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[:pt]Os ciberataques russos e as eleições norte americanas[:]

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Nos últimos momentos de seu mandato, o presidente Barack Obama ordenou a revisão do possível envolvimento russo nas eleições norte americanas  que acabaram com a vitória do candidato republicano Donald Trump, a contragosto do Presidente democrata e de sua candidata a sucessora, Hillary Clinton.

Segundo o Porta-Voz da Casa Branca, Eric Schultz, “(o) presidente, (…), instruiu a comunidade de inteligência a realizar uma revisão completa do padrão de atividade cibernética maliciosa relacionada ao nosso ciclo de eleições presidenciais”. A ordem de Obama vem como consequência de suspeitas de ciberataques de origem russa, durante todo o ano eleitoral, que minaram a campanha da candidata Hillary Clinton, supostamente com o objetivo deliberado, segundo a comunidade de inteligência norte-americana, de favorecer o candidato republicano Donald Trump, apesar de críticas apontarem a falta de evidências para tais acusações.

Como previamente publicado no CEIRI NEWSPAPER, em junho de 2016, o Partido Democrata norte-americano foi alvo de dois grupos de hackers com supostas ligações ao Governo russo. Após conseguirem acesso aos sistemas de computadores do Partido, um desses grupos monitorou e extraiu informações da sua comunicação interna durante um ano, enquanto o outro grupo conseguiu monitorar e extrair uma parte da pesquisa partidária a respeito do candidato da oposição. 

Em um outro momento, decorrendo, aproximadamente, todo o mês que antecedeu as eleições, o site Wikileaks publicou levas e mais levas de documentos obtidos do Partido Democrata, do coordenador da campanha e do próprio servidor da candidata Hillary Clinton, alegadamente com ajuda de hackers russos.

De fato, foi publicado no dia 6 de janeiro de 2017, pelo Escritório do Diretor de Inteligência Nacional, James Clapper, a resposta às ordens de Obama, na forma de uma versão pública do Relatório secreto, intitulado “Avaliação de atividades e intenções russas nas recentes eleições dos EUA”. A conclusão é categórica: “Nós avaliamos que o presidente russo Vladimir Putin ordenou uma campanha de influência em 2016 com vista à eleição presidencial dos EUA”. De acordo com o relatado, “Os objetivos da Rússia eram minar a fé pública nos Estados Unidos, no Partido Democrata, denegrir a secretária Clinton, e prejudicar sua elegibilidade e Presidência em potencial. Avaliamos ainda mais que Putin e o governo russo desenvolveram uma clara preferência pelo presidente eleito Trump”.

O Relatório se alinha com as declarações da candidata Hillary Clinton, a qual, em um dos poucos pronunciamentos após sua derrota, culpa diretamente o presidente russo Vladimir Putin pelo resultado que sofreu: “O próprio Vladimir Putin dirigiu os ciberataques encobertos contra o nosso sistema eleitoral, contra a nossa democracia, aparentemente porque ele tem uma rixa pessoal contra mim”. Essa “rixa” de acordo com Clinton, seria decorrente das críticas feitas por Clinton nas eleições russas de 2011, ocasião na qual a então Secretária de Estado alegou que a eleição de Putin havia sido “injusta, não livre e ilegítima”.

Em resposta aos críticos que apontam a falta de evidências com as quais a mídia e as agências de inteligência apontam os russos como mandantes dos ciberataques, o Documento argumenta que as conclusões foram obtidas através de “fontes ou métodos sensíveis”, que não poderiam ser divulgadas na versão pública do relatório e que, portanto, “embora as conclusões do relatório estejam todas refletidas na avaliação classificada, o relatório desclassificado não inclui nem pode incluir todas as informações de apoio, incluindo informações e fontes específicas e métodos”.

Porém, vale ressaltar que o documento é uma versão pública, divulgada pela própria comunidade de inteligência, de um Relatório Secreto. Por conta disso, a falta de divulgação de informações e/ou metodologias com a exposição apenas de conclusões, obviamente vai expressar uma opinião parcial, o que, por sua vez, levanta suspeitas em relação a veracidade das informações apresentadas no texto.

Também é importante notarmos que um dos trabalhos e práticas mais comuns da comunidade de inteligência norte-americana, como de qualquer outra agência de inteligência, independente da nacionalidade, é, além da obtenção de informações estratégicas, justamente a disseminação de informações fabricadas, com o intuito de reter informações e/ou de guiar a opinião pública em diferentes cenários. É o tipo de espionagem que marcou a Guerra Fria e que sem dúvida evoluiu com as tecnologias do século XXI. 

Enquanto isso, o presidente eleito Donald Trump, vêm negando qualquer envolvimento russo nas eleições, no entanto, após uma conferência a respeito da invasão dos computadores, Trump aliviou um pouco o tom, alegando em uma declaração que a “Rússia, China, outros países, grupos externos e pessoas” realizam ciberataques contra os EUA, porém, Trump continua afirmando que “não houve absolutamente nenhum efeito sobre o resultado da eleição”.

O Relatório termina com a seguinte conclusão: “Avaliamos que Moscou aplicará as lições aprendidas em sua campanha ordenada por Putin para as eleições presidenciais dos EUA para futuros esforços de influência em todo o mundo, inclusive contra os aliados dos EUA e seus processos eleitorais”. A conclusão por sua vez, ilustra como o ciberespaço vêm se tornando cada vez mais a nova face de conflitos internacionais e levantando novos desafios para a Geopolítica e as Relações Internacionais.

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Imagem 1Capa do relatório Avaliação de atividades e intenções russas nas recentes eleições dos EUA” (Fonte):

https://www.dni.gov/files/documents/ICA_2017_01.pdf

Imagem 2Diretor de Inteligência Nacional NorteAmericana, James Clapper” (Fonte):

https://www.flickr.com/photos/medilldc/6797228431

Imagem 3Hillary Clinton discursando em evento da campanha em Phoenix, Arizona” (Fonte):

https://pt.wikipedia.org/wiki/Campanha_presidencial_de_Hillary_Clinton_em_2016

Imagem 4Presidente eleito Donald Trump” (Fonte):

https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3ADonald_Trump_Approves_2016.jpg

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Breno Pauli Medeiros - Colaborador Voluntário Júnior

Mestrando em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Formado em Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Desenvolve pesquisa sobre o Ciberespaço, monitoramento, espionagem cibernética e suas implicações para as relações internacionais. Concluiu a graduação em 2015, com a monografia “A Lógica Reticular da Internet, sua Governança e os Desafios à Soberania dos Estados Nacionais”. Ex bolsista de iniciação científica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), período no qual trabalhou no Museu Nacional. Possui trabalhos acadêmicos publicados na área de Geo-História e Geopolítica.

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