças árabes apoiadas pela Turquia; [a] Turquia contra os curdos sírios; os curdos sírios contra o Governo sírio; os EUA contra a Síria; [a] Turquia contra a Síria; os curdos iraquianos contra o Governo iraquiano; os curdos iraquianos contra as milícias xiitas; [os] curdos contra curdos; [os] árabes sunitas contra xiitas e curdos e o que ficar do Estado Islâmico contra qualquer outro adversário”. Esta conjuntura não significa o desaparecimento do Estado Islâmico que, preparado para os mais variados cenários, será capaz de se aproveitar do caos e do vazio de poder, tal como já fez na Síria, no Iraque e na Líbia e, assim, se reinventar de modo mais forte para renascer das cinzas.

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ImagemUm CF18 canadiano participa na Operação Impacto contra o Estado Islâmico” (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/2/23/Operation_Inherent_Resolve_150304-F-MG591-123.jpg

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Marli Barros Dias - Colaboradora Voluntária Sênior

Possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal do Paraná (1999), com revalidação pela Universidade de Évora (2007), e mestrado em Sociologia (Poder e Sistemas Políticos) pela Universidade de Évora (2010). É doutoranda em Teoria Jurídico-Política e Relações Internacionais (Universidade de Évora). É professora da Faculdade São Braz (Curitiba), pesquisadora especialista do CEFi – Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa (Lisboa), e pareceirista do CEIRI Newspaper (São Paulo).

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