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A QUESTÃO DO ACORDO MILITAR ENTRE COLÔMBIA E EUA (PARTE 1)

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O acordo militar que está sendo firmado entre Estados Unidos e Colômbia traz elementos que poderão por à mesa as cartas da configuração de forças na América Latina, em especial no subcontinente sul-americano.

Inicialmente, o anúncio feito pelo presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, trouxe a solicitação do Brasil e do Chile para que o colombiano trouxesse esclarecimentos a todos sobre os teores do tratado que está sendo firmado, como forma de tranqüilizar os atores da região.

 

O responsável brasileiro pelo contato com o representante dos EUA foi Marco Aurélio Garcia, o Assessor Especial do Presidente do brasileiro Luis Inácio Lula da Silva, que prontamente rejeitou a instalação de bases na Colômbia, e, em conversa com o Assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, general Jim Jones, afirmou que os movimentos norte-americanos lembram a Guerra Fria (período compreendido entre 1945, a rigor  1947, até 1989, quando o mundo estava dividido, principalmente, entre dois pólos de poder: EUA e União Soviética).

De acordo com o anunciado por Álvaro Uribe, os objetivos são: auxiliar o país no combate ao narcotráfico e ao terrorismo. Essa justificativa está sendo rejeitada de forma intensa por Venezuela, Nicarágua, Bolívia e Equador, além de receber dos países da America do Sul, em especial de Brasil e Chile.

A recusa dos quatro bolivarianos era prevista. A presença de bases dos EUA com livre circulação permitirá aos norte-americanos, com seu volumoso poderio bélico, manter o equilíbrio de poder na região.

A Colômbia, que foi a fiel da balança (termo de relações internacionais, aplicado aquele elemento que mantém o equilíbrio de poder em determinado grupo, sempre que algum dos membros cresce em demasia) durante o crescimento de Hugo Chávez e a expansão do socialismo bolivariano na região, pode, com auxílio dos EUA, ser também o fiel da balança neste momento em que está ocorrendo uma corrida armamentista no continente, apesar das negativas por parte de governos e das recusas por parte significativa da mídia em ver o fato.

Antes, os EUA tinham uma base em Manta, no Equador, mas Rafael Correa, presidente equatoriano, não aceitou a renovação do acordo, colocando os americanos na situação de ou retirar-se da região, ou acertar com outro país uma parceria estratégico-militar.

A negativa colombiana de apresentar explicações públicas sobre detalhes do acordo é justificada por duas razões que não podem ser ignoradas pela mídia, a qual deve entender o fato, ao invés de julgá-lo: primeiro, o combate ao terrorismo e ao narcotráfico já tem investimentos dos EUA para que seja realizado, além do fato de poder ser operacionalizado pelas forças que já estão em operação. A questão se explica pela razão clara de que tanto terrorismo, quanto tráfico de drogas tem relação direta com as FARC, as quais, de acordo com os anúncios feitos em jornais e pelas descobertas divulgadas pelos serviços de inteligência de alguns países, que também foram divulgadas, têm ligação com Venezuela e Equador, seja por intermédio dos líderes políticos dos países, seja por intermédio de instituições, seja por intermédio das Forças Armadas de Venezuela e Equador. Assim, o argumento do combate ao crime organizado e ao terrorismo incide diretamente nos Estados bolivarianos. Em segundo lugar, a recusa de esclarecimentos por Uribe se justifica por razões técnicas, pois, ao explicar os detalhes do acordo, ele estará oferecendo informações estratégicas aos agentes daqueles que ele deseja combater. Ou seja, é improcedente tal exigência.

A preocupação do Chile vincula-se mais a questões específicas com os seus vizinhos imediatos (Peru, Bolívia e Argentina), pois os chilenos têm acordos comerciais que atingem quase 100% dos artigos que podem ser exportados para os norte-americanos e têm maiores preocupações com as declarações da Bolívia do que com os norte-americanos que têm sido parceiros comerciais, pois os bolivianos agora estão vendo diante de si possibilidades concretas de evolução de poder, com os seus acordos militares com os russos e os venezuelanos.

Para Alan Garcia, presidente do Peru, o acordo militar vem com alívio. Se ele se prontificasse aceitar bases dos EUA em seu território sentiria a pressão interna, principalmente pelo fato de o país ser divido em duas tendências, ficando metade ao seu lado, mas a outra metade do lado de Olanta Humala, líder indígena, também bolivariano, que recebeu apoio direto de Hugo Chávez quando concorreu e foi derrotado por Garcia, nas últimas eleições presidenciais.

As bases dos EUA na Colômbia dão fôlego a Garcia, além de poder dissuasório indireto para responder a quaisquer ameaças dos bolivarianos quando vierem as eleições em seu país. Por isso já está apoiando Álvaro Uribe e, em sua declaração, afirmou que a Colômbia tem sido um defensor da democracia no continente, além de expressar a  opinião de que o acordo militar será um instrumento para preservá-la.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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