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Pentágono admite envio de amostras vivas de Antraz

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O Governo dos Estados Unidos da América (EUA) confirmou na última quarta-feira, 3 de junho, que enviou amostras de antraz vivo para Austrália, Canadá, Coreia do Sul e para cerca de 51 laboratórios dentro de 17 estados norte-americanos: Califórnia, Delaware, Maryland, Massachusetts, Nova Jersey, Nova York, Tennessee, Texas, Utah, Virgínia, Washington, Wisconsin, Arizona, Flórida, Illinois, Ohio, Carolina do Norte e ainda para capital do país. Na ocasião, o Departamento de Defesa dos EUA declarou que não há indícios de que o envio das amostras ocorreu de forma deliberada[1]. O Pentágono ainda afirmou que não havia suspeitas de infecção nem risco para a população, mas que algumas precisaram atender as medidas preventivas, que incluíam a combinação de vacina antiantraz e antibióticos, nos Estados Unidos e na Base Aérea de Osan, na Coreia do Sul[2].

De acordo com comunicado do Pentágono, as únicas amostras de antraz vivo confirmadas eram procedentes de Dugway Proving Ground, uma base militar do Exército norte-americano, localizada em Utah. Ao longo da semana passada, o Pentágono ressaltou que as amostras de antraz haviam sido enviadas a laboratórios de 12 Estados norte-americanos, assim como naqueles três países ainda em 2006[3]. No ano passado (2014), o Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC, sigla em inglês) manuseou mal amostras de antraz num caso semelhante[4]. Logo, esses incidentes levantam diversas preocupações sobre como o Governo norte-americano gerencia a bactéria e outros agentes patogênicos perigosos.

O antraz é causado pela bactéria tóxica Bacillus Anthracis que pode ser encontrada em animais de criação como rebanho bovino, ovelhas, cabras e também na criação de porcos. Nos seres humanos o contágio pode ocorrer de várias maneiras: via aérea (inalação de esporos no ar), via intestinal (consumo de carne contaminada), via cutânea (contato da bactéria com cortes ou arranhões)[5]. Essa bactéria provoca uma doença infecciosa grave e está listada entre os serviços de inteligência como uma provável arma biológica, em posse de alguns grupos terroristas.

Em 1979, a liberação acidental de esporos da bactéria em um laboratório de pesquisas militares da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) provocou a morte de 68 pessoas[6]. Posteriormente, em 1995, essa bactéria foi usada pelo grupo japonês Aum Shinri Kyo, que provocou a morte de 12 pessoas em um atentado usando gás Sarin, no metro de Tóquio, que fracassou em pelo menos seis tentativas de infectar o sistema com antraz[7]. Na ocasião não se achou nenhum registro de doença em decorrência dos ataques. Em 2001, logo após os Atentados de 11 de Setembro, cinco pessoas morreram depois do contato com a bactéria que foi enviada pelo correio para órgãos governamentais e também para a imprensa[8].

Naquela ocasião, um grande debate girou em torno do Antraz e das medidas para pesquisa de vacinas e também de segurança, sobretudo porque que os serviços de inteligência pontuavam que o cultivo de grandes quantidades de esporos de antraz, por mais complexo que fosse, poderia ser desenvolvido por diversos países e também por grupos terroristas. Segundo declarou Kenneth Alibek, cientista de armas biológicas da antiga União Soviética, logo após a crise do antraz em 2001, “algumas pessoas dizem que é difícil produzir o antraz. Na minha opinião, se você tiver conhecimento básico de microbiologia e biotecnologia, não é difícil[9]. No entanto, alguns especialistas acreditam que a produção em larga escala está aquém das capacidades de indivíduos e pequenos grupos, pois seria necessário o acesso a laboratórios de biotecnologia relativamente sofisticados, além de uma fonte original da bactéria para dar início ao cultivo[10].

Em vista dos recentes acontecimentos, Ash Carter, Secretário de Defesa dos Estados Unidos, afirmou que está acompanhando de perto os eventos relacionados à descoberta do envio de amostras acidental de antraz vivo[11]. De acordo com algumas autoridades, parece que os erros no envio das amostras iniciaram entre 2005 e 2006, mas o Pentágono apenas tomou conhecimento de tais eventos em 22 de maio de 2015, quando um laboratório comercial de Maryland, nos Estados Unidos, alertou que recebeu amostras vivas de antraz[12].

Conforme relatou Franca Jones, Comandante da Marinha e Diretor de Programas Médicos do Pentágono para a Defesa Química e Biológica, 19 dos 51 laboratórios que receberam supostamente antraz vivo apresentaram suas amostras ao Centro de Controle e Prevenção de Doenças para que fossem realizados testes. Até então, das nove amostras totalmente testadas, todas provaram conter antraz vivo[13].

Em decorrência disso, o Governo dos Estados Unidos ordenou uma ampla revisão das práticas destinadas a tornar a bactéria inativa. Segundo Jason McDonald, do Centro de Controle de Doenças e Prevenção, uma investigação por parte do CDC já está sendo realizada. Além disso, McDonald assinalou que os pacientes já estavam sendo observados e que corriam riscos mínimos[14].

De acordo com Ash Carter, o Governo está trabalhando para que esse erro não ocorra mais e destacou que “esse foi, obviamente, um incidente infeliz[15]. De qualquer forma, conforme ressaltou coronel Steve Warren, PortaVoz do Pentágono, o Departamento de Defesa dos EUA parou de enviar esse material a partir dos laboratórios até que a investigação seja concluída[16].

Warren afirmou ainda que o Pentágono está proibido de divulgar os nomes dos laboratórios que receberam as amostras, mas ressalvou que o Governo norteamericano irá adotar medidas para punir os responsáveis, assim que o CDC concluir suas investigações[17]. Por fim, como mencionado anteriormente, esses incidentes levantam diversas questões na sociedade acerca das  práticas, particularmente em termos de segurança, adotadas pelo Governo norteamericano e outros governos na manipulação e gerência dessa bactéria, assim como de outros agentes patogênicos perigosos.

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Imagem (Fonte):

http://www.dailymail.co.uk/news/article-3109608/Officials-Dozens-labs-received-potentially-live-anthrax.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0OJ2KF20150603

[2] Ver:

http://www.theguardian.com/world/2015/may/29/pentagon-anthrax-australia-2008

[3] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0OJ2KF20150603

[4] Ver:

Idem.

[5] Ver:

http://www.fiocruz.br/bibmang/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=85&sid=106

[6] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2001/011015_antrazfrio.shtml

[7] Ver:

Idem.

[8] Ver:

http://www.dw.de/pentagon-admits-dozens-more-labs-sent-potentially-live-anthrax/a-18495536

[9] Ver:

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2001/011015_antrazfrio.shtml

[10] Ver:

Idem.

[11] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0OG0R020150531

[12] Ver:

http://www.theguardian.com/us-news/2015/jun/03/pentagon-live-anthrax-us-laboratories

[13] Ver:

Idem.

[14] Ver:

http://www.dw.de/militares-dos-eua-enviam-por-engano-amostras-vivas-de-antraz/a-18480462

[15] Ver:

http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRKBN0OG0R020150531  

[16] Ver:

http://noticias.terra.com.br/militares-dos-eua-enviam-por-engano-amostras-vivas-de-antraz,23d4adec0151e4d53442fad4d481926cl0okRCRD.html

[17] Ver:

http://www.theguardian.com/us-news/2015/jun/03/pentagon-live-anthrax-us-laboratories

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Jessika Tessaro - Colaboradora Voluntária Júnior

Pós-graduanda do curso de Especialização em Estratégia e Relações Internacionais Contemporâneas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É Graduanda do Curso de Políticas Públicas da UFRGS e bacharel em Relações Internacionais pela Faculdade América Latina Educacional. No presente, desenvolve estudos sobre a geopolítica e a securitização dos Estreitos internacionais e Oceanos.

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