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VENEZUELA E RÚSSIA FIRMAM ACORDO QUE PODE DESEQUILIBRAR AMÉRICA LATINA

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Durante a visita à Venezuela do ex-Presidente e atual Primeiro-Ministro da Rússia, Vladimir Putin, russos e venezuelanos acertaram acordos que percorrem amplo espectro, passando pelas questões de energia, infra-estrutura, petróleo, educação, armas, aeroespacial e nuclear trazendo para o cenário uma aliança que poderá gerar novo desequilíbrio no continente americano.

 

Para os russos, a questão é basicamente comercial, embora lhe seja importante fazer uma penetração geopolítica na região, algo que está concretizando de maneira favorável, uma vez que os EUA, para quem o continente era “Área de Influência” automática, perderam espaço ao longo dos últimos anos.

Dentre os acordos importantes entre os dois países há o que prevê a exploração conjunta de petróleo, com a criação de uma empresa mista envolvendo a PDVSA (Petróleos de Venezuela S/A), que ficará com 60% do montante da cota acionária, e um consórcio com corporações russas do petróleo (Rosneft, Lukoil, TNK-BP, Gazprom e Surgutneftgaz) para a exploração do campo da “Faixa do Orinoco” denominado “Junín 6”.

Outros, como o reconhecimento de diplomas acadêmicos, a compra de hidroaviões, a reformulação dos contratos para a aquisição de armamentos mostram que a parceria pretende ser extensa. Contudo, dois dos 31 previstos chamaram atenção especial: a parceria para a construção de uma central nuclear na Venezuela e o desenvolvimento de um programa aeroespacial com a finalidade deste país lançar satélites próprios, adquirindo autonomia no setor.

O governo dos EUA, por intermédio do porta-voz da Casa Branca, Philip Crowley, agiu com ironia, declarando: “nos permitimos lembrar que o governo da Venezuela esteve em grande parte inativo esta semana por causa da escassez de energia (…). Já que ele pretende gastar recursos para atender aos interesses do povo venezuelano, talvez devesse se concentrar em assuntos terrestres mais do que nos extraterrestres“.

O argumento apresentado pelos dois líderes em Caracas, no entanto, foi complementar, usando principalmente da defesa pela concretização da multipolaridade no sistema internacional, com o estabelecimento de várias grandes potências e potências médias para gerar uma “paz por equilíbrio” nas relações internacionais; da defesa da autonomia tecnológica, com o desenvolvimento da tecnologia de satélites e veículos lançadores, e a solução do problema energético, sobre o qual, na retórica chavista, um programa nuclear serve adequadamente.

Contudo, para os norte-americanos sabe-se que a situação é preocupante, pois afeta seus interesses imediatos e obrigará a mais investimentos na região, em especial na Colômbia e no Peru, neste primeiro momento. Terá ainda de se aproximar mais do Chile, fazer concessões à Argentina e investir no Paraguai, pois, além da Venezuela, a Bolívia está buscando acordos militares com os russos e recebendo investimentos para a infra-estrutura.

Caso os estadunidenses não façam aproximações corretas e adequadas com os vizinhos destes dois bolivarianos, correrão riscos elevados, talvez com exceção momentânea do Chile. Assim, poderão ver tais países tenderem ao eixo bolivariano, ou adotarem postura pragmática que lhes custará barganha mais cara.

A região também tende a perder o equilíbrio que adquiriu recentemente, uma vez que os dois setores tecnológicos em que a Venezuela está recebendo apoio são complementares para construção de um aparato estratégico militar nuclear e, se forem concluídos os trabalhos, seguirão passos semelhantes aos do Irã, que teve significativa participação russa.

Para os norte-americanos fica a preocupação complementar deste suporte que a Rússia dará ao presidente venezuelano no momento em que ele está recebendo contraposição intensa em seu país, tantoo como na comunidade internacional, sejam pelos estadistas, sejam pelas instituições internacionais, especialmente as voltadas para os direitos humanos.

Com base nesta “energia política” que está recebendo, o líder bolivariano poderá voltar a ocupar papel que estava perdendo na região neste momento em que o Brasil ascendeu, mas que pode decair, dependendo dos resultados das eleições presidenciais de 2010 e do novo governo que os brasileiros terão em 2011, independentemente de quem vença.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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