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Os Jogos Olímpicos de Sochi 2014 como parte do projeto de soerguimento da Rússia

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Há muito vem se tornando recorrente no cenário mundial o pensamento de que sediar megaeventos esportivos é uma forma bastante eficaz de se projetar internacionalmente a imagem de um determinado país ou região, gerando, consequentemente, inúmeros benefícios aos que se propõem a tal empreitada. Neste sentido, exemplos como o de Barcelona, sede dos “Jogos Olímpicos de 1992”, e de Pequim, sede dos “Jogos Olímpicos de 2008”, são comumente citados por terem sido os responsáveis diretos pelo processo de modernização e reestruturação de ambas as cidades, bem como por projetarem a imagem dos respectivos países na arena internacional. Desta forma, as tratativas para escolha das sedes dos megaeventos esportivos têm transbordado da esfera puramente esportiva para esfera política e diplomática. À guisa de ilustração, a primeira edição dos Jogos Olímpicos da era moderna, idealizado pelo francês Barão de Coubertin, realizou-se em Atenas, na Grécia, em 1896, como forma de projetar internacionalmente a independência grega, e a primeira edição daCopa do Mundo FIFA”, realizada em 1930, teve como país-sede o Uruguai, para celebrar os 100 Anos da Independência deste país.

Sochi 2014 - Your Gateway To The Future!

Sochi 2014 – Your Gateway To The Future! (Photo credit: yuriybrisk)

Assim, faltando menos de 100 dias para o início dos “Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi 2014”, muito se tem discutido sobre os reais interesses que orientam a realização das “Olimpíadas de Sochi” e sobre os inúmeros problemas associados a esta. Na visão do “Le Monde”, estes Jogos são, acima de tudo, a expressão da vontade de um único indivíduo, o presidente russo Vladimir Putin, que, desde o inicio das candidaturas para escolha da cidade-sede, envidou esforços para que Sochi se tornasse vitoriosa. Segundo Putin, estes “Jogos Olímpicos” serão o maior evento de toda história pós-soviética. Ademais, ainda no entender de Putin, as “Olimpíadas de Sochi” se inserem no contexto de uma ofensiva russa de grande amplitude no intuito de se qualificar para sediar outros megaeventos esportivos, como a “Copa do Mundo FIFA de 2018”, a ser disputada na Rússia. De acordo com o “Le Monde”, para um país que desde os “Jogos Olímpicos de Moscou de 1980”, boicotados por EUA e inúmeros outros países ocidentais em razão da intervenção soviética no Afeganistão, não figura no primeiro plano no cenário mundial, os “Jogos Olímpicos de Sochi 2014” e, sobretudo, a “Copa do Mundo FIFA 2018” representarão oportunidades de ouro.

Contudo, até a presente data, a única notoriedade alcançada pelas “Olimpíadas de Sochi” se deve a inúmeras polêmicas. Em primeiro lugar, esta edição dos “Jogos Olímpicos de Inverno” já entrou para história como a mais cara de todas as Olimpíadas já realizadas, tendo seu custo ultrapassado o montante de 36 bilhões de euros, cinco vezes mais do que o montante inicialmente orçado, o que se procura explicar, parcialmente, pela inexistência de infraestrutura na região. Na visão de Boris Nemtsov e Leonid Martynyuk, membros do partido de oposição, o Solidarnost, os “Jogos Olímpicos de Sochi” são um projeto pessoal de Putin e, sendo assim, apenas os empresários mais próximos e diretamente ligados a ele têm sido beneficiados com contratos de obras e de prestações de serviços relativos aos Jogos, a exemplo do bilionário Arkadi Rotenberg, amigo de infância de Putin, e proprietário da Mostoret, empresa que obteve os principais contratos de equipamento. Inclusive, em fevereiro último, diante das inúmeras suspeitas de corrupção, uma crise se instaurou no seio do “Comitê Olímpico Russo”.

Outro ponto polêmico relacionado aos “Jogos Olímpicos de Sochi” reside nas denúncias, por parte de várias organizações internacionais de defesa de “Direitos Humanos” – “Human Rights Watch e “Anistia Internacional”, por exemplo –, relativas à exploração de trabalhadores. Estes, oriundos, predominantemente, da Armênia, do Uzbequistão e do Tadjiquistão, sofrem com a ausência de contratos de trabalho, com a não observância das normas de segurança, com péssimas condições de trabalho, com o confisco de seus passaportes, prisões sem justificativa e expulsão da Rússia, além de receberem, em média, 1,5 euro por hora trabalhada. Não obstante a tais denúncias, ainda pesa toda a indignação da comunidade internacional quanto à promulgação, por parte de Putin, da lei que penaliza a propaganda de relações sexuais não tradicionais em solo russo, a qual viola, claramente, o “Sexto Princípio da Carta Olímpica”, que assevera que toda e qualquer forma de discriminação é incompatível com o movimento olímpico.

Por fim, deve-se ter em mente que este projeto de expansão do prestígio internacional russo por intermédio dos “Jogos Olímpicos de Sochi 2014” já nasce sob grande contradição, conforme aponta o “Le Monde”. Sochi, cidade-sede das próximas “Olimpíadas de Inverno”, se localiza no norte do Cáucaso, uma região bastante instável politicamente, e na vizinhança onde, em 2008, ocorreu uma guerra envolvendo a “Ossétia do Sul e a Geórgia, conflito bastante sangrento que resultou em inúmeras mortes. Destarte, segundo o ministro das relações exteriores da República Tcheca, Karel Schwarzenberg, que se declarou favorável a um boicote aos Jogos, organizar uma festa da paz e do esporte na vizinhança de uma região que foi palco de um sangrento massacre e de uma guerra de agressão é uma ideia por demais estranha.

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ImagemSochi 2014, a Política Acima do Esporte” (Fonte):

http://www.lesmobiles.com/images/news_in/jo-sochi-2014.jpg

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Fontes consultadas:

Ver:

http://www.lemonde.fr/jeux-olympiques/article/2013/10/30/jo-de-sotchi-plus-que-cent-jours_3505200_1616891.html

Ver:

MILZA, P; JEQUIER, F.; TÉTART, P. Le Pouvoir des Anneaux: les Jeux Olympiques à la lumière de la politique 1896-2004. Paris: Vuibert, 2004.

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Mario Joplin - Colaborador Voluntário

Mestre em Relações Internacionais pela UERJ, Especialista em História das Relações Internacionais e Bacharel em Ciências Econômicas pela UFRJ. Possui experiência na área de Economia, com ênfase em Economia Política Internacional e Formação Econômica Brasileira. Foi bolsista de FAPERJ por um ano e Bolsista de Vocação para Diplomacia do Instituto Rio Branco (IRBr) por 4 (quatro) anos. Áreas de interesse: Esporte e Relações Internacionais; Diplomacia Futebolística; e Soft Power e Política Externa.

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