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ARGENTINA E VENEZUELA ASSINAM ACORDOS DE COMÉRCIO QUE PODEM MODIFICAR OS POSICIONAMENTOS NA AMÉRICA DO SUL (PARTE 2 – A QUESTÃO ARGENTINA)

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As relações entre argentinos e venezuelanos tem oscilado. Se o presidente Chávez tem ajudado diretamente os Kirchners, isso não significa que toda a liderança política do país concorda com a relação. No Parlamento argentino o ingresso da Venezuela no MERCOSUL já foi aprovado, mas isso não ocorreu por razão ideológica. Ela é puramente estratégica e de sobrevivência política do grupo que está no poder, pois tem diante de si um cenário muito difícil. Os argentinos estão sem crédito internacional desde a moratória decretada em 2001. As relações com os países do MERCOSUL estão problemáticas, tendo recebido críticas do Uruguai e do Paraguai e ameaças de contramedidas por parte do Brasil que se vê prejudicado com a adoção, por parte dos argentinos, das licenças não-automáticas para os produtos brasileiros, significando uma espécie de barreira não tributária à exportação do Brasil para o seu país.  

 

A Argentina tem recebido críticas diretas da União Européia (UE), que os acusa de serem os responsáveis pela não assinatura de acordos comerciais entre os Blocos, tanto que as reuniões para discutir esses tratados entre MERCOSUL e UE foram retiradas da pauta prioritária do semestre, ficando apenas as reuniões com o Brasil. Para os argentinos a saída tem sido garantir aproximações com os chineses, substituindo o tradicional parceiro comercial que é o Brasil, mesmo que isso tenha levado à reação retórica do Brasil, que sempre mostra o seu significado para os vizinhos, uma vez que os brasileiros representam quase 10% das exportações totais argentinas, apenas no setor automobilístico, um dos setoresem que Hugo Chávezquer atuar com a Argentina na proposta assinada hoje.

Os chineses apareceram como alternativa para a Argentina diante de um quadro em que o governo venezuelano estava recrudescendo a compra de bônus do seu governo e, pior, estava ameaçando nacionalizar as empresas com capital argentino dentro da Venezuela. A imagem que ficava era de que o túnel estava ficando sem saídas, pois, além de receber críticas internacionais e não ter crédito no mercado, a força que o Brasil vem adquirindo no cenário mundial é suficientemente grande para constranger a Argentina a recuar em determinadas ações, pois o Brasil tem crescido em influência principalmente na Europa, seja pelas parcerias comerciais com a Espanha, seja pelas possibilidades de acordos militares com França, ou Suécia. Além disso, devem-se destacar as declarações em conjunto no BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que se não demonstram proximidades concretas, ao menos podem indicar respeito mútuo, ou pretensões de ação conjunta no futuro.

Com esse cenário os venezuelanos e os argentinos fecharam um quadro complementar. Os venezuelanos poderão substituir os produtos colombianos pelos argentinos paulatinamente, garantindo o afastamento de que precisam para poder enrijecer ainda mais o seu discurso em relação ao grupo que se opõe diretamente ao projeto de poder chavista no continente: Colômbia, Peru e EUA, embora os norte-americanos não possam se manifestar diretamente sobre isso. O problema seguinte é como substituir os EUA como principal importador do petróleo da Venezuela.

Os russos, com os quais os bolivarianos estão firmando cada vez mais acordos comerciais militares, detêm reservas de petróleo e gás e não se constituem como mercado para isso. No entanto eles podem ser uma ponte para a China que precisa do produto para garantir seu crescente desenvolvimento, mas isso só se dará por intermédio de parcerias nas quais, certamente, a Rússia não aceitará ser minoritária.

Mais uma vez, a Argentina surge como um instrumento ideal para o afastamento que Chávez precisa fazer das relações comerciais com a Colômbia, pois a forma como os argentinos estão agindo em relação aos parceiros do MERCOSUL é de enfrentamento e estão usando como amortecedor a sua aproximação comercial com os chineses, demonstrando explicitamente que a China é o Mercado que lhe interessa, independente das conseqüências para o MERCOSUL. Assim, a Argentina também pode servir aos venezuelanos como ponte para a China.

O grande prejudicado no processo pode ser o próprio Mercado Comum do Sul. À medida estão sendo firmados acordos bilaterais, as regras do MERCOSUL começam a ser a ignoradas, mesmo que a Venezuela esteja em processo de ingresso no Bloco. A questão fica na forma como serão tratados esses acordos se ocorrer o ingresso venezuelano no grupo, após aprovação nos Congressos, brasileiro e paraguaio. Ou serão impostos procedimentos que constrangerão os demais parceiros, ou o fato será usado por Chávez para implantar seu planejamento estratégico. Fica a questão de como devem se comportar o Brasil e o seu empresariado.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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