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Pobreza e guerras aparecem como estopim à imigração africana à Europa

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Em certa ocasião, em entrevista especial, o filósofo Michel Foucault afirmou ser a história um processo não linear e tampouco progressivo: segundo ele, o que vemos são repetições e fatos repaginados, trajados com uma nova vestimenta, mas que, ainda assim, por debaixo delas, apresentam a mesma estrutura[1].

Da mesma maneira são os romances, surpreendentemente análogos à vida real, donde estórias contadas no século XIX, como o livro “Benito Cereno”, de Melville, repetem-se hoje, em pleno século XXI, em fatos como a invasão de imigrantes africanos a uma embarcação pesqueira italiana na semana passada[2].

Nesta obra, o autor traz à luz a nossa incapacidade de identificar tais estruturas travestidas, ao contar a estória de como o capitão Amassa Delano acreditou, por tanto tempo, que o capitão da nau espanhola Benito Cereno controlava inúmeros escravos, quando eram estes que escondiam uma verdadeira revolução escravista, subjugando o capitão espanhol. O romance destacado expõe, assim, a fixação humana às aparências: é uma verdadeira ode às complexidades humanas, compreendidas tão superficialmente pelo próprio ser humano.

Muitos poderiam sugerir que há uma grande diferença entre o livro mencionado e a invasão mencionada: ao passo que aquele conta a estória de escravos contra o seu senhor, o segundo é um fato relacionado a homens livres e a invasão de fronteiras e desrespeito à propriedade privada. No entanto, a palavra “livre” é justamente a complexidade mais profunda – e com consequências mais severas levantando as questões de se seriam estes homens livres e se poderíamos tratá-los como tal.

À medida que avançamos nas análises sociais e políticas das nações africanas, mais acredita-se que sua população não é de fato livre. As respostas a tais questionamentos passam pela definição de liberdade e justamente por sua complexidade é incabível debatê-la por completo neste momento. Entretanto, pode-se identificar uma verdade onipresente em todas as definições existentes: a liberdade passa por um indivíduo ser livre de qualquer restrição, interna ou externa, que impeça o cumprimento de sua vontade.

Se levarmos em consideração a atual conjuntura africana identificar-se-ão inúmeras coerções externas, que subjugam a consciência individual. Dito em outras palavras, se outrora escravos eram prisioneiros do sistema escravista e da legislação que o sustentava, atualmente inúmeros africanos são reféns dos sistemas políticos e da conjuntura econômica de seus países. A inexistência de um cenário político, econômico e social que promova o direito a uma vida plena, ao emprego, à segurança, à educação, à moradia e à saúde desperta anseios de mudança e esvanece qualquer paixão à terra natal.

Ser livre passa também por estar imune a riscos excessivos e tais coerções externas apresentam-se como verdadeiros riscos à manutenção da vida. O sociólogo Ortwin Renn, na introdução de seu livro “Concepts of Risk”, afirma que o risco é uma das análises mais intuitivas e naturais ao ser humano: é, acima de tudo, uma estimação mental sobre a probabilidade de existência de um cenário indesejado[4].

O resgate de mais de onze mil pessoas no mediterrâneo na semana passada[5][6], em mais um dos episódios da maior onda migratória depois da segunda guerra mundial, apontam que o cenário indesejado já não está mais presente no mundo das ideias: voou diretamente à realidade africana.

Há inúmeras razões para nigerianos, sudaneses, liberianos e outros africanos decidirem pagar cerca de 10 mil dólares a agentes migratórios na Líbia por uma chance de irem à Europa[6]. A Nigéria, em especial o norte do país, é alvo constante dos ataques do Boko Haram; o chifre da África, principalmente a Somália e Eritréia, abrigam governos ditatoriais e repressivos; Darfur vive o constante drama das guerras civis e da desertificação; o Sudão do Sul vivencia conturbado período após o processo de independência de seu vizinho do norte; a própria Líbia está mergulhada em uma guerra civil infindável, abrigando dois governos em um mesmo país; Libéria, Serra Leoa e Guiné vivem sobre o assombro do vírus do ebola, temendo que este regresse.

Há de ser acrescentado que o número de imigrantes poderá aumentar drasticamente nas próximas semanas, caso o Governo queniano decida fechar o maior campo de refugiados do mundo, conforme exposto hoje no CEIRI NEWSPAPER. O Campo de Dadaab abriga cerca de 350 mil somalianos, que fugiram de sua pátria devido às ameaças do grupo terrorista Al Shabaab. Apesar da pressão internacional, principalmente do Human Rights Watch e das Organizações das Nações Humanas, o Governo do Quênia vê o fechamento como estratégia para reduzir as ameaças de ataques da AlShabaab em seu próprio território[7].

Assim, emergem ao redor de todo continente uma compilação de razões a inúmeros africanos em conceber planos e cultivar sonhos de mudança. Voltando à Foucault, vemos quão pujante é o instinto de sobrevivência, marca presente desde a migração judaica do Egito até à migração nordestina e sulina à Amazônia brasileira; acima de tudo, quão vigorosa é a tendência do homem em alimentar quimeras em face à mísera realidade.

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Imagem (Fonte – Boston News):

http://www.boston.com/bigpicture/2009/01/african_immigration_to_europe.html

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Fontes Consultadas:

[1] Ver:

DIAZ, E. A Filosofia de Michel Focault. São Paulo: Editora UNESP, 2013.

[2] VerThe New York Times”:

http://www.nytimes.com/2015/04/18/world/africa/italian-navy-boat-seized-libya.html?ref=africa&_r=0

[3] Ver:

SEN, A. Desenvolvimento como Liberdade.  São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

[4] Ver:

RENN, O. Concepts of risk. In: KRIMSKY, S. Social theories of risk. Connecticut: Praeger, p. 53-79, 1992.

[5] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/17/death-mediterranean-africans-migrant-sea-libya

[6] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/world/2015/apr/17/armed-men-seize-italian-fishing-boat-off-libya

[7] VerThe Guardian”:

http://www.theguardian.com/global-development/2015/apr/17/dadaab-refugee-camp-closure-risk-350000-somali-lives-amnesty

Pedro Frizo - Colaborador Voluntário

Economista pela ESALQ-USP, é atualmente mestrando em Sociologia pelo Programa de Pós- Graduação do IFCH-UFRGS. Foi pesquisador do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (IDESAM). Atualmente desenvolve pesquisas na área de Sociologia Econômica, Economia Política e Sociologia do Desenvolvimento. Escreve no CEIRI Newspaper sobre economia e política africana, como foco em Angola, Etiópia e Moçambique

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1 Comments

  1. Nicolau 15 de maio de 2015

    Incapacidade, burrice, primitivismo, banditismo, idiotice, parasitismo de macacóides, isso tudo são os canibalizados e miseráveis analfabetos africanos! Mandam esses miseráveis para P…, que os pariu na sua África canibalesca!

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