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O continente africano é um continente marcado por guerras civis, conflitos étnicos, problemas sociais e foi palco de disputa por territórios entre as grandes potências no século XIX e primeira metade do século XX.

Após a II Guerra Mundial (1939-1945) e o processo de descolonização do continente na segunda metade do século XX, a África passou continuamente para a periferia do sistema internacional e, embora tenha recebido investimentos nas áreas sócio-econômicas, os problemas internos não foram resolvidos, estagnando o desenvolvimento da região.

 

Dessa forma, o continente depende de investimento estrangeiro para o seu desenvolvimento e, no início do século XXI, começou uma nova disputa, mas, desta vez, não por territórios ou influencias ideológicas, mas pela busca de parceiros diplomáticos, com intuito de estabelecer parcerias comerciais e abertura de mercados no futuro.

Nesta disputa, o BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) vem aumentando sua atuação no continente, por meio de cooperação econômica, intercâmbio intelectual e no estreitamento de relações sócio-culturais.

O Brasil, ao longo dos últimos anos tem se portado como ator de relevo e um dos maiores concorrentes da China no continente africano, pois vem buscando intensificar suas relações com a África. A título de ilustração, o Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, já acumulava seis viagens cobrindo 16 países africanos, até sua primeira visita à União Européia, em 2007, logo depois de sua reeleição. Lula também foi convidado de honra em uma reunião da “União Africana”, na Líbia.

Estas passagens do presidente brasileiro pelo continente são um lembrete para Pequim. Entre os dias 8 e 9 de novembro de 2009 está sendo realizado o “2º Fórum de Cooperação China-África” (FOCAC, sigla em inglês), pois o governo chinês tem ciência de que não são os únicos cortejando os africanos, suas matérias-primas e seus mercados futuros.

Em termos de relações comerciais, as relações entre Brasil e África obtiveram resultados positivos e crescentes no decorrer dos anos. No ano 2000, o comércio anual foi de US$ 3,1 bilhões de dólares. Já no ano passado, o comércio apresentou US$ 26,3 bilhões. É um aumento significativo, mesmo que os chineses ainda tenham grande vantagem, pois seu comércio bilateral com a África alcançou a cifra de 107 bilhões de dólares.

A Índia é outro membro do BRIC que vem obtendo resultados de crescimento com o continente africano, anunciando um aumento de US$ 4,9 bilhões para 32 bilhões de dólares, com trajetória similar à brasileira.

A Índia lidera o ranking de projetos, em termos de Investimento Estrangeiro Direto (IED). Nos últimos seis anos, o país realizou 130 projetos, comparados com os 86 da China e os 25 do Brasil, segundo dados da South Africa’s Bank.

A Rússia se declarou de volta à África e preparada para desempenhar um papel mais ativo na região. Após uma declaração desse teor, dada em janeiro de 2009 por Mikhail Margelov, enviado russo ao Sudão, houve visitas do presidente Dmitri Medvedev ao Egito, Nigéria, Namíbia e Angola. O objetivo foi para tratar de acordos nas áreas de energia, mineração, telecomunicações e construção.

Dentre os países que compõem o BRIC, a China é a grande líder e já é o maior parceiro comercial da África no mundo, tendo superado, inclusive, os Estados Unidos. Como afirmado, em 2008, foram apresentados 107 bilhões de dólares nas relações comerciais, com 86 projetos em IEDs, mas o gigante asiático tem intenção de aumentar gradativamente esses números, com o intuito de se tornar maior o parceiro em todos os setores com o continente africano. Acredita que, assim, com o desenvolvimento dos países africanos, tendo responsabilidade direta nisso, obterá preferências nas relações comerciais.

O presidente chinês, Wen Jiabao, no primeiro dia da realização do “4º Fórum de Cooperação China-África”, no dia 8 de novembro, prometeu que irá liberar US$ 10 milhões em concessões de empréstimos para ajudar as nações africanas nos próximos três anos. Afirmou, ainda, que as dívidas dos países mais pobres no continente serão perdoadas. Em suas palavras, “Nós ajudaremos a África a melhorar sua capacidade de financiamento. Daremos US$ 10 milhões em concessões de empréstimos às nações africanas“.

Além do cancelamento das dívidas e do valor para concessão, os chineses irão construir 100 novos projetos de energia limpa para a África, objetivando contribuir para o continente enfrentar as questões climáticas. 

Essas promessas do presidente chinês foram respostas às críticas realizadas contra o seu país, quando foi alegado que o crescimento dos interesses da China na África, em busca de matérias-primas, tem ignorado o agravamento dos problemas relacionados ao desenvolvimento e aos direitos humanos em muitos países africanos.  

Jiabao disse que as relações entre seu país e o continente já ocorre há cinco décadas e inclui a ajuda aos países que se livraram do colonialismo, mas parte do mundo só agora começou a notar o papel da China na África. “O povo chinês oferece amizade verdadeira ao povo africano e o apoio da China ao desenvolvimento da África é concreto e real“, afirmou.

Esse aumento das relações dos membros do BRIC com o continente tem contribuído para alterar a configuração das relações comerciais. “Isso não é algo novo – só foi acelerado pela crise econômica. (que agora) É voltado para o comércio entre países emergentes ao invés do tradicional comércio entre norte e sul”, e “O equilíbrio de poder comercial mudou completamente”, disse Martyn Davies, da Frontier Advisory, consultoria de investidores em mercados emergentes africanos, com base na África do Sul.

O aumento de fontes competitivas de comércio no continente africano despertou o desejo do africanos se libertarem da dependência exagerada de laços comerciais com um ou dois parceiros ocidentais, em particular com os Estados Unidos.

Essas incursões e os acordos comerciais que as seguem estão, pela primeira vez, em 50 anos, forçando os países do Ocidente a tentar retomar o continente ao qual eles sempre tiveram acesso comercial ilimitado” e “O potencial agrário da África se tornará um propulsor cada vez maior do comprometimento comercial dos BRICs com o continente”, disse, em nota, o Standard Bank.

O fator que tem enriquecido as relações do continente africano com o Brasil são as relações sócio-culturais. Nesse sentido, os brasileiros têm aproveitado as ligações culturais e lingüísticas para facilitar a promoção de seus negócios, principalmente com Angola e Moçambique.

Pelo fato de não existirem países no continente africano que compartilhem do idioma indiano, a Índia tende a dar preferência nas relações com a África do Sul, país que abriga mais pessoas de origem indiana no mundo.

Outro país que não tem semelhanças culturais ou lingüísticas com a África é a China, porém suas políticas para tratar das relações com os africanos são muito bem exploradas e vem crescendo, nisso tem pesado o aspecto financeiro.

Por exemplo, foi concedido o empréstimo de 1 bilhão de dólares a Angola, voltado para o setor agrário do país, que havia sido devastado pela guerra civil, que durou 27 anos e terminou em 2002.

Ao reboque de ações como essa, os chineses investem no intercambio cultural, levando futuros empreenderes chineses e africanos a aprenderem seus respectivos idiomas, suas culturas e, dessa forma, estreitam mais os laços de amizade.

O governo chinês ainda conta com a Zona de Administração Especial de Macau, que é a porta de entrada de países de língua portuguesa na China e mantêm fortes relações comerciais com Moçambique e Angola.

Como o continente africano está buscando novos parceiros, os membros do BRIC estão aumentando suas relações com o continente, aproveitando as oportunidades de novos negócios, e investindo em planejamentos de curto e longo prazo, os quais já estão apresentando resultados positivos.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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