LOADING

Type to search

Share

Na China, tal como na maioria de outros países do mundo, a morte do histórico líder sul-africano Nelson Mandela motivou consternação e manifestações do Governo e da população em geral. De uma forma geral, os chineses destacam principalmente o papel que ele teve no estabelecimento das relações diplomáticas entre a China e a “África do Sul”, em 1998, e as duas visitas que ele faz ao seu país em 1992 e 1999[1].

Tanto a imprensa como a mass media chinesas (com o destaque para o twitter chinês, o weibo) têm destacado desde 6 de dezembro os principais desenvolvimentos ligados ao desaparecimento físico de Mandela, principalmente o que vai acontecendo na “África do Sul” e no mundo em geral[1].

Na China, em particular, aponta-se para o fato de Mandela ter duas obras chinesas como as suas leituras favoritas. A primeira é um dos principais livros sobre a guerra, “The Art of War” (“A arte da Guerra”) de Sun Tzu[2], e a outra é “The Selected Works of Mao Zedong” (“A Seleção das Obras de Mao Zedong”). Os chineses dizem que Mandela chegou a afirmar que, ainda na cadeia, veio da China a “inspiração espiritual[3].

Estas constatações são confirmadas pelo próprio Mandela que, em 2004, disse ao então “Vice-Presidente da China”, Zeng Qinghong, que líderes chineses como Mao Zedong, Zhou Enlai e Zhu De, assim como também o povo chinês, deram um grande apoio aos sul-africanos na sua luta pela independência e contra o Apartheid. Nesse encontro, Mandela acrescentou que o seu povo nunca irá se esquecer que a vitória da “Revolução Chinesa”, que culminou com o estabelecimento da “República Popular da China”, em 1949, teve um importante impacto na luta dos sul-africanos[4].

Outro papel de apreço dos chineses pelo nacionalista africano é salientado na imprensa ao destacar uma canção dedicada a ele em 1991 pela banda de rock de “Hong Kong”, Beyond, com o título de “Glorious Years (“Anos Gloriosos”). Um repórter de uma TV local afirmou que, na altura, Mandelatirou lágrimas ao ouvir a música[5].

Durante dias muitos chineses se deslocaram à “Embaixada da África do Sul”, em Pequim, para assinarem o livro de condolências e prestarem a última homenagem a Mandela. Ao nível oficial, o “Presidente da China”, Xi Jinping, e outras figuras importantes do Governo expressaram os seus pesares ao povo e Governo sul-africanos pelo falecimento do “reconhecido Chefe de Estado mundial[6] que “liderou os sul-africanos na sua luta que culminou com a vitória contra o Apartheid[6]. O presidente Xi ainda apontou na sua carta ao seu homólogo da “África do Sul”, Jacob Zuma, que “os chineses sempre se lembrarão das contribuições extraordinárias de Mandela para o desenvolvimento das relações China-África do Sul e a causa do progresso humano[6].

Na ceremônia de homenagem a Nelson Mandela, realizada na terça-feira passada (dia 10 de dezembro), em Joanesburgo, na qual participaram mais de 90 “Chefes de Estado” e “Chefes de Governo”, o “Vice-Presidente da China”, Li Yuanchao, tomou parte como representante do “Presidente” chinês e foi um dos poucos dignatários mundiais que subiram ao pódio para falar de Mandela. Dentre o que ele disse inclui-se a menção de que Mandela é orgulho dos africanos[7].

No entanto, para parte dos internautas e ativistas chineses pró-democracia e pelos direitos humanos, o nacionalista da “África do Sul” é motivo de inspiração para se apelar às mudanças políticas substanciais no seu país[8]. Alguns sugerem que a China devia também ter o seu Nelson Mandela. Mas, há que se vê como um exemplo de Mandela[9] o preso político pró-reforma política, Liu Xiaobo, condenado a 11 anos de cadeia por “incitação à subverção do poder estatal[9], que também venceu o “Prémio Nobel da Paz”, em 2010.

Por outro lado, a mídia internacional e de “Hong Kong” apontam a preocupação das autoridades chinesas em evitar que se publiquem notícias que ilustram Mandela como antigo presioneiro político por defender a liberdade, a democracia, os direitos humanos e um homem que oficialmente se casou três vezes. Ainda se acrescenta que o Governo da China não quer que se fale na imprensa nacional das relações diplomáticas entre a “África do Sul” e Taiwan (terminadas em 1998), nem da ligação entre ele e o líder espiritual tibetano exilado na Índia, o “Dalai Lama”, com quem tinha uma relação de amizade[10].

———————–

Imagem (Fonte):

www.scmp.com/news/china/article/1377508/beijing-bans-sensitive-topics-during-mandela-funeral-coverage

———————–

[1] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2013mandela/

[2] Ver:

http://sinosphere.blogs.nytimes.com/2013/12/06/in-china-mandela-is-clai

[3] Ver:

http://thediplomat.com/2013/12/asia-mourns-nelson-mandela/

[4] Ver:

http://www.fmprc.gov.cn/ce/ceza/eng/zghfz/zngx/t165295.htm

[5] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/world/2013mandela/2013-12/06/content_17157108.htm

[6] Ver:

http://www.theafricadaily.com/12/post/2013/12/mandelas-death-reminds-chinese-of-their-own-pro-democracy-struggle.html#sthash.aesdte8Q.dpuf

[7] Ver:

http://www.chinadaily.com.cn/china/2013-12/11/content_17165850.htm

[8] Ver:

http://in.reuters.com/article/2013/12/06/us-mandela-china-idINBRE9B505020131206

[9] Ver:

http://blogs.wsj.com/chinarealtime/2013/12/06/online-china-looks-for-its-mandela/

[10] Ver:

http://www.scmp.com/news/china/article/1377508/beijing-bans-sensitive-topics-during-mandela-funeral-coverage

Jorge Nijal (Moçambique) - Colaborador Voluntário

De Nacionalidade Moçambicana, é mestrando em História do Mundo no Instituto de Estudos Africanos da Universidade Normal de Zhejiang, na China. Graduado em História pela Universidade Eduardo Mondlane em Maputo (2007). Possui experiência na docência de disciplinas de História Geral e da África Austral. Interesses: História de Moçambique, relações China-Moçambique, política externa chinesa no nordeste e sudeste da Ásia, relações China-África, cultura cibernética popular na China. Fala Português, Inglês, Francês e conhecimento razoável de chinês.

  • 1

Deixe uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.