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AS INCERTEZAS NO EGITO E OS RISCOS DE ABALO DO SISTEMA INTERNACIONAL

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A crise política do Egito tem gerado apreensão à “Comunidade Internacional”. Analistas não conseguem concordar sobre os rumos que tomará a região após a revolta popular no país, com exigências de mudança do “regime político”, mais que a substituição de um governo.

O Egito, ao longo dos últimos 30 anos, foi o ponto de equilíbrio entre as “nações árabes” e  o Ocidente, devido suas relações com EUA e Israel, constituindo-se como o “Fiel da Balança” regional e mediador entre árabes, ocidentais, muçulmanos e judeus.

 

Para o Ocidente, a questão se coloca em torno de dois eixos: (1) acatar as manifestações como sendo legítimas e necessárias reivindicações sociais pela Democracia, algo a se considerar, embora haja grandes dúvidas sobre a forma como é entendido o regime democrático no Egito, e (2) definir a forma como terá de lidar com as mudanças que virão, podendo surgir um novo fator de desequilíbrio regional, o qual, certamente afetará este subsistema e poderá por em xeque a paz mundial.

Muitos observadores têm afirmado que parte significativa do problema decorreu do apoio dado pelos ocidentais em relação a um Regime Político que usou de forma contínua a repressão, suprimindo os direitos civis e impedindo a criação de lideranças do próprio grupo no poder respaldadas pela sociedade, para que pudessem ser vistas como legítimas perante o povo e, por isso, pudessem receber o seu apoio. No limite, o Regime, por ser autoritário, com fortes elementos ditatoriais, criou o ambiente para  sua rejeição e para a rebeldia popular.

As condições históricas em que governos como o de Mubarak se instalaram levaram o Ocidente (liderado pelos EUA) a optar pelo equilíbrio desta região, independente da forma como as lideranças conduzissem as relação entre o Estado e a Sociedade, entre o Governo e o Povo, em detrimento aos valores da liberal-democracia que são defendidos e disseminados pelo mundo. A contextualização histórica explica e justifica a opção, mas criou o dilema moral difícil de ser contornado, especialmente nos momentos de esgotamento do sistema, tal qual se vê neste momento.

Sendo os norte-americanos os principais apoiadores de Mubarak, vários são os analista que configuraram esta tensão como o “dilema norte-americano entre defender os ideais americanos ou os interesses americanos”.

Hoje, a situação não permite que as grandes potências ocidentais aceitem um modelo político que confronta diretamente seus valores essenciais (Democracia, “Liberdades Fundamentais”, “Direitos Humanos” e “Desenvolvimento Econômico e Social”) e levou a mobilização de quase toda a sociedade contra si, mesmo que este seja seu aliado.

A situação se coloca entre apoiar o necessário (mas moralmente indefensável, pois contraditório com os princípios pregados) e o correto (por ser moralmente afinado com os valores essenciais defendidos, mas incerto e custoso devido aos riscos de perda de apoio e possibilidades de gerar um opositor). A questão não se coloca mais entre ser firme, ou ingênuo, mas em como corrigir um erro que não foi evitado.

Parte significativa dos analistas chegam a conclusão de que a situação gerada, decorre de dois problemas fundamentais para o Ocidente, em especial para os norte-americanos: (1) o hábito mental de tomar como imediatamente compreensível por todos o modelo de “democracia-liberal” dos ocidentais, visto como uma técnica, ou metodologia justa para a tomada de decisões, esquecendo que para este instrumento ser aceito de forma tão natural pelo povo, os valores democráticos precisam estar inseridos na sua consciência coletiva, existindo identificação automática com tais princípios, pois já existe na sociedade uma “democracia social”, tal qual esboçada pelos norte-americanos, canadenses, australianos, europeus etc., ou seja, pelos países ocidentais mais desenvolvidos; (2) o pragmatismo do Ocidente (liderado pelos EUA) na sua busca pelo “equilíbrio de poderes”, ou preservação das “zonas de influência” nos vários subsistemas regionais, levou-o a dar recursos para aqueles governos que entediam os valores da cultura ocidental e propunham a modernização de seus países, sem, no entanto, desenvolvê-los, solucionando as situações de pobreza e incutindo os princípios fundamentais da civilização ocidental que os apóia e sobre o qual tecem elogios.

Neste sentido, o que está ocorrendo hoje no Egito e nas nações árabes é um resultado lógico do esgotamento deste processo de apoio a governos que não produziram transformações estruturais nas suas sociedades, levando os povos a se verem na necessidade de reivindicar as soluções aos problemas que foram ignorados por regimes políticos que serviram para manter a paz no sistema internacional, mas que não produziram resultados concretos para o bem das sociedades que governam.

De forma mais concreta, vários analista apontam que o erro dos ocidentais, em especial dos EUA, se resume no fato de não terem condicionado o apoio dado aos regimes que se instauraram nestes países, ao desenvolvimento de suas sociedades, fazendo exigências com cumprimento de metas e comprovação de resultados.

Ou seja, fizeram os investimentos apenas para ter pontos de apoio, mas permitiram que os recursos fossem concentrados nas mão de poucos, esgotando a sociedade que acabou identificando os erros e abusos de seus líderes com o Ocidente e não com as falhas dos grupos que ascenderam ao poder e se beneficiaram com as necessidades das grandes potências de terem aliados nestas regiões para manter o equilíbrio regional.

Criou-se um dilema moral para o Ocidente, agora difícil de ser enfrentado. As reivindicações sociais espelham os princípios defendidos pela própria construção do mundo ocidental, mas, devido as situações de pobreza a que estes povos foram jogados, causadas pelas concentrações de poderes e corrupções de seus governos, as populações passaram a ser alvos fáceis para os radicalismos políticos, que, naquela região, estão configurados no fundamentalismo islâmico.

A situação atual se apresenta em como resolver  problema que permitiram criar: não há mais como apoiar governos e regimes que são detestados pelo povo e repudiados pela sociedade, mas corre-se o risco de ver a ascensão dos mais ferrenhos antagonistas, tal qual ocorreu no Irã, no final da década de 70 do século XX. Neste momento a pergunta que faz é: como impedir que os radicais anti-ocidentais preencham o vazio de poder que vai surgir?

O risco de isto ocorrer é grande, pois o grupo mais organizado é exatamente o da oposição radical. Caso ela assuma, o que era efeito dominó contra as ditaduras na região pode se tornar efeito dominó pela ascensão dos fundamentalismo em países que tem relações pró-ocidente,  gerando um desequilíbrio que afetará toda a comunidade internacional.

Imediatamente, obrigará Israel a mudar sua política externa e o mundo ocidental terá de rever posturas, exatamente no momento chave de transformações da economia internacional e em busca da superação de uma crise global, que já começa a ser realimentada com a queda de “Bolsas de Valores” pelo mundo e aumento do preço do “Barril de Petróleo” (chegou a ultrapassar cem dólares).

O desenrolar do processo é imprevisível, e o mundo sofrerá as conseqüências. Os manifestantes no Egito, não estão aceitando a proposta de transição que o governo está dando mostra de desejar fazer: Hosni Mubarak não será candidato nas eleições em setembro, nem seu filho, mas ficará no governo até ela acontecer. Querem que ele se retire neste momento e, juntamente com ele, toda sua equipe de governo.

A Europa, os EUA e Israel estão temerosos em apoiar Mubarak, pois sabem das conseqüências se o fizerem, por isso trabalham com duas hipóteses: (1) apoiar o afastamento do Presidente e a manutenção do atual governo, com o vice-presidente assumindo no processo transitório; ou (2) apoiar a negociação da ascensão de um homem de coalizão que seja pró-ocidental e componha um novo governo até as eleições. Neste caso a figura chave seria Mohamed ElBaradei, que detém apoio inclusive da “Irmandade Muçulmana”, principal grupo opositor e também principal antagonista do Ocidente.

Esta hipótese começa a trazer temor entre vários analistas, não por suspeitas em relação a ElBaradei, mas com receio de que seja uma armadilha para que a última esperança de ter líderes pró-ocidentais seja queimada neste momento transitório, pela impossibilidade de montar um governo eficiente para ganhar eleições e, assim, manter regime aliado das grandes potências. Isto reforçaria mais os grupos fundamentalistas para impor o seu sistema político. Os manifestantes egípcios exigiram a renúncia de Mubarak até sexta-feira, dia 4 de fevereiro de 2011. Esta pode ser a data que determinará os rumos do acontecimento.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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