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BALANÇO DA POLÍTICA RUSSA EM 2010: (2) A POLÍTICA EXTERNA

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Ao longo de 2010 a política externa da Rússia buscou acompanhar os rumos da estratégia de modernização imposta pelo governo. Internamente, como apresentado em “Análise de Conjuntura” publicada no “Site do CEIRI”, em 27 de dezembro de 2010,  as questões se voltaram para a criação de condições geradoras de desenvolvimento econômico e social, estampados na modernização da sociedade e da economia e no estabelecimento definitivo de um “Estado Democrático de Direito”. Neste sentido, o governo e algumas lideranças, estimuladas pelo presidente Dmitri Medvedev, têm buscado formar instituições e tentado iniciar reformas no sistema político para criar caminhos substitutos aos antigos modos de fazer política no país.

 

A política externa da Rússia durante o período esteve direcionada para a recuperação do status de “ator mundial” com “projeção de poder global”, mas vinculada aos parâmetros da modernização do país.

Para parte significativa dos especialistas, o ano de 2010 viu a continuidade de um processo iniciado recentemente em que aos russos não desejam mais fazer das “relações exteriores” um instrumento para a simples busca do poder, ou exclusivamente para a sua imposição. A recuperação do status de uma das “potências coordenadoras do sistema internacional” passou a se vincular à busca de condições para negociar as transformações e reformas necessárias na Rússia.

Diferentemente do que se deu ao longo o século XX, em que o objetivo era expandir o poder e projetá-lo em face de novas conquistas, seja para manter e expandir o “Império Soviético”, seja para disseminar a ideologia socialista, as relações exteriores atuais se mostram como formas de garantir um status que lhes garanta estar presente em todas as mesas de negociação, mas para atrair parceiros estratégicos, investidores, projetos e idéias que auxiliem na transformação que se está em planejamento.

Como é um país híbrido de Ocidente e Oriente, a Rússia sempre se viu trabalhando para concretizar o processo de ocidentalização, hoje configurada na modernização da economia e do seu sistema político.

De certa forma, como observadores têm apontado, a Rússia atual (última década do século XX e início do século XXI) retoma os sonhos e objetivos das Rússias dos séculos  XVII, XVIII e XIX, que buscaram tornar-se mais Europa (Ocidente) e menos Ásia (Oriente). Na atualidade, com a interdependência das relações internacionais e a globalização da cadeia produtiva, o processo de ocidentalização passou a ser simplificado com a modernização econômica e com a implantação do regime de “Estado Democrático de Direito”.

Acredita-se que na Rússia se percebeu que ambas as coisas podem ser aceleradas com investimentos em alguns focos da política externa: (1) a entrada do país na “Organização Mundial do Comércio” (OMC); (2) a diversificação dos mercados externos para seus produtos, com especial atenção no momento à produção bélica, completada com (3) a busca de portas de entrada em regiões que não foram suas “zonas de influência”; (4) a criação de infra-estrutura para o “Desenvolvimento Científico e Tecnológico”, com formação de parcerias e atração de investidores; (5) a reorientação das relações com a Europa e com a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN); (6) a preservação de áreas estratégicas, especialmente as ricas em matérias-primas; (7) a reformulação das relações com EUA; (8) o redimensionamento do comportamento diante dos países emergentes e (9) a adoção de postura proeminentemente diplomática .

Embora se saiba que não há precedência entre eles, já que são inter-relacionados e estão ocorrendo simultaneamente, tais pontos podem ser explicados resumidamente da seguinte forma.

A entrada do país na OMC será o salvo conduto para que os russos possam ter voz mais respeitada nas negociações econômicas internacionais. É a entrada em um clube que pode dar à “superpotência militar” as possibilidades de mostrar ao mundo a estruturação de um mercado interno que estará disponível dentro das regras do jogo econômico internacional, pois estar na OMC configura uma declaração de aceitação das regras capitalistas na transação econômica e comercial entre os povos, bem como de que compreende os avanços na cadeia produtiva globalizada. Essa questão está diretamente vinculada à diversificação dos mercados para os seus produtos.

Já antes da crise internacional, os russos viram-se diante da obrigação de diversificar os mercados com os quais precisam negociar seus produtos. Contudo, o fato de ser um país dependente da exportação de commodities e ter como principais setores industriais de alta tecnologia a produção bélica e a energia nuclear, ficaram na situação de investir neste primeiro momento  na exportação de armamentos.

Na América do Sul, por exemplo, encontrou a Venezuela como grande importadora de armas, viu a possibilidade de fazer investimentos na Bolívia (armamentos, energia nuclear, exploração mineral), tentou parceria com a Argentina e busca aproximar-se comercialmente do Brasil, onde tem percebido dificuldades, não pela qualidade do material que tenta negociar, mas devido às diferenças culturais e tecnológicas que há entre os países, o que obrigaria a uma cooperação técnica prolongada para preparar quadros que possam receber a tecnologia russa, permitindo assim a intensificação das relações comerciais entre os dois países.

Caso típico se deu pela exclusão do caça “Sukhoi Su-35” da concorrência no “Projeto FX-2” para a aquisição dos caças da “Força Aérea Brasileira” (FAB), o qual, apesar de ter recebido vários e intensos elogios dos especialistas, se mostrou inviável devido às necessidades de preparação de quadros no Brasil, aptos a receber a tecnologia russa. Segundo declarações de especialistas, isto envolveria também a modificação de parte significativa do parque industrial para comportar um Projeto com tantas diferenças culturais entre as partes envolvidas.

Os russos estão diversificando seu mercado para suas exportações, mas sabem que o desenvolvimento econômico desejado só será viável se também diversificarem o portifólio de produtos com alto grau tecnológico e com maior valor agregado. Por essa razão estão fazendo tantos investimentos na busca de parceiros e investidores que possam construir o “Parque Tecnológico de Skolkovo”, o qual já conta com empresas européias e tem no horizonte norte-americanas e asiáticas. Sabem que com o desenvolvimento científico e tecnológico do país e com a entrada da Rússia na OMC terão sido criadas condições para atrair grandes investidores em outros setores e aumentar a gama de produtos a serem disponibilizados ao mercado internacional.

Este projeto está exigindo a alteração da postura russa em relação ao Ocidente, algo que tem sido trabalhado com intensidade pelo governo. Quadro importante foi desenhado nas negociações com os europeus. Além de poderem realmente sepultar a “Guerra Fria”, as rodadas de diálogos com a “União Européia” (UE) e com a “Organização do Tratado do Atlântico Norte” (OTAN) podem significar a mudança geral na “Defesa” e na “Estratégia de Segurança Nacional” russas.

As fronteiras com a Europa começarão a esfriar na medida em que os russos passarem a ter acesso aos planejamentos de Defesa dos europeus e puderem participar deles, sonho que todos contemplam ficando a resolver os problemas históricos com os países da antiga “Cortina de Ferro”, tal qual está sendo feito neste momento com a Polônia, reconhecendo os erros do “período da Rússia stalinista” e projetando investimentos, bem como com as questões que envolvem a República Tcheca, a Hungria etc.; além daquelas que envolvem as ex-repúblicas soviéticas, como nos casos com a Bielo-Rússia e a Ucrânia. O contencioso mais difícil envolve a Geórgia. Porém, neste caso, as questões envolvem problemas de dimensões maiores, já que está relacionada à exploração e distribuição para a Europa do gás natural da região do “Mar Cáspio”, sobre o qual a Rússia não pode permitir a perda do controle, pois afetaria gravemente a sua economia.

Regiões ricas em reservas minerais e importantes para o Estado russo preservam a atenção do governo que não admite deixar de controlá-las. Esta é lógica que explica o posicionamento diante das ilhas Kurillas, espaço farto em minérios e área importante para pesca. A postura será de sempre manter a soberania sobre estas regiões, independente de quem esteja no governo russo. Trata-se de um “objetivo permanente”, essencial ao Estado, à Economia e à “Segurança Nacional” do país.

As alterações de comportamento estão se dando na forma como trabalham para a preservação dessas áreas de interesse estratégico. Antes, os russos apenas impunham sua posição. Agora, negociam parcerias com as nações envolvidas para exploração conjunta. Especialmente, pelo fato de precisarem de investidores. Novamente é o caso das Kurillas que, embora tenham ocorridos momentos de tensão, não surpreenderá que a parceria se concretize e, além disso, ela se desdobre em outros projetos entre russos e japoneses.

Para garantir a preservação de regiões estratégicas tornou-se necessário fazer economia de recursos, uma vez que eles estão escassos e a Rússia ainda sofre os efeitos da “Crise Econômica Internacional”.  Assim, os investimentos devem ser intensos nos “centros de gravidade”, ou seja, nos pontos essenciais às grandes estratégias do Estado russo.

Uma das formas eficazes de economizá-los está emergindo na aproximação com os EUA. Os dois países perceberam que a parceria entre eles permitirá a realocação de recursos financeiros e humanos, pois também vai contribuir para que se defina a configuração do atual “sistema internacional”, o qual começou a se estruturar no final da “Guerra Fria” e ainda está em fase de elaboração. A definição de um “sistema internacional” é essencial para a formulação das estratégias nacionais, algo que reflete diretamente nos orçamentos dos Governos disponibilizados para as políticas externas dos Estados.

Russos e norte-americanos passaram 2010 aparando as arestas e negociando o denominado “Novo START”. No final do ano, em 22 de dezembro, o Senado dos EUA aprovou o Acordo assinado em abril entre Barack Obama (Presidente norte-americano) e Dmitri Medvedev (Presidente da Rússia). Dois dias após, a Duma, “Câmara Baixa” do Legislativo russo, aprovou em “primeira leitura” as Emendas sugeridas pelos senadores dos EUA e ambos os governo anunciaram que esta será uma etapa de reorganização da “Segurança Internacional”, constituindo-se como uma Base para este futuro que se aproxima.

Analistas estão afirmando que, realmente, a aproximação e parceria entre os dois países representa uma nova etapa para o mundo. Os outrora inimigos estão acenando que trabalharão juntos não apenas neste setor, mas em vários outros, tanto que, para Projeto do “Parque Tecnológico de Skolkovo”, o primeiro país a ser convidado a participar foram os EUA e, na época, o presidente Medvedev declarou com satisfação que o modelo em sua mente era o “Silicon Valey” norte-americano.

Além disso, como forma de comprovar que 2011 promete mais aproximação entre ambos, o líder russo foi um dos primeiros do mundo a diminuir os efeitos dos vazamentos de documentos diplomáticos secretos estadunidenses, afirmando que eles não significavam nada além de curiosidades e poderiam ser usados pelos “Serviços de Inteligência” russa como informes e material de auxílio nas suas análises. Ou seja, esvaziou, até o momento, qualquer possibilidade de intriga que poderia destruir às aproximações de ambos.

Este comportamento pragmático, enfatizando a negociação, se mostra também nas relações da Rússia com os principais países emergentes, aqueles que compõem o grupo informal apelidado de “BRIC” (“Brasil, Rússia, China e Índia”).

Os analistas afirmam que elas podem trazer vantagens aos russos, mas não por fazer deles parceiros. Vários observadores afirmam que tais Estados são concorrentes nas regiões em que fazem investimentos ou nos países com os quais individualmente assinaram Acordos comerciais. Começam a destacar que tais emergentes se mostram para os russos como possíveis mercados e/ou como vozes para fazer exigências coletivas naquilo que lhes for interessante, mas, dificilmente, como parceiros em investimentos nas regiões em que atuam, já que cada qual age de forma distinta e aplica estratégia individual. Afinal, o BRIC não é um Bloco, mas sim um nome dado para um grupo de países com status econômicos aproximados.

O ano de 2010 mostrou a Rússia com outra postura em sua “Política Externa”. Ela está se afastando do comportamento de “potência imperial militar”, embora ainda tenha arsenal bélico para tanto a as vezes faça declarações rígidas, e começa mostrar a postura de “potência diplomática”.

Observadores também passam a afirmar que, guardadas as devidas proporções e respeitando as diferenças de sociedade e histórias recentes, as lideranças russas dão mostras de que, tanto quanto os atuais líderes estadunidenses, resolveram ler os intelectuais internacionalistas do “Smart Power” (“poder esperto”/“poder inteligente”) e estão aplicando este conceito, adaptado a sua realidade.

As diferenças de sociedades são extensas, da mesma forma que  as necessidades econômicas e as questões estratégicas envolvidas nas respectivas políticas externas, contudo, os princípios fundamentais parecem ser os mesmo.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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