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No Brasil, estamos habituados a conviver com obras públicas chamadas popularmente faraônicas, ou elefantes brancos. Essas saem do papel com preços superfaturados para, depois, caírem no esquecimento e na falta de uso, desperdiçando o dinheiro do contribuinte e gerando gastos desnecessários para sua conservação, ou acabam sendo levadas a leilão, vendendo o patrimônio público, sendo, ainda, algumas das obras, completamente esquecidas e abandonadas.

Este processo tão conhecido no Brasil e na América Latina geralmente é relacionado com problemas de gestão ou execução nos projetos, além de outros fatores, tais como a corrupção ou lavagem de dinheiro. Porém não é exclusivo destes países.

Nações reconhecidas mundialmente pela sua gestão e pelo bom uso dos recursos públicos, também possuem seus próprios elefantes brancos. A Alemanha e o polêmico aeroporto de Berlim-Brandenburgo, que está em construção desde 2006 e continua sem data prevista para conclusão total das obras; o Japão e parte das arenas construídas para a Copa do Mundo de 2002; a China e seus diversos projetos de cidades artificiais, hoje abandonadas e sem nenhum habitante, dentre outros lugares e obras, são exemplos que podem ser citados.

O elemento em comum desses países é a tentativa do Governo de modelar a demanda do setor da construção e outros setores através de uma obra emblemática, ou a necessidade de intervir perante uma demanda imediata do país, mas sem um estudo atualizado da mesma, e sem analisar o impacto e a viabilidade do projeto. Na Europa, os casos mais emblemáticos, além do Aeroporto de Berlim, são as instalações olímpicas de Atenas e as mega-construções de infra-estrutura na Espanha.

O caso espanhol é a típica referência da proliferação de elefantes brancos. A Espanha, antes da Crise Financeira de 2008, era a 4ª maior economia da Europa, sendo o setor da construção um dos principais pilares de sua economia. O país chegou a construir mais residências que a Itália, França e Alemanha juntas. O Governo tentou se beneficiar desse crescimento do setor e investiu pesado em diversas obras de infra-estrutura. Como resultado, produziu Aeroportos e Estações de Trem sem estudo de demanda, parques e complexos de lazer longe dos grandes centros urbanos, estradas que levam a nenhum destino. Tudo parecia possível para um país que desejava manter a construção aquecida e onde a fiscalização dos recursos era bastante flexível, já que a nação passava por uma bonança financeira crescente.

A crise colocou em evidência todos os projetos construídos sem um estudo de viabilidade adequado e todos aqueles condenados desde sua fundação. O Aeroporto Dom Quixote, construído em pleno auge da construção civil, na pequena Ciudad Real (que possui menos de 100 mil habitantes), custou mais de 1 bilhão de Euros e foi vendido pela baixa quantia  de 10.000 Euros, após quase 10 anos sem operação. Não sendo este um caso isolado, outras cidades na Espanha, como Huesca (cidade com apenas 50 mil habitantes), recebeu, em 2015, apenas 111 passageiros.

O exemplo mais recente do desperdício do dinheiro público no país Ibérico foi o Porto Externo da Cidade de La Coruña, no norte da Espanha, o qual já havia sido denunciado por diversos analistas em relação a sua baixa viabilidade, já que a região apresenta fortes correntes marinhas e é conhecida como “Costa da Morte”. Ainda assim, o Governo gastou mais de 1 bilhão de Euros em um Porto que não registrou nenhuma operação.

No país vizinho, Portugal, a situação não é muito diferente. O país conta com diversos exemplos de obras inacabadas ou obras que, uma vez finalizadas, perderam sua utilidade. O problema enfrentado pelas mais diversas nações é conciliar a função do Estado de alocar e distribuir recursos, sem gerar a centralização das políticas públicas, frente a própria composição socioeconômica do país e suas características demográficas.

Fato é que existe em qualquer país a necessidade de investir em infra-estrutura, principalmente naquelas regiões mais carentes, porém é necessário realizar planos de viabilidade e de impacto para adequar o investimento à realidade do local, mesmo quando o intuito da construção seja atuar como vetor para mudanças regionais, tais como o Porto de Pecém, ou o de Camaçari, no Brasil. Caso contrário, nos deparamos com uma grande quantidade de recursos alocados de forma errônea que poderiam ter sido utilizados em projetos de maior impacto.

Esse problema não é único dos países emergentes ou economias desenvolvidas em expansão, mas essas nações são mais propensas a incorrer neste erro, devido a euforia econômica, sendo seu resultado uma profunda ressaca ou dor de cabeça, conhecida como “elefante branco”, tal qual citado antes.

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ImagemPorto exterior de La Coruña” (Fonte):

http://www.puertocoruna.com/export/sites/exis.contexis.portal.apac/galerias-archivos-imagenes/galeria-general-puerto/general-puerto-exterior/aerea_panoramica_PE_d.jpg

Wesley S.T Guerra - Colaborador Voluntário Sênior

Atua como consultor internacional na área de Paradiplomacia para o Escritório Exterior de Comércio e Investimentos do Governo da Catalunha. Formado em Negociações e Marketing Internacional pelo Centro de Promoção Econômica de Barcelona, Bacharel em Administração pela Universidade Católica de Brasília, especialista pós-graduado em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo – FESPSP, MBA em Novas Parcerias Globais pelo Instituto Latinoamericano para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Cultura e mestrando em Polítcias Sociais em Migrações na Universidad de La Coruña (España). Fundador do thinktank NEMRI – Núcleo de Estudos Multidisciplinar das Relações Internacionais. Especialista em paradiplomacia, acordos de cooperação e transferência acadêmica e tecnológica, smartcities e desenvolvimento econômico e social. Morou na Espanha, Itália, França e Suíça.

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