LOADING

Type to search

Os quatro elementos chaves na cultura diplomática chinesa

Share

Dentre os muitos desafios que os estudantes e estudiosos das relações internacionais enfrentam ao analisar a política externa chinesa, a questão cultural se sobressai. Depois de séculos de hegemonia ocidental, quando nações como Espanha, França, Inglaterra e finalmente Estados Unidos se revezaram na condição de liderança tecnológica, militar e intelectual, a atual geração de analistas internacionais têm o desafio de, além das questões político-diplomáticas, também verificar os elementos culturais e domésticos que cercam as decisões tomadas em Beijing e suas naturais consequências nos âmbitos regional e global.

Este artigo introduz alguns elementos que podem ser úteis em alguns contextos analíticos. Eles são baseados nos trabalhos recentes do professor de estudos internacionais Qin Yaqing da China Foreign Affairs University, onde ele também serve como vice-reitor. As fontes estão citadas no final do artigo para referência.

Quais são os elementos chaves da cultura chinesa? Com uma história milenar, seria possível enumerar dezenas de elementos que mesmo depois de séculos ainda se fazem presentes na sociedade chinesa e exercem grande influência sobre os formuladores de política externa do país. No entanto, quatro deles se destacam quando se discute diplomacia, são eles: contextualidade, correlatividade, flexibilidade e complementaridade.

Contextualidade

De forma geral, os chineses são extremamente orientados pelo contexto em que estão inseridos. Essa tendência é verificada por uma forte tendência em ver o mundo de maneira holística e não tão compartimentada como na tradição ocidental. Pensadores chineses sempre buscaram entender o comportamento dos atores (incluindo atores mundiais) como parte de um contexto do que separado deste. Problemas são, assim, não atos isolados de um ator mas fruto de um contexto específico que os levaram a acontecer. Os apreciadores da medicina chinesa irão se sentir familiarizados com este conceito.

Numa lógica oposta ao da utilizada na medicina ocidental, a medicina chinesa é fundada no conceito de prevenção. Para evitar que indivíduos adoeçam, o método chinês trata o corpo como um todo e inserido em um contexto. A ideia chave é trata-los juntos de forma coordenada evitando o tratamento tópico e desprezando o ambiente em que o indivíduo está localizado.

De uma forma mais abstrata, é no contexto que se localiza o qi, que é visto como sendo onde energias fluem e oferece para os mais atentos uma tendência ou direção para os acontecimentos a sua volta. Isto significa que para os diplomatas chineses, é fundamental julgar com clareza, ou ao menos tentar ver qual os desdobramentos que uma determinada situação pode apresentar, levando em consideração todos os elementos que a cercam.

Sua capacidade de negociação e barganha aumenta na medida em que um negociador consegue vislumbrar estes eventuais desdobramentos, verificando quais deles estão mais alinhados com o contexto e a tendência do momento. Raramente diplomatas chineses se deixam levar por questões pontuais, as quais, se da perspectiva de uma potência ocidental é de extrema importância, para os chineses essas mesmas questões são relativizadas, pois estão integradas num contexto e como tal devem ser tratadas

Correlatividade

Outro aspecto importante é a correlatividade. A ideia de correlatividade essencialmente significa que tudo se relaciona e nada está no vácuo ou isolado. Este conceito se conecta com outros elementos muito presentes nas sociedades confucianas que são o alto valor dado para as relações pessoais e a importância de se seguir os rituais ou os processos necessários para cada situação. A “processualidade” chinesa e mesmo asiática como um todo, talvez seja uma das barreiras culturais mais claramente identificadas que estrangeiros ocidentais têm que superar. Para tudo a um tempo e a sua maneira correta de ser e acontecer. Não seguir o processo que uma situação exige implica em se desconectar de uma solução que, se não está claramente visível, está se desenhando pelo fortalecimento das relações pessoais nelas envolvidas. Relacionar-se bem e seguir o ritual que essas relações exigem é portanto fundamente para o sucesso pessoal e profissional.

Complementariedade

Tanto nas relações pessoais quanto entre estados nacionais, a cultura chinesa demanda a busca por relações de complementaridade. Mesmo quando dois inteiros se colidem, diz este preceito, sempre haverá possibilidades abertas para que estes ainda se completem de alguma forma. Este conceito de complementaridade está simbolizado pelo Yiching (Ying Yang), onde duas partes, apesar de estarem em posições opostas e se caracterizarem por cores distintas, se complementam e produzem um todo harmônico.

Mutabilidade

Com uma história milenar, os chineses aprenderam que nada permanece. Impérios surgem e desaparecem assim como dinastias são estabelecidas e derrubadas de acordo com a tendência do momento. Tudo muda e nada permanece. O conceito de mutabilidade se conecta totalmente como os conceitos anteriores, uma vez que é inútil defender posições que não estão mais alicerçadas pela realidade dos fatos. Grandes gestos diplomáticos chineses nos últimos 60 anos foram feitos baseados no conceito da mutabilidade. Se a aliança com os soviéticos não está funcionando é tempo de alterar o foco e se aproximar dos Estados Unidos, se as políticas coletivistas implementadas por Mao não estão surtindo efeito, é tempo então de alterar o rumo utilizando elementos capitalistas na economia. As mudanças deste ponto de vista não são vistas como instabilidades, mas necessárias para se manter o projeto ou objetivos estratégicos intactos. Mudar para permanecer é parte indelével do caráter chinês.

Embora estes conceitos estejam fortemente presentes não só na diplomacia mas no dia a dia de chineses (incluindo aqui também Taiwan, Singapura e Hong Kong), é importante não idealiza-los. Questões culturais quando utilizadas como variáveis explanatórias geralmente nos levam a conclusões no mínimo escorregadias. Uma prova disso seria tomar estes conceitos descritos acima sem levar em conta uma outra característica fortemente arraigada na China, que é o pragmatismo. Mesmo quando seus elementos culturais não estão presentes na mesa de negociações ou as questões colocadas não permitem relativismos culturais, Beijing tem assumido posições práticas em busca de soluções que não agravem o cenário. Dessa forma os elementos não devem ser elevados à condição de panaceia para explicar todos os movimentos diplomáticos chineses na arena internacional. Uma vez que, se assim fosse, seria também necessário fazer o mesmo exercício com relação ao estado nacional do outro lado da mesa de negociações.

——————————————————————————-

Imagem (Fonte):

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/7c/Yin_and_Yang.svg/2000px-Yin_and_Yang.svg.png

——————————————————————————-

Fontes Consultadas:

Ver:

Qin Yaqing. “Rationality and processual construction: bringing Chinese Ideas into international relations theory”. Social Science in China, vol. XXX, No.3, August 2009. 5-20.

Ver:

Qin Yaqing, “Chinese Culture and Its implications for Foreign Policy-making”. China Institute of International Studies (CIIS). April 12,2012. Access: January, 26 2015. Disponível, em: www.­ciis.­org.­cn/­english/­2012-­04/­12/­content_4934865.­htm

Moisés Lopes de Souza - Colaborador Voluntário Sênior

Graduado em Relações Internacionais pelas Faculdades Integradas Rio Branco. Doutorando em Estudos de Ásia-Pácifico no Doctoral Program in Asia-Pacific Studies (IDAS) da National Chengchi University (Taiwan). Pesquisador Associado do Center for Latin America Trade and Economy, Chihlee Institute of Technology.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.