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Percepção e realidade: chineses mais nacionalistas e menos beligerantes

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Na medida em que as disputas territoriais e marítimas se acirram na região da Ásia-Pacífico, paralelamente cresce uma percepção de que Governos e pessoas estão alinhados quanto à defesa das demandas de seus países. Mas nem sempre isso é verdade. O fato é que muitas vezes essas percepções estão em oposição entre si ou não se alinham totalmente. Uma recente pesquisa sobre as percepções do povo chinês quanto as disputas de territórios no Mar do Sul da China e das Ilhas Diaoyutai-Senkaku acabou por revelar aspectos que reforçam esta afirmação.

Sinólogos e pesquisadores de diversas áreas apontam que, desde final da década de 90, o nacionalismo substituiu o comunismo-marxismo como ideologia dominante na China. Na medida em que o enriquecimento de parcelas da população e regiões foram sendo consolidados pelas reformas iniciadas nos anos 70, houve um “relaxamento” doutrinário-ideológico por parte dos aparelhos do PC Chinês. Houve, segundo alguns estudiosos, uma espécie de “acordo tácito” entre o Governo e população em que o primeiro promoveria o crescimento econômico permitindo o enriquecimento da segunda e a mesma, por sua vez, não demandaria mudanças políticas no país[1]. Esse acordo só foi quebrado em dois contextos. O primeiro nas manifestações estudantis que levaram ao desfecho do que acabou por ficar conhecido como “Massacre da Paz Celestial”, em referência à Praça Tiananmen, em Beijing, em 1989.  Também conhecido na China como “Incidente do Dia 4 de Junho”, levou milhares de estudantes, professores e profissionais liberais às ruas demandando maiores liberdades civis. Tomados pela emoção da morte do moderado Ex-Secretário Geral do Partido Comunista (1982-1987), Hu Yaobang, as manifestações acabaram por incorporar demandas democráticas mais abrangentes, que levaram a ser brutalmente suprimidas pelas Forças Armadas levando à morte de 300 a 400 pessoas[2].

O segundo contexto, na verdade são “contextos”, uma vez que estes vêm se reproduzindo em diferentes situações. Refiro-me às manifestações e protestos por parte de setores mais nacionalistas chineses em relação às disputas marítimas que a China mantém com vários de seus países vizinhos. As disputas com os japoneses sobre o controle das Ilhas Senkaku (Japão) e Diaoyutai (China), assim como as disputas com Vietnã, Taiwan, Malásia e Filipinas sobre as Ilhas Paracel e Spratly, tem-se revelado como catalisadoras de explosivas manifestações nacionalistas que em vários momentos resultaram em depredações e ataques a empresas e embaixadas dos países rivais, principalmente  japonesas[3].

Os episódios de nacionalismo chinês acabaram por acompanhar a dinâmica econômica e também o consequente ganho em capacidade técnico-militar que as forças militares chinesas adquiriram nos últimos 20 anos, tornando-se uma das maiores máquinas de guerra no continente. Esse ganho de capacidade naturalmente levou a uma maior confiança dos setores mais nacionalistas de que o país poderia e deveria ser mais agressivo ao tratar as questões relativas à soberania dos territórios disputados[4].

Com este histórico, não só a mídia ocidental, mas também de vários países asiáticos, passaram a ver o nacionalismo chinês como a maior ameaça à região. A dimensão da China e o receio de um país com mais de 1 bilhão de habitantes explodir em fúria nacionalista levou alguns especialistas a ver o PC Chinês como o mais adequado meio para conter essa onda, dado que em um contexto democrático, mas com um governo fraco, o cenário de um caos social e político poderia se consolidar na China e afetar toda a região tão dependente da saúde e da estabilidade da economia chinesa[5].

No entanto, um estudo conduzido pela Perth USAsia Centre e pela University of Western Australia delineou linhas menos dramáticas com relação ao temido nacionalismo chinês. A pesquisa envolveu entrevistas com mais de 1.400 pessoas nas cidades chinesas de Beijing, Shanghai, Guangzhou, Chengdu e Changsha. Embora confirmando que os setores que mais enriqueceram nas últimas décadas estão, sim, mais nacionalistas em suas posições, o estudo apontou que a atual geração é menos beligerante em sua disposição de resolver as complexas disputas com os países do sudeste asiático e com o Japão[6].

A geração pós-1990, identifica as disputas em que a China está engajada como uma questão de “dignidade e respeito à soberania[7], mas, ao mesmo tempo, se mostraram propensos a uma solução consorciada com os outros países para resolver as disputas[7]. É importante notar que esta geração é a que compõe a maior parte dos usuários de redes sociais chinesas, como o “Sina weibo” e o “Renren”, que é utilizado por quase 30% dos 540 milhões de usuários de internet na China[8]. Dentro do weibo e Renren, assim como em outras plataformas e em outros países, as pessoas tendem a se sentir mais seguras em manifestar opiniões mais ácidas no que concerne questões nacionalistas. Mas a pesquisa demonstrou que embora mais intensa nestas demonstrações, as redes sociais não representam o que a maioria da população pensa a respeito das disputas marítimas e territoriais, embora reconheça seu poder de captar a atenção e até mesmo influenciar outros setores da sociedade.

Este estudo aponta para uma direção oposta, indicada por um outro levantamento anterior feito pela Pew Researcher Center sobre como os países asiáticos veem seus vizinhos. Para 74% dos vietnamitas, a China é a maior ameaça para a sua segurança. Logo em seguida, aparecem os japoneses, com 68%, e filipinos, com 58%, demonstrando que para estes países, existe uma clara conexão entre demonstrações nacionalistas e disposição dos chineses de deflagrar um embate militar que a pesquisa conduzida pela Perth USAsia Centre e pela University of Western Australia não confirmou[9]. De fato, mais de 50% dos entrevistados chineses se mostraram amplamente favoráveis a soluções que incluíssem arbitragem internacional conduzida pelas Nações Unidas e Acordos Bilaterais do que uma eventual intervenção militar.

Muito embora humores nacionalistas estejam sempre ao sabor do momento, esta pesquisa  trabalha com a última fronteira de estudos que as disputas marítimas ainda possuem, que é o papel que as populações dos países demandantes podem desempenhar. Desde os anos 70, mais de 12 mil títulos, entre artigos e livros, foram publicados somente sobre as disputas no Mar do Sul da China. Em sua maioria, estes artigos e livros discorrem sobre cenários estratégico-militares; impacto econômico e impacto de suprimento energético de um possível conflito na região; e estratégias que os países estão ou poderiam adotar para defender suas demandas do ponto de vista do direito internacional[10]. Uma parcela menor destes títulos, embora significante, trata das questões ambientais de exploração dos recursos naturais. Desta forma, o papel que as sociedades civis podem desempenhar, sejam como elementos inflamáveis, ou como contendores dos ímpetos militares de suas elites políticas, ainda não foi devidamente explorado por especialistas, sejam em relações internacionais, em ciência política, em geografia política e em outras áreas correlatas.

Ao que parece, depois de um século XX de revoluções, guerras, fome e caos social, os chineses estão, sim, mais assertivos. Mas, como a maioria dos outros seres humanos, também querem viver em paz.

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Imagem (Fontepeacesymbol.org):

http://peacesymbol.org/tag/cnd-logo/

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Fontes Consultadas:

[1] Ver Chinese Nationalism and Its Future Prospects: An Interview with Yingjie Guo”:

http://www.nbr.org/research/activity.aspx?id=258

[2] Ver Albert Chang, “Revisiting the Tiananmen Square Incident: A Distorted Image from Both Sides of the Lens”:

http://web.stanford.edu/group/sjeaa/journal51/china1.pdf

[3] VerAnti-Japan Protests Mount in China”:

http://www.wsj.com/articles/SB10000872396390443720204578000092842756154

[4] VerChinas Maritime Disputes”, Council on Foreign Relations:

http://www.cfr.org/asia-and-pacific/chinas-maritime-disputes/p31345#!/?cid=otr-marketing_use-china_sea_InfoGuide

[5] Ver Michael Schoenhals, “Political Movements, Change and Stability: The Chinese Communist Party in Power”. The China Quarterly. Special Issue: The Peoples Republic of China after 50 Years. No. 159, (Sep., 1999), pp. 595605.

[6] Ver Andrew Chubb, “Exploring ChinasMaritime ConsciousnessPublic Opinion on the South and East China Sea Disputes. Perth USasia Centrepp. 1011.

[7] Idem.

[8] Ver 10 Chinese Social Media Sites You Should Be Following”, Synthesio website: http://synthesio.com/corporate/en/2013/uncategorized/10-chinese-social-media-sites-you-should-be-following/#

[9] VerHow Asians View Each Other”. Pew Research Center:

http://www.pewglobal.org/2014/07/14/chapter-4-how-asians-view-each-other/

[10] VerHans-Dieter Evers, Governing Maritime Space: The South China Sea as Mediterranean Cultural Area”. Working Paper 129. May (2014). Center for Development Research. University of Bonn. p. 1.

Moisés Lopes de Souza - Colaborador Voluntário Sênior

Graduado em Relações Internacionais pelas Faculdades Integradas Rio Branco. Doutorando em Estudos de Ásia-Pácifico no Doctoral Program in Asia-Pacific Studies (IDAS) da National Chengchi University (Taiwan). Pesquisador Associado do Center for Latin America Trade and Economy, Chihlee Institute of Technology.

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