LOADING

Type to search

[:pt]Pentágono anuncia transferência de 15 prisioneiros de Guantánamo aos Emirados Árabes Unidos[:]

Share

[:pt]

O Departamento de Defesa norte-americano anunciou nesta última segunda-feira, 15 de agosto, a transferência de quinze prisioneiros da Baía de Guantánamo, em Cuba, aos Emirados Árabes Unidos. Três presos afegãos e doze iemenitas foram movidos nesta que foi a maior transferência individual durante a presidência de Barack Obama. A decisão reduziu a população prisional de Guantánamo para 61. Obama prometeu fechar a prisão quando assumiu a Presidência, em 2009. À época, havia 242 detentos na prisão na ilha.

Os prisioneiros realocados nesta semana estavam detidos há 14 anos sem acusação formal na prisão localizada na Base Naval norte-americana no sudeste de Cuba. Os 15 presos foram liberados pelo Conselho de Revisão Periódica, composto por representantes de seis agências governamentais dos Estados Unidos. Até hoje, apenas 10 dos detidos em Guantánamo enfrentaram julgamento criminal, incluindo “os cinco do 11 de Setembro”, liderados por Khalid Sheikh Mohammed, acusados de tramar os ataques de “11 de Setembro de 2001”.

Os Estados Unidos são gratos ao governo dos Emirados Árabes Unidos por seu gesto humanitário e disponibilidade em apoiar os esforços em curso dos Estados Unidos para fechar Guantánamo”, disse o Pentágono em comunicado, conforme reportou a Al Jazeera. A Anistia Internacional saudou o anúncio como um sinal de que Barack Obama parece falar sério sobre fechar a controversa prisão antes de deixar o cargo. Os Emirados Árabes Unidos classificaram a ação como “um gesto de boa vontade dos EUA”, sinalizando a continuidade nas relações entre os EUA e os Emirados Árabes Unidos. O país é um importante aliado militar dos EUA no Oriente Médio, sendo base para ataques militares americanos às posições do Estado Islâmico no Iraque e na Síria.

Dos 61 prisioneiros restantes, 28 são iemenitas, 6 paquistaneses e sauditas e 5 afegãos. Destes restantes, 20 já tiveram a transferência aprovada e podem ser enviados a outro país, 10 já passaram por processos em tribunais militares (sendo que somente 3 deles foram condenados) e 31 são os chamados prisioneiros “para sempre”. Estes os EUA consideram intransferíveis – o “mínimo irredutível” composto por aqueles que julgam incapazes de processar, mas muito perigosos para liberar.

Obama liberou 10 detidos iemenitas para o Omã em janeiro de 2016 e mais nove iemenitas para a Arábia Saudita em Abril. Em dezembro de 2009, 12 detentos foram transferidos para três países. A gestão de Obama realocou 161 prisioneiros no total, recebidos por países como EAU, Georgia, Senegal, Arábia Saudita, Eslováquia, Marrocos, Reino Unido, Mauritânia, Omã, Bósnia, Montenegro, Argélia, Cazaquistão, Uruguai, Estônia e El Salvador. Das solturas sob o presidente Obama, apenas 5% se reengajaram em atividade militantes de forma confirmada, e 8% são suspeitos de tê-lo feito. Muitos daqueles liberados simplesmente retornaram aos seus países de origem na tentativa de retomar suas vidas.

Contudo, ainda pairam dúvidas e críticas quanto à reintegração destes presos, libertados após mais de uma década sem terem enfrentado julgamento e tendo sobrevivido a torturas e privações. Um dos detidos mais fortemente torturados em Guantánamo, o mauritano Mohamedou Slahi, foi recentemente liberado para transferência pelo conselho norte-americano. Slahi, considerado não mais uma “ameaça significativa contínua” para a segurança dos Estados Unidos, relatou em biografia ter tido seu corpo contorcido por militares norte-americanos. Além de ter sido bombardeado com ruído; privado de sono; tido sua vida ameaçada e sua mãe ameaçada com estupro, conforme o The Guardian.

Na próxima semana será a vez de Abu Zubaydah, outro sobrevivente e cobaia do waterboarding – as famigeradas simulações de afogamento, método de tortura proibido pelo Governo norte-americano em 2007. Os EUA já não mais acreditam que Abu Zubaydah fosse um membro da al-Qaeda.

Obama acredita que as instalações fomentam o radicalismo e o recrutamento de jihadistas, informa a BBC. Para o Presidente, a prisão serve apenas para alimentar o ressentimento anti-EUA. Já Lee Wolosky, enviado do Departamento de Estado dos EUA, declarou em comunicado que “A operação continuada do centro de detenção enfraquece nossa segurança nacional drenando recursos, prejudicando nossas relações com aliados e parceiros-chave, e fortalecendo extremistas violentos”.

A prisão de Guantánamo foi aberta em 11 Janeiro de 2002, pelo então presidente George W. Bush, para abrigar radicais suspeitos de ligação com a milícia afegã Talebã e com a organização terrorista Al Qaeda, conforme a Folha de São Paulo. A prisão já abrigou 779 detentos, ao todo, desde que foi inaugurada, logo após a invasão norte-americana do Afeganistão, no final de 2001, na esteira do ataque em 11 de Setembro. Durante a gestão George W. Bush (2001-2009) foram transferidos 532 prisioneiros, a maioria com destino ao Afeganistão e à Arábia Saudita. Nove morreram na prisão.

O presidente Obama tenta fechar a prisão na ilha cubana desde que assumiu a Casa Branca, em janeiro de 2009. O Congresso norte-americano, de maioria republicana, faz forte oposição, proibindo a transferência de presos para os EUA. Em fevereiro de 2016, o Presidente apresentou ao Congresso um novo plano de fechamento de Guantánamo. Obama tem trabalhado com outros seis países para realocar detentos liberados para transferência e repatriar cerca de vinte detidos. Já Donald Trump, candidato presidencial republicano, prometeu em discurso em fevereiro manter Guantánamo aberta como um centro de detenção e comprometeu-se a preenchê-la “com alguns caras maus”.

Originalmente, a prisão foi criada para deter indivíduos extremamente perigosos, para interrogatório dos detidos e processamento por crimes de guerra e terrorismo. Na prática, o local tem sido frequentemente utilizado para a detenção indefinida sem julgamento, em violação da Lei Internacional. A Human Rights Watch classifica as práticas de detenção em Guantánamo como “injustificadas e arbitrárias”. A prisão custa mais de US$ 3 milhões por prisioneiro por ano aos cofres norte-americanos e carrega a mácula das famigeradas simulações de afogamento e outras formas de tortura praticadas com os presos.

———————————————————————————————–                    

Imagem (Fonte):

https://en.wikipedia.org/wiki/Guantanamo_Bay_detention_camp

[:]

Natalia Nahas Carneiro Maia Calfat - Colaboradora Voluntária

Doutoranda e mestre pelo programa de Ciência Política da USP e diretora de Relações Internacionais do Icarabe, Instituto da Cultura Árabe. Possui bacharelado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo e pós-graduação em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). É integrante do Grupo de Trabalho sobre Oriente Médio e Mundo Muçulmano na Universidade de São Paulo (GT OMMM).

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

×
Olá!