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Panama Papers: Escopo e primeiras consequências

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No início de 2015, uma fonte anônima fez contato com um dos maiores jornais em circulação na Alemanha, o Süddeutsche Zeitung. Essa fonte se identificou como John Doe, um “João Ninguém” que gostaria de saber se o jornal estava interessado em documentos de circulação interna da empresa panamenha Mossack Fonseca. “Claro!”, responderam os jornalistas.

A fonte exigiu que todo o diálogo e o fornecimento de documentos ocorresse de maneira criptografada, e que a fonte e representantes do jornal jamais se encontrariam pessoalmente. A única coisa que a fonte pediu em troca foram medidas de segurança, já que, levando em consideração o escopo e os impactos que as revelações provocariam, ele temia por sua segurança.

Teve início então o maior vazamento de dados na história do jornalismo moderno. Esses dados totalizam 2,6 Terabytes, compostos por, aproximadamente, 11,5 milhões de documentos, dentre eles, contratos, passaportes, memorandos, gráficos, fotos, enfim, uma gama de documentos nunca antes vista. Para efeito de comparação, o Cablegate, vazamento de dados realizado pelo Wikileaks em 2010 totalizou apenas 1,7 Gigabytes e o Swiss Leaks, pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), eram dados que compunham aproximadamente 3,3 Gigabytes.

Os documentos vazados pela fonte não só ilustram a abertura sistemática de empresas offshore pela Mossack Fonseca, mas também contém os nomes e dados de celebridades, executivos, membros da FIFA, Chefes de Estado ou de pessoas muito próximas a eles. Dentre os vários nomes citados, estão: o presidente russo Vladimir Putin; o presidente sírio Bashar al-Asad; Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, até então Primeiro-Ministro da Islândia e Ian Cameron, pai do Primeiro-Ministro do Reino Unido, David Cameron.

Devido à proporção e a quantidade de documentos e dados para serem analisados, o Süddeutsche Zeitung trabalhou em conjunto com o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), envolvendo mais 300 jornalistas de 80 países diferentes, em um processo investigativo que durou cerca de um ano, onde foram estudadas as pessoas envolvidas, seus círculos sociais, o rastreamento do dinheiro, além de outras técnicas investigativas e culminou nas primeiras publicações relacionadas ao Panama Papers, em abril de 2016.

As semanas seguintes ainda irão trazer novas revelações decorrentes do vazamento, mas as primeiras consequências já estão sendo vistas. A publicação do Panama Papers ocorreu no domingo (3 de abril) e, já na manhã de terça-feira, dia 5 de abril, o Primeiro-Ministro da Islândia, Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, cedeu a protestos da Oposição e da população e renunciou ao cargo. David Cameron é outro Chefe de Estado que enfrenta questionamento a respeito das atividades econômicas da empresa do pai, que, após sua morte, passou para o Primeiro-Ministro do Reino Unido.

No entanto, talvez o maior escândalo não sejam necessariamente as pessoas envolvidas ou as quantidades exorbitantes de dinheiro movimentadas, para evitar o pagamento de impostos no país de origem. O maior escândalo é a existência de uma estrutura comercial internacional aparentemente legal, que fomenta e lucra com a evasão fiscal e a sonegação de impostos.

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ImagemCaptura de tela do site da empresa Mossack Fonseca” (Fonte):

http://www.mossfon.com

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Breno Pauli Medeiros - Colaborador Voluntário Júnior

Mestrando em Ciências Militares pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME). Formado em Licenciatura e Bacharelado em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Desenvolve pesquisa sobre o Ciberespaço, monitoramento, espionagem cibernética e suas implicações para as relações internacionais. Concluiu a graduação em 2015, com a monografia “A Lógica Reticular da Internet, sua Governança e os Desafios à Soberania dos Estados Nacionais”. Ex bolsista de iniciação científica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), período no qual trabalhou no Museu Nacional. Possui trabalhos acadêmicos publicados na área de Geo-História e Geopolítica.

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