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Panorama do primeiro turno das eleições francesas

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No dia 22 de abril, teve fim o primeiro turno das “Eleições Presidências” na França. A movimentação que tal acontecimento gerou na mídia foi enorme. Muitos evocaram uma disputa ideológica que não era vista com tanta veemência desde a queda do muro que dividia Berlim e a fragmentação da antiga “União Soviética”. Não se sabe ao certo se as eleições francesas realmente colocaram visões de mundo em lados opostos, se representaram o antigo embate entre a esquerda e a direita, mas o que realmente sabemos é que tal disputa foi marcada por acontecimentos bastante peculiares e possivelmente únicos.

 

Não restava dúvida que as eleições seriam disputadas, efetivamente, pelo atual presidente Nicolas Sarkozy, candidato da “União por um Movimento Popular”, e pelo candidato do “Partido Socialista”, François Hollande. Entretanto, o papel desempenhado pelos candidatos por muitos tomados como “figurantes” mostrou-se importante.

Com menor peso, entre os tais “figurantes”, encontra-se François Bayrou. Bayrou, considerado pelo público como um político centrista, candidatou-se pela “União para a democracia francesa”, recebendo, segundo pesquisas, cerca de 12% das intenções de votos. Em sua campanha eleitoral, preocupou-se com a atual situação do país, ou seja, a condição da França na atual crise que assombra a Europa. Segunda a publicação inglesa “The Economist”, Bayrou foi o único candidato que apresentou propostas reais para solucionar, ou melhor, amenizar os efeitos da crise. Taxado de “liberal”, propôs o corte de 50 bilhões de euros dos gastos públicos além do acréscimo da arrecadação, na mesma quantia, através do aumento de certos impostos, aumentos aceitáveis e possíveis, criticando assim, a proposta socialista, como veremos posteriormente.

Bayrou criticou a ocorrência de uma espécie de acordo entre os dois grandes candidatos que evitaram o debate e a apresentação de propostas reais para os problemas latentes. Afirmou: “Não estamos perguntando nenhuma das questões vitais para a sobrevivência da França. Quando um país não enfrenta nenhuma destas questões, corre um risco de uma catástrofe[1]. Certamente, observando os acontecimentos, Bayrou acertou ao ressaltar o fato de que enquanto o mundo olha atento para o dia-a-dia europeu, perguntando-se como a crise será resolvida, enquanto dez governos na Europa já foram destituídos como conseqüência direta desta mesma crise, os principais candidatos à sucessão presidencial na França resolveram deixar tal questão de lado.

Outros considerados “figurantes” também foram dignos de nota. Em resposta a apatia das campanhas de Sarkozy e, principalmente, Hollande, o candidato Jean-Luc Mélechon, da coligação “Frente de Esquerda” e outrora membro do “Partido Socialista Francês”, apresentou uma vitalidade invejável. Trotskista e atual membro do “Partido Comunista”, Mélechon encheu a “Praça da Bastilha” com milhares de franceses simpatizantes de seu Programa, que ouviram o candidato aclamar por uma insurreição civil e criticar bravamente o “antigo regime” imposto ao povo da França.

Propôs pensões completas para todos com mais de 60 anos; uma caminhada para o aumento de 20% do salário-mínimo, aumento que aconteceria por decreto; a nacionalização de empresas; e a criação de um piso salarial de 360 mil euros por ano, assim como 500 mil novos empregos. A eloqüência do candidato passou a conquistar os votos da esquerda, retirando, assim, o prestígio do candidato socialista, algo que, por sua vez ajudou a Sarkozy, evitando uma derrota em primeiro turno, sem chances de um segundo.

Porém Mélechon não “roubou” votos somente da esquerda. Sua campanha conseguiu recuperar eleitores que haviam migrado para a extrema direita francesa – operários não-qualificados e funcionários públicos de nível básico e intermediário[2]. Enquanto o candidato “comunista” subiu nas pesquisas seis pontos percentuais, de 9% para 15%, o candidato “socialista” perdeu quatro pontos, de 32% para 28%.

Para finalizar as observações sobre a lista de “figurantes” é importante tratar da candidata da “Frente Nacional Marine Le Pen, destacando-se que tal candidata pode não ser tomada  tanto assim como uma figurante. O empresário Jean-Marie Le Pen, fundador da “Frente Nacional”, chocou o país ao ser o segundo candidato mais votando nas eleições de 2002, com cerca de 16,9% dos votos, desbancando o candidato do “Partido Socialista”. Sua filha, a personagem em questão, revitalizou o Partido, renovando sua imagem, considerado de extrema direita. Em discurso, culpou a imigração (principalmente islâmica) e a integração européia pela atual crise vivenciada na França, logo, propôs a imediata retirada de seu país da “zona do euro”. Segundo as pesquisas, Le Pen receberia cerca de 14% das intenções de votos.

Como fato político, demonstra-se interessante o fortalecimento dos partidos de “extrema”, tanto esquerda quanto direita, que juntos receberiam cerca de 30% dos votos, mais do que qualquer um dos principais candidatos à Presidência. Talvez os eleitores estejam cansados de discursos moderados, tanto socialistas, como de direita, e buscam medidas drásticas, até mesmo utópicas para a solução dos problemas franceses.

A campanha de nossos “figurantes” demonstrou-se, porém, mais empolgante e viva, comparado ao que acontecia nas campanhas de François Hollande e Nicolas Sarkozy. O socialista Hollande apresentou em seu programa eleitoral o discurso da “esperança[3] como solução para a crise européia. Diferentemente de seu principal oponente, Hollande pautou o discurso na necessidade de crescimento econômico – proposta elogiada pela famosa publicação inglesa “Financial Times”, reconhecida pelo seu caráter liberal.

Propôs taxar em 75% os salários superiores a um milhão de euros anuais, além de restabelecer a aposentadoria aos 60 anos. Sua proposta de taxação foi fortemente criticada devido sua falta de realidade. Olivier Ferrand, chefe de um “think-tank” ligado ao “Partido Socialista”, afirmou que a proposta de Hollande é simbólica, apenas[4]. Depois dos resultados das primeiras pesquisas eleitorais, mostrando o socialista à frente, Hollande adotou uma tática “retranqueira”, evitando assuntos polêmicos.[5]

Já o atual presidente Nicolas Sarkozy apresentou uma campanha que, pela ausência de uma palavra melhor, foi vista por muitos analistas como próxima de “esquizofrênica”. Em parceria com a chanceler alemã, Angela Merkel, havia estipulado as diretrizes de um programa de austeridade para Europa como único modelo de combate a crise. É preciso recordar que muitos Governos europeus caíram por não aprovarem tais medidas de restrição econômica e social. Porém, algum tempo depois e com a crescente percepção da impopularidade dos mecanismos de austeridade, mudou seu discurso, passando a defender a prioridade do crescimento econômico e propondo o início de uma discussão sobre a reforma do “Banco Central Europeu”, algo que gerou grandes desconfortos na Alemanha[6]. Com os ataques terroristas em Toulouse, Sarkozy fortaleceu um discurso nacionalista (que de certa forma também estavam presentes nas campanhas de Hollande, Le Pen e Méchelon) e a defesa da unidade francesa passou a pautar a campanha do candidato[7].

Discursos “nacionalistas” caracterizaram este primeiro turno das eleições francesas com preocupações que iam dos problemas econômicos às questões da imigração. Sarkozy defendeu a redução de benefícios concedidos a imigrantes além de ações para se repensar o “Acordo Schengen[8]. Le Pen concordou em retirar a França do Acordo e Hollande tentou racionalizar o problema. Propôs a legalização de alguns imigrantes, após um debate sobre as profissões que se apresentam necessárias, ficando, entretanto, problema do que fazer com os imigrantes ilegais que não se encaixam nestas profissões[9]. Na economia, além das propostas de nacionalização e de proteção as empresas francesas – de Mélechon à Sarkozy – o grande embate deu-se na bipolarização entre “austeridade” contra “crescimento”. De certa forma, Bayrou foi o único candidato a defender, do começo ao fim, uma austeridade na França. É importante perceber o surgimento de uma “onda” anti-européia. A percepção do eleitorado francês sobre as ameaças econômicas e aquelas provenientes de uma imigração incontrolável demandou saídas contrárias às propostas oferecidas, ou como alguns irão dizer, impostas, pela “União Européia”.

Em relação ao resultado, François Hollande confirmou seu favoritíssimo ao receber 28,6% dos votos; já Sarkozy, tornando-se assim o primeiro presidente francês a não conseguir maioria dos votos no primeiro turno de sua tentativa de reeleição, amargurou um segundo lugar, com 27,1%.

Surpreendentemente, a candidata de “extrema direita”, Marine Le Pen, recebeu 18% dos votos, maior votação da história de seu Partido. Novamente, também surpreendendo, porém agora de forma negativa, Mélechon recebeu apenas 11,1% dos votos, diferentemente do que apontavam as pesquisas e, nesta onda contrária as pesquisas de intenção de votos, o candidato “centrista” François Bayrou conseguiu somente 6,1% dos votos.

Utilizando da matemática, juntamente com a premissa de bipolarização das eleições francesas entre “esquerda” e “direita”, é possível construir o seguinte cenário para o segundo turno: Sarkozy, representante da direita, com 45,1% dos votos (seus votos somados aos de Le Pen); Hollande, representando a esquerda, com 39,7% dos votos (somando os votos de Mélechon). Um cenário nem um pouco agradável aos “de esquerda”. Mas, como veremos, as eleições francesas estão pautadas por outra bipolarização.

Em discurso proferido após os resultados, Hollande irá acenar com os eleitores da extrema direita: “O primeiro turno representa uma sanção ao mandato que chega ao fim. Nunca, nem em 2002, a ‘Frente Nacional’ havia atingindo um nível tão elevado. É um novo sinal que convoca a mudanças na república10. De forma semelhante, porém muito mais “descarada”, Sarkozy irá dizer: “Os franceses expressaram um voto de crise, testemunhando suas inquietudes, seus sofrimentos e suas angústias frente a este novo mundo que está se desenhando. Estas angústias, estes sofrimentos, eu os conheço, eu os compreendo. Elas dizem respeito a nossas fronteiras, à luta contra a transferência de empresas para o exterior, ao controle da imigração, à valorização do trabalho e à segurança[10].

Os outrora “figurantes” do primeiro turno apresentam-se, agora, como personagens centrais no processo de eleição na França. Iniciou-se a “temporada” de transferência de votos. Jean-Luc Mélechon foi claro – assim como a candidata Eva Joly, do “Partido Verde”, detentora de 2,3% dos votos – irá apoiar o candidato socialista no segundo turno. François Bayrou foi mais firme, afirmou que gostaria de conversar, primeiramente, com ambos os candidatos para assim definir seu apoio. Já Marine Le Pen não demonstra sinais de apoio a nenhum dos candidatos.

A aprovação histórica recebida pela “Frente Nacional” nas urnas do domingo levou Le Pen a acreditar no fortalecimento de seu projeto político. Afirmou em discurso: “É apenas o início de nosso combate. É o começo de uma grande reunião de patriotas de direita e de esquerda, de apaixonados pela França e defensores de sua identidade”. Le Pen conquistou um público jovem e de operários, “categorias” mais sujeitas ao desemprego, ao criticar o livre mercado, a livre circulação de pessoas e o euro. O número de votos de Le Pen impressiona e tal eleitorado será vital para o resultado do segundo turno. De acordo com pesquisas, enquanto 91% dos eleitores de Mélechon irão votar em Hollande, apenas 47% dos eleitores de Le Pen irão migrar para Sarkozy (27% para Hollande)[11].

É possível afirmar que a grande bipolarização existente nas eleições francesas não é ideológica, “esquerda” e “direita”, mas sim, entre “anti-Sarkozy” e “pró-Sarkozy”. O mandato de Sarkozy foi marcado por muitas mudanças que desagradaram inúmeros eleitores franceses. Nas pesquisas de intenção de votos, 60% dos eleitores de Hollande afirmaram sua escolha como forma de retirar o atual presidente do cargo[12]. Sarkozy foi eleito em 2007 com apoio do eleitorado de extrema direita, porém seu Governo, que aceitou as medidas de austeridade de Bruxelas/Berlim, não os agradou e, por causa disso, a transferência de votos de Le Pen não á automática.

Parte de seu eleitorado prefere se abster do que votar em Sarkozy. Porém o atual Presidente necessita destes votos para se eleger e seu discurso ganha, cada vez mais, um tom extremo. A guinada de Sarkozy à extrema direita começa a desagradar Bayrou e seus eleitores “centristas”, assim como os próprios partidários do presidente. Patrik Devedjian, ex-conselheiro de Sarkozy, afirmou que “a extrema direita só é forte quando a direita é fraca, quando ela não tem seu próprio ideário e sua visão de mundo[13].

Sarkozy peca ao apresentar políticas (durante seu mandato) e propostas (nas campanhas eleitorais) sem nenhuma coerência política. Em outras palavras, seu projeto político apresentado ao eleitor está sujeito a quaisquer mudanças necessárias para a reeleição. Neste sentido, Le Pen mostra-se coerente ao criticar a proposta de ambos os candidatos, preferindo não apoiar nenhum deles e sim fortalecer seu próprio “Programa Político”.

Hollande, enquanto isso, só necessita continuar seu jogo “retranqueiro”, já que o maior adversário de seu adversário é o seu próprio adversário. Como os analistas estão direta e indiretamente destacando, nesta apatia política, quem sai perdendo, obviamente, são os franceses.



[1] The Economist. (Versão Impressa) Volume 402 Número 8778. 31 de Março-06 de Abril de 2012.

[2] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,extrema-esquerda-cresce-na-franca-e-da-vantagem-a-socialistas-em-2-turno-,858545,0.htm

[3] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,embate-entre-esquerda-e-direita-volta-a-franca-com-duelo-sarkozy-hollande-,863931,0.htm

[4] The Economist, versão citado anteriormente.

[5] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,uma-escolha-pelo-estilo-pessoal-e-nao-pelo-conteudo–,864270,0.htm

[6] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,proposta-eleitoral-de-sarkozy-irrita-alemanha-,861933,0.htm

[7] http://jornal.ceiri.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2706:a-unidade-nacional-nas-eleicoes-francesas&catid=94:notas-analiticas&Itemid=656

[8] http://jornal.ceiri.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2777:problemas-nas-fronteiras-europeias&catid=94:notas-analiticas&Itemid=656

[9] http://www.guardian.co.uk/world/french-election-blog-2012/2012/apr/19/immigration-forefront-french-election

[10]http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,socialista-hollande-bate-sarkozy-no–1-turno-e-amplia-favoritismo-na-franca–,864273,0.htm

[11] http://www.economist.com/blogs/elysee/2012/04/marine-le-pen-0

[12] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-dupla-rejeicao-a-sarkozy-,864715,0.htm

[13] http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,estrategia-de-sarkozy-irrita-seus-partidarios–,865039,0.htm

 

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Thiago Babo - Colaborador Voluntário

Mestrando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (Usp); Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP). Colaborador do Núcleo de Análise da Conjuntura Internacional (NACI) e do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura (Polithicult). Experiência profissional como consultor de negócios internacionais. Atua nas áreas de Política Internacional, Integração Europeia, Negócios Internacionais e Segurança Internacional. No CEIRI NEWSPAPER é o Coordenador do Grupo Europa.

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