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POLÍTICA INTERNACIONAL – 2010 TENDE A SER UM ANO TURBULENTO NO PARAGUAI E O FOCO DAS TENSÕES POLÍTICAS NA REGIÃO

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São fortes os indícios de que a situação tenderá à polarização política no Paraguai. Os problemas que o presidente paraguaio, Fernando Lugo, está enfrentando indicam que o país poderá passar por uma crise política institucional e se torne o foco da discussão ideológica no continente, no primeiro semestre de 2010.

 

Lugo tem sofrido acusações constantes e ameaças de processo por crimes comuns. As últimas declarações das lideranças do país mostraram que ele perdeu o apoio que detinha de segmentos e grupos dentro dos partidos tradicionalmente de centro-direita, grupos estes que haviam rompido com os líderes tradicionais e lhe deram suporte para a eleição presidencial, bem como para as primeiras medidas e políticas públicas adotadas.

Ao longo de seus dezesseis meses de governo, Lugo passou por várias acusações e ameaça de processos envolvendo escândalos de paternidade e denúncias de corrupção, dentre elas, uma tratando do processo de compra de terras, na região fronteiriça com o Brasil, com o objetivo de levar adiante a reforma agrária que está em seu projeto de governo. Além disso, existe a acusação de negligência, envolvendo o seqüestro de um pecuarista, há mais de dois meses.

Na fronteira entre Brasil e Paraguai, os brasiguaios* estão vivendo em clima de guerra contra os agricultores sem terra. De acordo com fontes de informação, o problema vem ocorrendo, especialmente, com os integrantes da “Via Campesina”, uma organização “Sem Terra”, que está ameaçando os produtores do distrito de Marizcal López, localizada a60 quilômetrosde Ciudad Del Este e Foz do Iguaçu.

Além disso, de acordo com várias denúncias, eles estão cobrando “tributos” dos produtores, exigindo 20% da produção de soja para deixá-los plantar. Quando não são cumpridas essas exigências, os membros da organização atiram nos produtores rurais, para matar.

Respondendo às ameaças e declarações da oposição, o Presidente tem usado de medidas políticas e afirmado que as questões morais, ligadas aos processos de paternidade, constituem um complô contra o si e tem como objetivo desestabilizar o seu governo. Também tem investido em medidas assistencialistas com o intuito de manter sua base eleitoral, constituída, principalmente, pela população mais pobre.

A última medida foi o estabelecimento de gratuidade de todos os serviços públicos de saúde no Paraguai, em todas as etapas do processo (da consulta ao tratamento), anunciando o feito com um discurso que tem se tornado típico entre os governantes de esquerda da América Latina, com destaque para o grupo autodenominado bolivariano. Tem dito que o seu feito nunca havia sido realizado em seu país. Em suas palavras, “esto es un acontecimiento histórico. Estamos haciendo en un año lo que no se hizo en 20, 30 y 100 años de gobiernos anteriores. Solo los que tienen algún problema oftalmológico no ven la realidad” (Isto é um acontecimento histórico. Estamos fazendo em um ano o que não se fez em 20, 30 e 100 anos de governos anteriores. Só os que têm algum problema de vista não vêem a realidade).

Como tem consciência da perda do apoio de segmentos fortes, o recurso usado tem como objetivo fazer comparação com os governantes que o precederam para se defender das acusações, mostrando que elas visam retirar do poder alguém que está realizando uma transformação histórica.

Ou seja, que são acusações ideológicas, sem base jurídica, ou factual. Os fatos, contudo, contrariam as negativas de Lugo, embora esta seja a principal estratégia adotada, a qual se resume em: (1) nega a acusação e o fato, caso ele seja apresentado; (2) investe em políticas assistencialistas, para atrair o apoio popular; (3) compara seu governo com o passado do país, mostrando ineditismo (4) investe na publicidade e (5) acusa a oposição de tentar desestabilizar o seu governo, ou de tentar derrubá-lo, por meio de um “golpe de estado”.

Como tem recebido contraposição inclusive do seu vice-presidente, a situação está tensa e complicada. Por essa razão têm surgido declarações de aliados externos, dentre eles Hugo Chávez, presidente da Venezuela, e Evo Morales, reeleito presidente da Bolívia. Ambos afirmam que se prepara no Paraguai aquilo que eles têm chamado de o “modelo de golpe usado em Honduras”: o Congresso destitui o Presidente, com a solicitação do Judiciário e o apoio das Forças Armadas.

Lugo afirmou que tirará férias de final de ano com duração de apenas uma semana e irá ao interior do país, para região não divulgada. O Vice, por sua vez, declarou que assumirá interinamente, sem tirar férias, como forma de afetar o Presidente.

Acredita-se que no próximo ano Lugo vá receber apoio direto dos aliados mais próximos, ou seja, dos bolivarianos e dos membros da ALBA (Aliança Bolivariana para  as Américas). Contudo, o provável é que este apoio se dê em termos de discursos e declarações, anunciando para a sociedade internacional um “suposto golpe de estado” contra ele.

A maior moeda do presidente paraguaio, no entanto, poderá ser o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e as negociações que foram realizadas sobre Itaipu. Os negociadores paraguaios têm afirmado que o resultado conseguido para o Paraguai não tem precedentes na história e usam como comparação os problemas entre Bolívia e Chile, bem como os entre Argentina e Inglaterra, que até hoje não foram resolvidos e não são dados sinais claros de solução.

Ou seja, eles estão atribuindo à gestão do atual presidente o sucesso da empreitada acerca da renegociação do Contrato de Itaipu. Além disso, acredita-se que, ao se reiniciarem as atividades políticas em 2010, o presidente brasileiro vá usar de seu prestígio internacional, bem como do peso que representa a questão de Itaipu, para dar força ao líder paraguaio, tal qual o seu partido, o PT (Partido dos Trabalhadores), está fazendo no momento dando declarações diretas de apoio ao candidato da situação no Chile, Eduardo Frei, da esquerdista Concertación, da atual presidente chilena Michele Bachelet.

Como o Congresso paraguaio está anunciando que recusará a entrada da Venezuela no Mercosul, os analistas começam a apontar que o Paraguai tende a ser o foco das agitações político-ideológicas no continente, no primeiro semestre de 2010.

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* Brasileiros que vivem e tem famílias no Paraguai, bem como os filhos de brasileiros nascidos no país.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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