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A AÇÃO OCIDENTAL NA LÍBIA

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No sábado,  dia 19 de março, o presidente dos EUA, Barack Obama, anunciou a investida militar dos países ocidentais contra as forças do governo líbio, durante o discurso realizado na ocasião da visita ao Brasil.

Obama especificou que a  atuação das grandes potências será limitada, destinada a garantir o cumprimento da resolução 1.973 do “Conselho de Seguranças das Nações Unidas”, ou seja, a garantia de que será mantida a “zona de exclusão aérea” no país, aceitando contudo à adoção de quaisquer medidas necessárias para a proteção da população.

 

Da parte de Kadhaffi, a ação ocidental, que envolve a coalizão de 22 países e está sendo ampliada, é vista como o enfrentamento de uma “Segunda Cruzada do Ocidente” e contra ela seu país vai “abrir o depósito de armas”, já que afirmou ter se tornado o “Mar Mediterrâneo” um campo de batalha. Em seus discursos, tem indicado que irá às últimas conseqüências para manter-se no poder, uma vez que sabe não lhe restarem alternativas.

O presidente norte-americano declarou: “Não foi isto que os EUA, nem nenhum de nossos aliados procurou. (…). Mas nós não podemos ficar inertes quando um tirano diz a seu povo que não haverá misericórdia”. Até o momento, o uso de tropas terrestres está sendo evitado por se saber dos riscos que envolveria para estabelecimento de uma situação de equilíbrio, estando no planejamento estratégico que os rebeldes sejam protegidos para atuarem contra o líder líbio, já que estão diante dos atos de violência explícita e ameaças de procedimentos desumanos expressados na declaração de Kadhaffi de que os rebeldes não “receberão misericórdia”.

O problema maior está em saber qual o nível de interação da sociedade como um todo, pois a Líbia é um país composto por variadas Tribos que não confluem para um mesmo posicionamento e mantinham a ação coletiva graças à liderança de Kadhaffi com seu aparato de forças de segurança e forças de defesa, mas não devido à instituições políticas e sociais do país.

EUA, França, Reino Unido, Canadá e Itália são os países que estão diretamente envolvidos nos primeiros ataques realizados no sábado e domingo, tendo anunciado que a defesa antiaérea do Governo foi seriamente atingida, afetando sua capacidade de resposta e reduzindo as possibilidades de  continuidade do avanço das tropas governamentais contra os rebelados e a população civil das cidades no leste. Aquelas que estão sob controle rebelde.

Os países ocidentais tem certeza de que ocorrerá um massacre contra a população caso Kadhaffi não seja detido. Para piorar, foi criada a situação de não haver possibilidades de retroceder nas ações de ambas as partes, pois a divisão da sociedade Líbia levaria a um julgamento extremo do mandatário e de seus partidários, da mesma forma que não existem instituições que possam garantir a mudança para um regime democrático (de concepção ocidental), com mecanismos de transição e certeza de respeito pelas diferenças dos grupos que estão envolvidos nesta situação extrema.

Segundo observadores internacionais, mesmo os países que se abstiveram na votação da criação da “zona de exclusão” sabem da necessidade de impedir o avanço de Muammar Kadhffi, mas eles têm consciência dessas dificuldades, razão pela qual adotaram tal postura. Como os especialistas constantemente afirmam, a abstenção diferencia-se significativamente da votação contrária.

No caso da abstenção, ela geralmente indica que se concorda com os princípio, mas há divergências acerca dos métodos a serem adotados, ou do momento para a adoção de métodos específicos que foram aceitos. No caso da votação contrária, normalmente e quase sempre significa que há divergências em relação aos princípios, as vezes não se levando em conta a questão do método a ser aplicado.

Analistas tem explicado o caso do Brasil nestes termos: o Brasil foi a favor da aplicação de sanções contra a Líbia, mas não poderia se posicionar a respeito da “zona de exclusão” devido às necessidades de se pensar as conseqüências de uma possível intervenção militar, bem como do planejamento para tanto, desejando evitar que a simples deposição de Kadhaffi colocasse a Líbia na situação de caos interno, ou gerasse a criação de grupos insurgentes contra a presença dos ocidentais em seu país, já que a sociedade líbia, na linguagem dos especialistas é “tribalizada”.

As grandes potências aguardam que os rebeldes se reorganizem em seus pontos de resistência e se preparem para expandir os focos, bem como para a tomada de poder tão logo a resistência do governo esteja destruída e Kadhaffi se entregue.

Há concordância por parte dos analistas de que o mais provável será a derrota do Governo, mas todos os envolvidos estão receosos do peso do processo, pois, agora que foi iniciado, deverão arcar com os custos da reconstrução do país exatamente neste momento de recuperação coletiva  da crise econômica mundial.

Por essa razão, os observadores também levantam a hipótese de poder ocorrer uma situação parecida com a de Sadan Hussein, logo após a primeira investida do Ocidente contra o Iraque (“Guerra do Golfo”, 1990), quando foi derrotado, mas não deposto, para evitar que houvesse um vazio de poder no seu país e ele fosse ocupado por governo e regime mais antagônico ao Ocidente, ou se fragmentasse, disseminando a violência pela região, uma situação que se evita em todas as circunstâncias pela possibilidade de gerar desequilíbrio no sistema internacional.

Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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