LOADING

Type to search

Partido Secular Nidaa Tounes obtém maioria parlamentar na Tunísia

Share

A Tunísia divulgou nesta quintafeira, 30 de outubro, os resultados oficiais da eleição parlamentar do último domingo no país, com o principal partido secular, o Nidaa Tounes, obtendo 85 lugares e o partido islâmico Ennahda obtendo 69 assentos no parlamento de 217 membros[1]. Sem ter atingido maioria absoluta, o Nidaa Tounes buscará formar uma coalizão com seus parceiros através de negociações que provavelmente durarão semanas antes que um novo Governo seja instituído. O Ennahda pediu um Governo de unidade nacional, que inclua seu movimento[2]. As autoridades eleitorais declararam que o partido UNL, secular, obteve 16 lugares; o movimento Frente Popular, de esquerda, garantiu 15, e o partido liberal Afek Tounes, 8 assentos[2].

A votação parlamentar foi um dos últimos passos na transição do país para a Democracia, após o levante contra Zine el Abidine Ben Ali, em 2011. O Ennahda, que defende uma forma pragmática do islã político, ganhou as primeiras eleições livres da Tunísia em 2011, depois que Ben Ali fugiu em meio aos protestos contra a corrupção e a repressão, exilando-se na Arábia Saudita[2]. O Partido formou um governo de coalizão com dois parceiros seculares, mas teve de se afastar em virtude da crise que irrompeu sobre o assassinato de dois líderes da oposição por militantes islâmicos.

A Tunísia, “um dos países árabes mais seculares, tem sido aclamada como um exemplo regional de compromisso político, depois de superar uma crise entre os movimentos seculares e islamistas e aprovar uma nova constituição neste ano, que permitiu as eleições[2]. A transição da Tunísia para um governo democrático tem sido considerada uma trajetória de sucesso regional. A revolta no país durante a Primavera Árabe foi a “primeira e menos violenta das insurgências contra os governos autocráticos da região; seus secularistas e islamistas conseguiram realizar a transição para a democracia com menos aspereza e derramamento de sangue do que seus vizinhos[3].

Durante a campanha, o Ennahda lançou-se como um partido que aprendeu com o passado, contudo, o Nidaa Tounes parece ter capitalizado sobre as críticas de que o movimento islâmico teria gerido mal a economia e de que teria sido incapaz de conter militantes radicais durante os seus três anos de governo[2]. O Ennahda, primeiro movimento islâmico a assegurar o poder após as revoltas da Primavera Árabe, admitiu a derrota nas eleições de domingo, a segunda eleição livre desde o fim do governo autocrático de Ben Ali, que contou com 5 milhões de eleitores registrados[2][3].

A derrota significa um importante retrocesso aos islamistas moderados do Ennahda, que lideraram uma coalizão de governo com dois parceiros não religiosos por mais de dois anos. O declínio em sua popularidade eleitoral significaria o descontentamento do público com a forma pela qual o partido lidou com a economia e o Nidaa Tounes teria sido eleito sob a esperança de que recoloque a economia nos trilhos[4].

Apoiadores do regime de Ben Ali tiveram sua entrada permitida no Nidaa Tounes e concorreram para diferentes cargos. Mas sua inclusão não foi feita sem controvérsias e o Partido ainda precisará encontrar parceiros de coalizão para ser capaz de governar[3]. O Partido Liberal, com laços com o regime deposto, concorreu com uma plataforma explicitamente anti-islamista e possui agora o direito de nomear o Primeiro-Ministro e de liderar o governo de coalizão; mas não sem grandes desafios[5].

Desde a onda pró-democrática após 2011, a Tunísia vem sofrendo com turbulências econômicas e ataques terroristas[5]. O partido, “que inclui empresários, sindicalistas e políticos do antigo regime, rejeitou a formação de uma coalizão com o islamista Ennahda por ser ‘contra sua natureza’, apesar de seu apelo para um governo de união nacional. De modo que o Nidaa Tounes deverá recorrer à uma coleção de partidos menores para obter a maioria necessária de 109 assentos[5].  

Críticos do Nidaa Tounes temem que o partido possa ressuscitar o modelo político paternalista e autoritário anterior de um homem no poder, juntamente com as práticas securitárias de Ben Ali, condenando partidos islâmicos ao ostracismo político sob a bandeira do combate ao terrorismo[6]. A estrutura política interna do Nidaa Tounes também seria muito mais autoritária que a do Ennahda. De modo que, apesar da inicial simpatia ocidental com o partido secular, Monica Marks, do The Guardian, alerta para que resistamos à tendência simplista de analisar as eleições na Tunísia como uma mera oposição entre a democracia secularista esclarecida e o islamismo retrógrado. Para Marks, a realidade no país é bastante mais complexa e envolve outras variáveis como as expectativas pós-revolução, o baixo índice de votação entre jovens e o saudosismo do velho regime durante a fase de transição[6].

—————————————————————————

Imagem Funcionários da Tunísia apresentam os resultados finais das eleições no país” (Fonte The Guardian / Foto: Mohamed Messara / EPA):

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/30/tunisia-election-results-nida-tunis-wins-most-seats-sidelining-islamists

—————————————————————————

Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://link.foreignpolicy.com/view/525440b6c16bcfa46f6fced81y0ub.gem/e14e4c35

[2] Ver:

http://www.reuters.com/article/2014/10/30/us-tunisia-election-idUSKBN0IJ04N20141030?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14

Ver também:

http://www.worldaffairsjournal.org/content/tunisia%E2%80%99s-secular-nidaa-tounes-sweeps-parliament?utm_source=World+Affairs+Newsletter&utm_campaign=724c28493e-WNN_10_30_2014&utm_medium=email&utm_term=0_f83b38c5c7-724c28493e-294612385

[3] Ver:

http://www.bbc.com/news/world-africa-29828706?utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14

[4] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/27/tunisia-islamist-ennahda-accept-defeat-elections

[5] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/30/tunisia-election-results-nida-tunis-wins-most-seats-sidelining-islamists

Ver também:

http://www.theguardian.com/world/2014/oct/26/tunisia-vote-parliamentary-election-new-constitution

[6] Ver:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/oct/29/tunisian-election-result-secularism-islamism-nidaa-tounes-ennahda?CMP=share_btn_tw&utm_source=Sailthru&utm_medium=email&utm_term=%2AMideast%20Brief&utm_campaign=2014_The%20Middle%20East%20Daily_10.30.14

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!