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ASSINATURA DO TRATADO DE REDUÇÃO DE ARMAS NUCLEARES É APRESENTADA COMO PASSO IMPORTANTE PARA NOVA ERA NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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Os presidentes da Rússia e dos EUA, Dimitri Medvedev e Barack Obama, respectivamente, anunciaram que a assinatura do novo Tratado de redução de armamentos nucleares, que substituirá o START (Tratado assinado em 1991 e encerrado em dezembro de 2009) representará o início de uma nova configuração nas Relações Internacionais.

 

O presidente norte-americano afirmou esta semana a importância do novo Acordo juntamente com o anúncio da nova “doutrina nuclear” dos EUA, segundo a qual fica definida adoção de armamentos nucleares em condições mais restritas, deixando em aberto à situação de Irã e Coréia do Norte, uma vez que ambos os países são enquadrados pelos EUA como inimigos imediatos e potenciais Estados nucleares, caminhando à margem dos processos de negociação realizados no mundo.  Medvedev, por sua vez, declarou que o novo acordo terá abrangência e influência global.

Acredita-se que a ação das duas superpotências nucleares afetará a estratégia de defesa de todas as potências nucleares do planeta, uma vez que ambos os países poderão trabalhar conjuntamente para o desarmamento, pois reduziram em mais de 70% os seus respectivos arsenais.

A tendência, contudo, é diferente do quadro que está sendo posto. Os arsenais de Rússia e EUA estavam defasados, não sendo produzidos novos artefatos desde a década de 90 do século XX, apontando vários analistas que se tratou de uma limpeza no estoque, retirando, principalmente, os gastos excessivos e desnecessários, pois, embora não fossem feitas novas produções, ele passava por manutenções, gerando custos desnecessários.

Dos países que detém tecnologia e armamentos nucleares, os dados disseminados apresentam que apenas França e Inglaterra têm seu arsenal estático ou levemente reduzido. Os demais têm aumentado à produção, ou investido no aperfeiçoamento do estoque, como são os casos de China, Paquistão, Índia, Israel e Coréia do Norte (que se supõe ter capacidade para produzir entre 5 e 15 ogivas atômicas). O outro ator que entra no cenário é o Irã, o qual se acredita poder desenvolver artefatos nos próximos anos, caso seu “Programa Nuclear” não seja interrompido em regime de urgência.

A configuração do sistema internacional não se altera com este Tratado. Pode ocorrer alguma modificação de cenário, dentro de um mesmo modelo, no caso de os EUA e da Rússia realizar aproximação política e diplomática para ação conjunta em outros setores.

Esta talvez seja uma conseqüência importante do que está sendo feito. No entanto, é algo que não está garantido no horizonte, nem se acredita que ocorra. Principalmente se os norte-americanos continuarem insistindo no “sistema de defesa antimísseis”, projetado para ser instalado na Europa Oriental (República Tcheca), onde tem recebido seguidas contraposições das populações locais, além das ameaças da Rússia de que a continuidade desta proposta levará ao fracasso de qualquer iniciativa realizada até o momento. O fato de os russos declararem que há cláusulas para denúncia e rompimento do Tratado, algo a ser anunciado logo após a sua assinatura e, dentre as cláusulas, está à questão do “escudo antimísseis” dos EUA, confirma a complexidade do problema.

Para a concretização da hipótese de uma ação conjunta, gerando a modificação na condução da diplomacia global, será necessário que ambos os países busquem uma agenda comum, ou complementar, algo mais complexo ainda.

Neste caso, em princípio, os EUA e a Rússia terão de ver a Europa unida como concorrentes deles. Apesar de difícil, não é algo impossível, uma vez que europeus unificados representam um opositor econômico significativo aos EUA. Aos russos, os europeus constituem-se como uma barreira, quando não uma cunha a penetrar em seu território. Essa situação é mais observável que a entrada da Rússia na OTAN para auxiliar no enfrentamento dos problemas no Afeganistão, tal qual já chegou a ser sugerido.

Se ambos os países começarem a ter esta percepção e a formar a agenda complementar, eles poderiam também pensar nas formas de agir em relação ao crescimento chinês e às ameaças dos demais atores nucleares do sistema internacional, além das ameaças terroristas que ambos os países sofrem por razões específicas de cada um.

Mas, outro grande problema está no fato de os chineses serem os maiores compradores de armamentos dos russos, o que exigiria trabalho complexo dos EUA para compensarem para os russos uma possível substituição da China num setor altamente lucrativo. Isso parece difícil de ser realizado.

Nas décadas dos 80 e 90 do século XX, alguns teóricos acenaram com a possibilidade de as duas superpotências agirem coordenadamente para preservar o equilíbrio no sistema internacional ao longo da primeira metade do século XXI.

A hipótese não parece plausível. Contudo, a constante queda no poder e influência dos EUA no sistema internacional e o desejo dos russos de restaurarem seu status anterior fazem com que ela não possa ser afastada.

Na linguagem da geopolítica do século XX, seria a aliança da “Baleia” com o “Urso”, ou seja, do “poderio marítimo” com o “poderio terrestre” para enfrentar os “poderes anfíbios” (representados por China e, agora, pela Europa), que tanto trouxe receio aos estrategistas, pois, de acordo com suas concepções, um poder desta natureza teria condições de se sobrepor ao mundo.

Naquela época a economia internacional tinha outra natureza, permitindo este tipo de reflexão. Hoje, dificilmente. Contudo, diante do quadro indefinido das atuais relações internacionais, este cenário precisa ser considerado, caso o Tratado assinado hoje, dia 8 de abril de 2010, leve a uma aproximação segura dos dois super-atores, podendo gerar, aí sim, o início de uma nova dinâmica das relações internacionais.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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