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A intenção do Reino Unido em deixar o Bloco europeu inundou a comunidade internacional de incertezas, ao criar um vácuo na esfera financeira, econômica, geopolítica e social, não exclusiva apenas para a integração europeia, mas para toda a cadeia de cooperação entre Estados, algo que, se essa decisão for consumada, culminará, por exemplo, no questionamento e na provável alteração do equilíbrio de forças do sistema internacional.

A posição do Reino Unido é um paradoxo em relação à conjuntura globalizada de tempos recentes, em que atores diversos se unem em prol da promoção comercial, segurança, proteção ambiental e para repelir ameaças. Os países signatários dessas integrações concordam em abrir um pouco de sua soberania em busca de interesses econômicos, segurança e vantagens comerciais.

Das inúmeras análises e projeções elaboradas após o “leave” de parte do Reino britânico, o aspecto estratégico focado na argumentação econômica é a que mais se repetiu, possivelmente pela integração do sistema financeiro internacional, que, na Europa, é controlado pela City londrina, a Wall Street do outro lado do Atlântico. Nesse sentido, para os defensores do “remain”, o Brexit trará para o debate um possível empobrecimento do país, que culminaria em menos recursos para dedicar às esferas de política externa e defesa, mecanismos de dissuasão importantes e muito em voga, devido ao caos sistêmico global testemunhado há anos em todas as regiões do mundo, e cujos protagonistas estão em grande parte alocados no lado ocidental do globo.

Ao inserir os Estados Unidos na equação, sua influência no Bloco econômico também sofreria um revés. Washington e Londres nem sempre concordam, porém são parceiros históricos, que, em uma eventual ruptura de Londres com Bruxelas, trará para o futuro Governo estadunidense a perda de uma voz ativa na Europa, aumentando a distância entre os outros 27 membros da integração europeia com a Casa Branca.

Diante desse quadro difuso, uma das conjecturas coloca a Escócia no centro dos desdobramentos em segurança internacional. O desejo do Governo escocês em se manter na União Europeia abre precedente para um novo Referendo de secessão do Reino Unido e, uma vez esse entrevero bilateral ganhando contornos mais complexos, as armas nucleares, estações de monitoramento e submarinos dos Estados Unidos estacionados em território e águas escocesas podem ser redirecionados, sendo este um momento desfavorável aos norte-americanos, do ponto de vista geoestratégico, dada à intenção de Moscou em reassumir o protagonismo no cenário internacional.

Para o presidente Barack Obama, e também para seu sucessor, os desafios serão grandes, pois Londres acolhe centenas de empresas americanas nos serviços financeiros, como previamente levantados, tem uma conexão com Wall Street muito profunda, assim como tem laços comerciais que projetam o Reino Unido como segundo parceiro norte-americano no continente europeu, atrás apenas da Alemanha.

No curto prazo, os EUA até podem se beneficiar dos movimentos especulativos com a fuga de capitais na Europa, e Wall Street poderá ser um porto seguro, culminando na redução das taxas de juros e, consequentemente, no aumento da competitividade estadunidense para serviços financeiros. No que tange aos negócios, os investimentos serão analisados de perto pelas corporações norte-americanas, a flutuação da moeda e a capacidade do mercado de absorção de uma nova modalidade macroeconômica poderão fazer a diferença nesse primeiro momento. Contudo, os projetos de investimento estarão em passo de espera com a eminente saída britânica do Bloco. Para alguns economistas consultados, há um consenso em esperar para ver o resultado das negociações do Reino Unido na União Europeia no próximo par de anos.

À luz das questões diplomáticas, o Governo dos EUA poderá dividir sua política externa na Europa, mantendo a relação histórica com Downing Street, ao passo que poderá fortificar e aprofundar a relação com Alemanha e França. Com a Alemanha, por ser o país mais próspero da Europa, com uma liderança forte, estável e respeitada, além de ser o principal parceiro comercial; e com a França, pelo papel que tem em segurança, como grande colaborador da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, ou NATO, na sigla em inglês), sendo aliado imprescindível de Washington no Oriente Médio, África Subsaariana e no combate ao terrorismo.

Ainda há muito a analisar após a decisão britânica, porém, as bases para uma nova configuração geopolítica já se iniciaram e os desdobramentos podem ser dolorosos em diversas perspectivas, incluindo um novo ciclo de crise econômica que tende a piorar ainda mais o quadro social e levar à ascensão de uma extrema direita ao poder, tanto em grande parte da Europa, como também nos Estados Unidos.

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Imagem (Fonte):

https://www.dw.com/image/0,,19352846_303,00.jpg

Victor José Portella Checchia - Colaborador Voluntário

Bacharel em Relações Internacionais (2009) pela Faculdades de Campinas (FACAMP), Especialista em Direito Internacional pela Escola Paulista de Direito (EPD) e Especialista em Política Internacional pelo CEIRI (Centro de Estratégia, Inteligência e Relações Internacionais). Atuou em duas grandes multinacionais do setor de tecnologia e na área de Cooperação Internacional na Prefeitura Municipal de Campinas com captação de recursos externos, desenvolvimento de projetos na área econômica e comercial e buscando oportunidades de negócios para o município. Atualmente é Consultor de Novos Negócios na Avanth International em Campinas/SP. Escreve semanalmente sobre América do Norte com foco nos Estados Unidos.

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