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ARGENTINA E VENEZUELA ASSINAM ACORDOS DE COMÉRCIO QUE PODEM MODIFICAR OS POSICIONAMENTOS NA AMÉRICA DO SUL (PARTE 1 – A QUESTÃO DA COLÔMBIA)

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O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e a presidente da Argentina, Cristina Fernandez Kirchner, assinaram, hoje, dia 12 de agosto, acordos de comércio com caráter prioritariamente político e estratégico, além do vulto econômico que representa.

De acordo com o anunciado, os valores envolvidos são da ordem de US$ 1,1 bilhão, somando-se a um comércio já existente que oscila na casa do bilhão e duzentos milhões de dólares.

 

As relações de Hugo Chávez com a Argentina são intensas, mesmo que o caráter das aproximações tenha sido, em sua maioria, para apoio entre os líderes políticos, como se deu com Nestor Kirchner. Após os primeiros anúncios de que a Argentina estava entrando em crise, Chávez passou a comprar bônus do tesouro, chegando a US$ 1 bilhão, como forma de auxiliar diretamente o ex-presidente, tanto que denominava esses bônus de forma irônica como “Bônus Kirchner”. Os investimentos chavistas diminuíram, à medida que veio a crise internacional no meio de 2008 e houve uma queda no preço do barril de petróleo no mercado mundial.

Os venezuelanos, de então, passaram a sofrer com problemas imediatos de abastecimento, uma vez que os investimentos internos feitos pelo governo foram para as obras e missões assistencialistas no país e a maior parte dos recursos sempre fora destinada à estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela S/A), empresa responsável pela captação de mais de dois terços das divisas do país e é a dinamizadora da economia venezuelana, uma vez que não se limita à exploração de petróleo, mas atua em todas as áreas, inclusive no transporte de gêneros alimentícios.

Apesar das contraposições políticas e ideológicas, a Colômbia sempre foi uma fornecedora de produtos industriais, de manufaturados e gêneros alimentícios para a Venezuela. O comércio entre ambos oscila entre seis e sete bilhões de dólares e, no momento em que começaram as perdas de arrecadação venezuelana, devido à queda acentuada do preço do petróleo, Hugo Chávez decidiu cortar a compra de Bônus da Argentina, reduziu os investimentos nos trabalhos assistencialistas e deslocou recursos para incrementar o comércio com os colombianos, estimando-se um aumento de três bilhões de dólares numa relação que já estava calculada em sete bilhões de dólares.

Isso, apesar de, naquele momento, tanto venezuelanos, quanto colombianos, estarem se ameaçando mutuamente com relação à questão das FARC e com relação à militarização da região. Ou seja, os colombianos constituem um parceiro comercial significativo e, do qual Chávez tem dificuldades de se afastar.

A questão com a Colômbia começou a ficar mais tensa em dois episódios, mesmo que a mídia esteja centrada apenas na questão da cessão de bases colombianas para os EUA.

1) A primeira questão diz respeito ao apoio que Álvaro Uribe deu, sem se manifestar sobre isso, ao atual governo de Honduras. O atual presidente, Micheletti, mandou representantes de alto escalão para diálogos na Colômbia e eles foram recebidos diretamente por Álvaro Uribe em seu palácio presidencial. O que ficou patente foi à possibilidade de um país no mundo reconhecer o atual governo hondurenho, dificultando as pressões internacionais que estão sendo lançados sobre o país centro-americano. Mais que isso, ficou patente a possibilidade de obter apoio militar no caso de, iniciando-se uma guerra civil, Honduras ser invadida pelos bolivarianos que estão apoiando Zelaya, o presidente afastado de Honduras.

2) A segunda questão foi a cessão das bases colombianas aos EUA. Isso é uma continuidade dos dois planos de combate ao narcotráfico (Planos Colômbia I e II), que estão sendo aplicados faz nove anos (iniciou em 2000). Não se discute que a cessa~das bases será a continuidade do planejamento de combate ao tráfico de drogas e à guerrilha, que hoje se tem confirmação de relação entre ambos. Mas, houve o acréscimo de criar um substitutivo à perda, por parte dos norte-americanos, da base que detinham em Manta, no Equador, quando lhe dava um espectro de ação suficientemente amplo para monitorar e enfrentar o problema das drogas e dar suporte aos colombianos para combater as FARC. A questão é que se sabe que a ocupação das bases pelos norte-americanos, mesmo que em parceria permanente com os colombianos, permitirá aos EUA maior capacidade de ação na região, apoio direto à Colômbia, caso Chávez a ameace, e recursos para apoiarem o atual governo hondurenho, por intermédio colombiano, caso seja necessário no futuro.

Ou seja, a Colômbia deixou de ser aquele adversário suportável, devido às necessidades imediatas que a Venezuela tem e devido a sua pouca capacidade de projeção de poder dos colombianos, embora tenham capacidade de defesa. Agora estão se configurando como um concreto inimigo de peso, já que podem ser um freio direto às ações de Hugo Chávez na região. A prova disso foi à manifestação e pronunciamento do presidente do Peru, Alan Garcia, que afirmou algo como ser a Colômbia e sua parceria com os EUA a construção do equilíbrio na América do Sul e, Uribe, o presidente colombiano, o defensor da verdadeira democracia na região. O problema de Chávez se apresenta, no momento, de forma simples e direta: como substituir a dependência de uma relação comercial que pode significar uma derrota certa, caso seja necessário uma ação direta para executar sua estratégia. A alternativa imediata é buscar alguém que precisa de saídas para uma crise também iminente. A Argentina apresenta-se como uma boa solução.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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