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Enquanto Síria e Irã têm recebido, nos últimos dias, a maior parte da atenção da “Assembleia Geral das Nações Unidas”, às margens, o grupo “Friends of Yemen” realizou seu sexto encontro ministerial. A Reunião serviu de base para que o governo iemenita exigisse prestação de contas de países doadores em relação aos valores acordados – que totalizam 7,8 bilhões de dólares[1] – e para que estes, por sua vez, cobrassem do governo as reformas prometidas[2]. No Evento foram elogiados as conquistas políticas e econômicas alcançadas pela “Conferência do Diálogo Nacional”, em difíceis circunstâncias.

Após o turbulento contexto político iniciado no país em janeiro de 2011 com a “Revolução Iemenita”, o então presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, assinou, em novembro daquele mesmo ano, um Acordo intermediado pelo “Conselho de Cooperação do Golfo” prevendo o fim de seu governo e a transferência do poder a Abd Rabbo Mansour Hadi, seu Vice. O Acordo pôs fim a um período de 33 anos de ditadura, marcados por inúmeras violações aos “Direitos Humanos”, e, ao mesmo tempo, ofereceu a Saleh imunidade contra processos judiciais[3].

Desde então, o país vive um processo de transição política que tem como peça chave a “Conferência do Diálogo Nacional”, que iniciou em 18 de março de 2013, encarregada de discutir questões políticas de longa data no país e produzir uma nova Constituição para guiar as eleições previstas para fevereiro de 2014[4].

Apesar do reconhecimento internacional de organizações como o “Banco Mundial[5] e as “Nações Unidas[6], bem como dos avanços alcançados pela Conferência, países preocupados com o recrudescimento das atividades da al-Qaeda no país[7] clamaram por reformas políticas, sociais e econômicas que estabilizem o Iemen e defenderam a criação de um fundo de desenvolvimento para o país, especialmente a fim de oferecer suporte ao programa do “Fundo Monetário Internacional” (FMI), adotado recentemente, de reestruturação da economia iemenita[8].

Como destaca a analista Danya Greenfield, agora começa o trabalho árduo da transição política, em que as decisões dos nove grupos de trabalho do “Diálogo Nacional[9] devem ser traduzidas “em políticas concretas, mudança legislativa, reforma administrativa, e em uma nova constituição[2].

Dentre os grupos de trabalho do “Diálogo Nacional”, especialistas como Greenfield e, também, o “International Crisis Group” parecem concordar que o “Southern Issue” aparece como pilar da nova estruturação do país. O termo, que pode ser traduzido como “questão sulista”, é utilizado para designar uma série de reivindicações políticas, sociais e econômicas vindas do sul do Iêmen, que era um Estado independente até 1990. Na região, o grupo “Southern Movement” (Hiraak) alinha organizações e ativistas que defendem o separatismo ou, ao menos, um “Federalismo de dois Estados” (“two-state federalismo”) seguido de um referendo sobre o futuro do sul do Iêmen[10].

Ressalte-se que a “Conferência do Diálogo Nacional” já ultrapassou o prazo para encerramento de seus trabalhos, previsto para 18 de setembro, havendo pressão internacional para seguir adiante, iniciando a elaboração de uma constituição e preparando novas eleições[10]. No entanto, os sulistas ainda rejeitam as próprias premissas do Diálogo e as decisões ali alcançadas, o que dificulta perspectivas de estabilidade no país[2].

Nesse sentido, apesar do esforço doméstico e internacional de garantir uma estabilidade política no Iêmen por meio de uma estabilidade econômica, o grupo “Friends of Yemen” não deve deixar que os sucessos do “Diálogo Nacional” – sobretudo a integração de vozes de mulheres, jovens e representantes da sociedade civil[2] por meio de 565 delegados que compõem a Conferência[2] – oblitere os pontos em que essa integração não é sinônimo de concordância.

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ImagemO Grupo Friends of Yemen” (Fonte):

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/09/25/don_t_forget_about_yemen

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[1] Ver:

http://www.foxnews.com/world/2013/09/24/yemen-hopes-donors-will-fulfil-aid-pledges/

[2] Ver:

http://mideast.foreignpolicy.com/posts/2013/09/25/don_t_forget_about_yemen

[3] Ver SHARQIEH, Ibrahim. “A Lasting Peace? Yemen’s Long Journey to National Reconciliation”. Brookings Doha Center Analysis Paper, n. 7, fev. 2013, pp. 3 e 25. Em:

http://www.jornal.ceiri.com.br/wp-content/uploads/2013/05/BDC_Yemen%20National%20Reconciliation_Sharqieh.pdf

[4] Ver INTERNATIONAL CRISIS GROUP. Yemen’s Southern Question: Avoiding a Breakdown. Middle East Report n. 145, 25 set. 2013, p. 2. Em:

http://www.crisisgroup.org/~/media/Files/Middle%20East%20North%20Africa/Iran%20Gulf/Yemen/145-yemen-s-southern-question-avoiding-a-breakdown.pdf

[5] Ver:

http://www.worldbank.org/en/news/press-release/2013/09/25/friends-of-yemen-committed-support-next-stage-yemen-transition

[6] Ver:

http://www.un.org/apps/news/infocus/sgspeeches/statments_full.asp?statID=1989#.UkrndjalISU

[7] Ver, como exemplos recentes:

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-24335568

http://www.aljazeera.com/video/middleeast/2013/09/201393133847736637.html  

http://www.jornal.ceiri.com.br/ameacas-de-ataques-terroristas-no-iemen/

[8] Ver:

http://www.foxnews.com/world/2010/09/24/friends-yemen-group-urges-economic-social-political-reforms-stabilize-country/

[9] A saber, “Southern Issue”, “Sa’ada Issue”, “Transitional Justice”, “State-Building”, “Good Governance”, “Military/Security”, “Special Entities”, “Rights/Freedoms” e “Development”; cf. http://www.ndc.ye

[10] Ver INTERNATIONAL CRISIS GROUP, op. cit., p. i.

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Ricardo Fal Dutra Santos - Colaborador Voluntário

Mestre em Segurança Internacional pela Paris School of International Affairs, Sciences Po, com especialidade em direitos humanos e Oriente Médio. Especialista em Ajuda Humanitária e ao Desenvolvimento pela PUC-Rio. Bacharel e licenciado em História pela UFF. Atualmente, atua como pesquisador da ONG palestina BADIL Resource Center, e possui experiência de campo na Cisjordânia. Escreve para o CEIRI Newspaper sobre crises humanitárias, violações de direitos humanos e fluxos migratórios e de refugiados.

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