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Papa qualifica matança de armênios como Genocídio e Turquia retira representante do Vaticano

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O Papa Francisco irritou a Turquia ao fazer uso da palavra “genocídio” durante uma missa na Basílica de São Pedro, em Roma, para descrever o assassinato sistemático de armênios há exatos 100 anos pelo Império Turco-Otomano. Em resposta, o Governo turco retirou seu representante no Vaticano retaliando à declaração do Papa, feita no domingo retrasado, dia 12 de abril[1]. O embaixador Mehmet Paçaci foi convocado de volta à Ancara para consultas poucas horas depois da capital chamar o anúncio papal à Turquia e lhe entregar uma nota de repúdio.

Esta teria sido a primeira de uma série de medidas de rejeição ao discurso do Papa, segundo a emissora turca NTV[2]. Na Missa que rememorou o massacre armênio, Francisco fez menção à declaração de João Paulo II, em 2001, que afirmou: “No século passado, nossa família humana viveu três tragédias maciças e sem precedentes. A primeira, que é amplamente considerada o primeiro genocídio do século 20, atingiu o seu próprio povo armênio[3], referindo-se ao líder da igreja armênia Karekin II.

Apesar do Papa Francisco não ter usado suas próprias palavras para descrever as mortes como genocídio, foi a primeira vez que o termo foi falado em voz alta em conexão com a Armênia e por um chefe da Igreja Católica Romana na Basílica de São Pedro. “Foi um ato muito corajoso [o Papa] ter repetido claramente que era um genocídio[4], disse o vaticanista Marco Tosatti, à Agência AFP[4]. “Citando João Paulo II, ele fortaleceu a posição da Igreja, deixando claro onde ela se posiciona sobre a questão[4], ao descrever o “imenso e sem sentido abate[4] e o dever de se honrar sua memória, declarou Tosatti.

O Papa estava sob pressão para fazer uso do termo “genocídio” publicamente para descrever a matança, apesar do risco de alienar a Turquia como importante aliada na luta contra o islamismo radical, que vem perseguindo cristãos na África e no Oriente Médio – especialmente na Síria e no Iraque[4].

Antes de se tornar Papa, Jorge Bergoglio usou a palavra várias vezes em eventos que marcaram os assassinatos em massa, chamando a Turquia a reconhecer os assassínios como tal. Como Papa, Francisco parece ter usado o termo somente uma vez durante uma audiência privada em 2013 – mas que provocou uma reação indignada da Turquia.

Quando Francisco visitou este país, o presidente Recep Tayyip Erdogan ofereceu ao Pontífice um pacto segundo o qual ele defenderia os cristãos no Oriente Médio em troca do combate da Igreja Católica à islamofobia no Ocidente[4].

Em 2014, Erdogan, então Premier, ofereceu condolências aos assassinatos em massa, pela primeira vez, mas o país ainda culpa as agitações e a fome pela maioria das mortes. Para Marco Politi, vaticanista, o objetivo do discurso papal foi estimular a comunidade internacional a intervir em atuais perseguições à cristãos e outros povos[4].

Ainda no domingo, dia 12, o Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, qualificou o uso da palavra “genocídio” pelo Papa de “inaceitável” e “fora de contato tanto com os fatos históricos como com a base jurídica. Escritórios religiosos não são lugares por onde ódio e animosidade devem ser alimentados por alegações infundadas[3]. O primeiroministro turco Ahmet Davutoglu também atacou o Papa qualificando seus comentários de “inadequados[4] e “unilaterais[4], dizendo que “ler essas tristezas de uma maneira unilateral não é apropriado para o Papa nem para a autoridade que ele possui[4].

Já o ministro armênio das relações exteriores Edward Nalbandian repreendeu a Turquia. Declarou à agência italiana de notícias News Agency Adnkronos: “Estamos em uma situação em que a Turquia fala uma língua diferente do resto da comunidade internacional e parece que ela não entende que está falando uma língua diferente. (…). Durante estes últimos dias, várias organizações internacionais adotam resoluções ou emitiram declarações que reconhecem o genocídio armênio e que apelam à Turquia para que dê esse passo. (…). As declarações do Papa são, neste contexto, de valor universal. Quando a Turquia for capaz de entender isso, ela será capaz de entender o que a comunidade internacional e seus grandes líderes estão dizendo[3].

Na quarta-feira, 14 de abril, a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, reuniu-se com representantes da comunidade armênia de Buenos Aires e expressou sua solidariedade pelo Genocídio de seu povo[5]. Francisco, que tem laços estreitos com esta comunidade de seus dias na Argentina, defendeu o seu pronunciamento dizendo que era seu dever honrar a memória dos inocentes, homens, mulheres, crianças, padres e bispos que foram “sem sentido[6] assassinados por turcos-otomanos. “Ocultar ou negar o mal é como permitir que uma ferida continue sangrando sem enfaixa-la[6].

Francisco também homenageou a comunidade armênia no início da Missa, pronunciando um místico armênio do século X, São Gregório de Narek, e diversos hinos e músicas tradicionais armênias foram utilizados durante a missa, que também seguiu o rito armênio[6]. Em um discurso em Ancara, Erdogan rebateu as demonstrações de solidariedade afirmando que “é preciso deixar a História aos historiadores. Se os políticos ou os religiosos se fazem de historiadores, não vamos chegar a falar da realidade, só serão delírios[4].

De acordo com grupos armênios e estudiosos, os turcos planejaram e executaram o genocídio entre os anos de 1915 e 1917, quando estimados um milhão e meio foram massacrados nos últimos anos do então decadente Império Otomano. Os armênios há muito lutam pelo reconhecimento internacional dos massacres como genocídio[3][4]. A Turquia nega oficialmente que um genocídio tenha ocorrido, alegando que centenas de milhares de cristãos dessa etnia e muçulmanos turcos morreram na violência intercomunitária em torno dos campos de batalha sangrentos da Primeira Guerra Mundial.

O país argumenta que 300.000 a 500.000 armênios e outros tantos turcos morreram na guerra civil quando os armênios se levantaram contra seus governantes otomanos se aliando às tropas russas invasoras[4]. O Governo da Armênia e grupos da diáspora influentes exortaram os países ao redor do mundo a classificarem formalmente os eventos de 1915 como genocídio. A Turquia tem respondido com pressão contra tais movimentos.

Vinte e quatro nações, incluindo França, Rússia, Alemanha, Líbano, Uruguai, Argentina, Canadá e Suécia reconhecem as mortes como fruto de um projeto genocida arquitetado pelo Império TurcoOtomano[7]. Entre eles também estão incluídos 44 Estados nos Estados Unidos, dois da Austrália, três no Brasil (São Paulo, Ceará e Paraná), quatro regiões e três cidades na Espanha, dois na Síria, cinco províncias da Bulgária, uma na Colômbia, um parlamento regional na Holanda, um parlamento regional na Itália e um no Irã, além da cidade-Estado do Vaticano[4][8].

No Brasil, embora a Assembleia Legislativa de São Paulo tenha aprovado no último 8 de abril de 2015, por unanimidade, o Projeto de Lei que institui o dia 24 de abril como Dia do Reconhecimento e Lembrança às Vítimas do Genocídio do Povo Armênio[9] – o Brasil ainda não reconhece o genocídio. Para a diáspora armênia no país, estimada em 100.000 pessoas[10], esta lacuna representa uma vergonhosa omissão do Estado brasileiro.

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Imagem Crianças visitam o memorial do genocídio armênio em Yerevan em 10 de abril de 2015. O monumento rememora o assassinato em massa de armênios cometido em 1915 pelo Império Otomano durante a PrimeiraGuerra Mundial” (FonteAFP Photo / Karen Minasyan):

http://news.yahoo.com/pope-uses-word-genocide-describe-armenian-killings-071356554.html?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=New%20Campaign

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced82hl5t.5×6/0cecd6aa

Ver também:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced82hkrh.53u/7649f242

[2] Ver:

http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/40103/Papa+classifica+como+genocidio+massacre+de+armenios+em+1915.shtml?utm_source=akna&utm_medium=email&utm_campaign=Boletim_OM_130415

[3] As duas outras tragédias a que o Papa se referiu são o Stalinismo e o Nazismo. Ver:

http://edition.cnn.com/2015/04/12/europe/pope-francis-turkey-armenia-genocide-reference/?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMorning%20Brief&utm_campaign=2014_MorningBrief4.13.2015

[4] Ver:

http://news.yahoo.com/pope-uses-word-genocide-describe-armenian-killings-071356554.html?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=New%20Campaign

Ver também:

http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/04/presidente-turco-critica-declaracoes-do-papa-sobre-genocidio-armenio.html

[5] Ver:

http://estacaoarmenia.com.br/21120

[6] Ver:

http://estacaoarmenia.com.br/21012

[7] Ver:

http://genocidioarmenio.com.br/historia/quem-reconhece/

[8] Ver:

http://www.meforum.org/5181/armenian-genocide-pope

[9] Ver:

http://estacaoarmenia.com.br/20989

[10] Ver:

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/04/comunidade-armenia-faz-seminarios-para-lembrar-100-anos-de-genocidio.html

Ver também:

http://www.portugues.rfi.fr/geral/20140424-descendentes-de-armenios-no-brasil-exigem-reconhecimento-de-genocidio-0

 

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

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