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[:pt]Os rumos adotados pelos Estados Unidos para estabilização do Afeganistão[:]

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Sob contextos de latente heterogeneidade, as ações de estabilidade em curso no sistema internacional denotam uma via de pouca assertividade. Cenários de incerteza assolam todos os continentes, cada qual com suas especificidades que atraem para o contexto global um cenário pouco animador pela busca do restabelecimento de uma ordem branda, congruente e menos belicista.

O case Afeganistão é mais um dentre aqueles que, após a ação de uma potência hegemônica, luta pela coexistência pacífica. Desde 2001, os Estados Unidos e seus parceiros internacionais aplicaram recursos substanciais para assegurar, estabilizar e reconstruir o Afeganistão, depois de longos anos de política de combate aos terroristas. Contudo, o desenvolvimento recente indica que o progresso dessas diretrizes não consegue evoluir para um próximo nível, abrindo precedentes para o Taleban se reagrupar e restabelecer, mesmo que parcialmente, o controle em faixas territoriais, principalmente em regiões rurais, a citar as províncias de Helmand, Uruzgan, Nangarhar e Kunduz, bem como ofensivas violentas contra os distritos e capitais das respectivas províncias.

Por decorrência do retrocesso no quadro de estabilização do Afeganistão, o presidente Barack Obama, antes de embarcar para Varsóvia, Polônia, para participar da Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN – NATO, na sigla em inglês) retrocedeu em um de seus pilares de campanha, ao determinar a manutenção de um contingente expressivo de militares no país asiático. Permanecerão no terreno 8.400 combatentes, especialistas, conselheiros e forças especiais para continuar o treinamento da Força Nacional de Segurança do Afeganistão (Afghanistan National Security Forces – ANSF), assim como auxiliá-los em operações contra forças insurgentes.

A decisão da Casa Branca, de acordo com especialistas em Ásia, já vinha sendo observada desde que a ANSF assumiu a responsabilidade majoritária da segurança do país, em meados de 2014, obviamente sob a supervisão e apoio dos EUA e da OTAN. Em fevereiro de 2016, centenas de soldados estadunidenses foram enviados para Helmand com o intuito de reforçar as forças de operações especiais nas campanhas conjuntas com os afegãos e essa iniciativa foi a primeira desde que a coalizão terminou de maneira oficial as ações de combate, em 2014. O número crescente de baixas nas forças afegãs gerou aumento da instabilidade e consequentemente diminuiu a sensação de proteção do território, aliado a relatos do Estado Islâmico (EI, ou ISIS – Islamic State of Iraq and al-Sham) terem ingressado nas fileiras de combate em apoio ao Taleban.

Outro fator determinante para a manutenção das tropas ocorreu em maio deste ano (2016), após o líder Taleban, Mulá Akhtar Mansour, ser morto em um ataque de Drone na província do Baluchistão, no Paquistão. Mawlawi Haibatullah Akhundzada, líder religioso, assumiu o posto o instaurou a primeira ofensiva na primavera, denominada “Operação Omari”, atingindo Cabul e outras partes do país.

Por algumas das iniciativas apresentadas, o Taleban, hoje, conseguiu reaver o controle de mais territórios do que em qualquer outro momento desde a invasão estrangeira em 2001 e, por conseguinte, continua a realizar atentados suicidas em grandes cidades. O ano de 2015, como sendo o primeiro de operações da ANSF, é também o mais mortífero, com aproximadamente 4.300 membros mortos e cerca de 8.000 feridos.

Na visão do Departamento de Estado dos EUA, o retrocesso político poderá afetar os ganhos econômicos, estruturais e de segurança alcançados, gerando a possibilidade de o país se tornar novamente refúgio para extremistas, atrelado a possibilidade de ramificar o desequilíbrio interno para regiões maiores, como o Paquistão, a Índia, o Irã e a Rússia.

Ao fazer um anúncio na última semana, Obama confirma, no “The Security situation in Afghanistan remains precarious...”, que o peso de um potencial fracasso na Guerra contra o Terror reforça a necessidade de restabelecer os pilares de desenvolvimento por outras vias. Ou seja, além da prerrogativa de eliminar a ameaça insurgente, em particular o Taleban e seus apoiadores, como ISIL-Khorasan Province (ISIL-KP), é fundamental dar apoio na reconstrução da parceria política, a qual foi abalada pelos inúmeros casos de corrupção na administração do presidente Ashraf Ghani; apoiar um processo de paz; contribuir para o reforço da cooperação regional e contribuir para a promoção do crescimento econômico, com diretrizes que dariam um alento à população e diminuiriam a necessidade de conversão dessa sociedade ao modelo de sobrevivência que se daria pelo caminho desenvolvido pelo fundamentalismo religioso.

Outras opções preventivas que poderiam minimizar a situação calamitosa estariam atreladas à possibilidade de evitar um colapso político através de esforços diplomáticos para organizar novas eleições legislativas e municipais, bem como convocar uma nova Loya Jirga, que em pashtun significa “Grande Conselho”, em que todos os povos e etnias estariam representados para traçar os novos rumos do Estado. Ainda neste mesmo âmbito, outra opção analisada seria considerar uma cooperação com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) para estruturar um modelo econômico e de governança.

Iniciativas como estas, se bem implementadas, podem constituir um “divisor de águas” no descontentamento populacional, pois produziriam efeitos na diminuição dos níveis de desemprego, na escassez de energia e no financiamento agrícola, questões que poderiam colocar a sociedade menos reticente com relação ao governo atual.

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Imagem (Fonte):

https://blogs.cfr.org/zenko/files/2016/07/MarinesHelmund2014.jpg

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Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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