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A participação norte-americana na Cúpula do G-20 em Hamburgo, na Alemanha, iniciou antes, com uma parada de 16 horas em Varsóvia, na Polônia, na última quinta-feira, dia 6 de julho, para um encontro bilateral com as lideranças locais.

Durante a rápida visita, Trump se reuniu com Jarosław Kaczyński, presidente do Partido Lei e Justiça (PiS, na sigla em polonês), considerado o governante de fato do país, e também com o presidente Andrzej Duda. Entretanto, ele evitou reunião com a primeira-ministra polonesa Beata Szydło e com líderes da oposição.

Jarosław Kaczyński e Andrzej Duda, em 18 de abril de 2013

A visita à Polônia anunciada a menos de um mês pela Casa Branca tem fatores importantes a serem considerados, a começar pela recente pesquisa do PEW Research Institute que afirma que três quartos do mundo tem pouca ou nenhuma confiança na administração do republicano Donald J. Trump, sendo índices que na maioria dos países estão abaixo do que existia em relação ao ex-presidente George W. Bush (2001-2009).

Na Europa Ocidental, os números são ainda mais desfavoráveis. Na Alemanha, apenas 6% dos entrevistados acreditam que o Presidente estadunidense é qualificado para o cargo e 91% o consideram arrogante. Da mesma forma, 89% dos entrevistados no Reino Unidos pensam que Trump é arrogante e 50% ainda entendem que os EUA e o Reino Unido têm uma relação especial, índice que para observadores internacionais pode explicar por que a Visita de Estado agendada ao Reino Unido sofreu adiamento indefinido.

Na via contrária ao pensamento da Europa Ocidental, os países onde Trump tem o apoio difundido são justamente na Polônia, com 73%, e na Hungria, em que tem 63%, ambos liderados por governos considerados de extrema direita, com matizes populistas, que, assim como o Presidente norte-americano, se opõem fortemente à imigração, questionam às mudanças climáticas e são adeptos do uso do carvão como fonte principal para geração de energia.

As semelhanças com o recente cenário estadunidense convergem pelas mãos do partido governista polonês, o Lei e Justiça (PiS), que optou por um caminho isolacionista na União Europeia, iniciativa que se assemelha a plataforma eleitoral nacionalista usada por Trump, conceitualmente conhecida pelo slogan “América First”.

Nesse sentido, dado o histórico dos seis primeiros meses na Casa Branca, Trump poderá tentar aprofundar as divisões internas da UE ao apoiar uma cisão do flanco leste com os membros ocidentais do Bloco europeu.

Ainda na capital polonesa, Trump se reuniu com os líderes dos 12 países membros da União Europeia que também compõem o grupo Three Seas Initiative, grupo que inclui Polônia, República Checa, Eslováquia, Hungria, Lituânia, Letônia, Estônia, Áustria, Romênia, Bulgária, Eslovênia e Croácia,  países localizados entre o mares Báltico, Adriático e Negro e que servem como contrapeso ao domínio franco-alemão na política europeia, assim como esforço para melhorar a cooperação regional em energia e comunicação.

Cerimônia de abertura da Nord Stream em 8 de novembro de 2011 com Angela Merkel, Dmitri Medvedev, Mark Rutte e François Fillon

Em complemento, há a intenção desse grupo em contrabalançar o projeto germano-russo do Nord Stream Pipeline 2, que, para analistas geoestratégicos dos países da Three Sea Initiative, visa reforçar o monopólio energético da Rússia na Europa e a iniciativa polonesa também representa a própria tentativa de liderança regional, assim como o flanco oriental da OTAN, onde os EUA estão implantando recursos militares em resposta inicial à ação russa na Ucrânia.

No âmbito do gás natural, Trump, atuando mais como empresário do que propriamente como político, acredita que o gás a ser vendido pelos EUA poderá gerar bons negócios e criar empregos. Contudo, para a Europa, o gás é matéria de geopolítica; para o presidente russo Vladimir Putin, observadores avaliam como sendo uma arma política; para a Polônia, um meio de segurança e para Alemanha uma forma de manter a política regional com status quo favorável as suas iniciativas de manutenção da projeção regional.

Diante deste cenário, Berlim é considerada pela administração republicana como um rival econômico e pela Polônia como potencial ameaça à segurança, devido a aliança energética com a Rússia.

Para tanto, nas análises de conjuntura fomentadas tanto nos EUA como na Europa e na Rússia, o cálculo pode sugerir que uma vez que Congresso dos EUA opte por aprovar novas sanções que proíbam a cooperação com empresas envolvidas com fornecedores de energia russos, o futuro do Nord Stream será questionado, prejudicando os interesses econômicos alemães e criando oportunidade para os norte-americanos venderem gás na modalidade de fracking para a Europa.

Por fim, ainda como parte de uma possível nova conjuntura geopolítica, a visita de Trump a Varsóvia, antes de Berlim, demonstra uma provável intenção do Presidente estadunidense de criar uma divisão profunda na UE e dar voz aos críticos da “Europa Velha”, além de demonstrar compromisso da América com um dos principais parceiros na OTAN, interpretação acompanhada por analistas europeus que sugerem serem os conselheiros nacionalistas do Presidente, particularmente Steve Bannon e Stephen Miller, os autores dessa iniciativa.

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Fontes das Imagens:

Imagem 1Presidente Andrzej Duda com o Presidente estadunidense Donald Trump e a Primeira Dama, Melania Trump em Varsóvia” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Andrzej_Duda#/media/File:President_Trump%27s_Trip_to_Poland_(34920988424).jpg

Imagem 2Jarosław Kaczyński and Andrzej Duda, em 18 de abril de 2013” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Law_and_Justice#/media/File:Jaros%C5%82aw_Kaczy%C5%84ski_(8736182554).jpg

Imagem 3Cerimônia de abertura da Nord Stream em 8 de novembro de 2011 com Angela Merkel, Dmitri Medvedev, Mark Rutte e François Fillon” (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Nord_Stream#/media/File:Nord_Stream_ceremony.jpeg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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