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BOLÍVIA EM PROCESSO ELEITORAL: MORALES CAMINHA PARA A REELEIÇÃO E TOTAL CONTROLE DO PAÍS

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A campanha eleitoral boliviana iniciou, oficialmente, na segunda-feira, dia 5 de outubro. O atual presidente caminha para conseguir a reeleição presidencial nas eleições gerais que ocorrerão em 6 de dezembro e ampliar o seu poder político na Bolívia.

As estratégias adotadas por Evo Morales confirmam uma elaboração significativa, em termos de planejamento e marketing político. Ele está trabalhando no relacionamento, nas alianças, no controle de regiões e, quando entrar dinamicamente no ar a plataforma de governo do presidente, ele investirá numa publicidade que dificilmente será batida ao longo da campanha.

 

Pelos levantamentos da tendência eleitoral, os institutos de estatística identificam que, até o momento, o presidente Evo Morales apresenta índices que oscilam entre 43% e 54% dos votos, contra 20%, ou 19% do segundo colocado. Assim, se forem mantidas as tendências, e não ocorrer algo excepcional, Morales se reelegerá.

Independentemente de quaisquer posicionamentos, os analistas, tanto quanto os profissionais do marketing acentuarão que o presidente da Bolívia cumpriu parte elevada de sua plataforma eleitoral anterior, a qual se baseava em três pilares: primeiro, a nacionalização dos hidrocarbonetos, das minas e da exploração de minérios no país; segundo, a reforma constitucional, com uma Assembléia Nacional Constituinte e, terceiro, a recuperação do mar territorial boliviano.

Imediatamente após ser eleito para este mandato que se encerra, Morales nacionalizou os hidrocarbonetos e obrigou a uma revisão de todos os posicionamentos das lideranças na América do Sul em relação ao seu país, obtendo apoio direto, algumas vezes explícito, do próprio presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, que se viu na posição de negociar os termos da ocupação da Petrobrás, empresa brasileira que, na época, representava, sozinha, aproximadamente, 18% do PIB (Produto Interno Bruto) boliviano e 20% de todos os investimentos diretos no país, segundo dados revelados e divulgados em vários jornais, apesar de a informação ter sido esvaziada ao longo do tempo e depois anulada, sem ser apresentada contrapartida a esses números.

Em seguida, Morales investiu na realização da Constituinte para alterar a modificar a Constituição, gerando oposição da metade mais rica e mais produtiva da Bolívia (a metade amazônica), que buscava autonomia administrativa com a qual desejavam controlar os impostos gerados na própria região, para investimento local. Não houve declarações oficiais de separatismo, exceto quando perceberam que poderiam sofrer intervenção do governo central.

Deve-se destacar que a alegação de Morales sempre foi de centralizar a arrecadação de impostos para distribuí-lo em benefício das regiões menos desenvolvidas, apoiando as populações indígenas e mantendo a produção cocaleira, considerada por ele um problema exclusivamente cultural, argumentos que serão usados em sua campanha.

A forma de contrabalançar a perda do dinamismo econômico, pelo seu cálculo estratégico, seria revendo os tratados de exploração e comercialização de hidrocarbonetos, alterando, principalmente, os preços disponibilizados no mercado internacional, já que havia ocorrido à nacionalização e tudo estava sob o controle do Estado. Nesse ponte, o presidente mostrará ao povo indígena, maioria populacional, que foi forte, por isso seu líder adequado.

Apesar da política adotada, a equipe de governo sabia das perdas econômicas geradas ao país por esse tipo de alocação de recursos, pelos investimentos assistencialistas em setores carentes, bem como pelo tipo de produção voltada para consumo interno, com baixo valor agregado, no qual estavam investindo.

Assim, a revisão dos contratos de fornecimento de gás com o Brasil, principal comprador, foi vista como a forma de manter certos níveis de recursos, mesmo com a perda do dinamismo da economia boliviana.

Graças às diferenças de concepção e de modelo econômico existente entre esse planejamento e os dos empresários da região mais rica, aquela que estava sendo afetada diretamente, houve a oposição acirrada, gerando os confrontos entre as partes.

No entanto, esse fator também será usado em benefício do atual presidente, já que numa campanha eleitoral não se trabalha com explicações científicas sobre o melhor modelo econômico, mas com os dados concretos de liderança, enquanto se luta pelo voto.

Com relação à luta pela recuperação do mar territorial, este é um emblema que ainda mobiliza as atenções do atual presidente, que tem o problema sob negociação com o Chile e com o Peru.

Ou seja, dos três pilares, dois foram cumpridos, mesmo que com problemas, ou jogados à mesa, e o terceiro, neste momento, está em fase de negociação direta com o Chile, cuja presidente, Michele Bachelet, anunciou que pretende chegar a um termo com Morales antes do término de seu mandato, em 2010.

As negociações caminham para ser apresentada a proposta no início do próximo ano, 2010, provavelmente, no mesmo período em que assumir o presidente boliviano para o mandato seguinte, que também se inicia em 2010.

Para a Bolívia, mais que a retomada do mar territorial, será a abertura do tão sonhado canal para o Pacífico, apesar de ser esse o discurso que interessa ao presidente Morales. Para o Chile, certamente estará na pauta, a resolução do problema do fornecimento do gás boliviano, que é necessário às suas indústrias, e, hoje, chega ao país por intermédio da Argentina, já que as relações entre Chile e Bolívia são conflituosas. Ou seja, a probabilidade de o terceiro pilar ser anunciado como em vias de concretização, dará ao atual presidente mais força para anunciar que teve um mandato vitorioso.

De acordo com o anunciado pelos analistas, a tendência é de que o presidente consiga não apenas a sua reeleição, mas, também, que consiga a maioria no Senado boliviano, até hoje o principal foco da oposição à política presidencial.

Calcula-se que, se mantidas as tendências anunciadas, o presidente Evo Morales terá o controle do Congresso, chegando o seu partido, o MAS (Movimento al Socialismo / tradução: Movimento para o Socialismo) a alcançar o controle da maioria qualificada de dois terços na casa legislativa, algo que representará para Morales a garantia de que as demais alterações que deseja na Constituição serão realizadas, concluindo a conversão da Bolívia numa república socialista-indigenista, hoje denominada bolivariana.

Dentro da estratégia do MAS está o aumento do número de mulheres na concorrência pelos cargos legislativos, bem como o seu aumento nos postos do Executivo, dentre eles ministérios.

Da mesma forma, Morales tem usado estrategicamente o argumento da ilegalidade de estrangeiros em regiões fronteiriças (o caso mais divulgado foi o das famílias de brasileiros na fronteira com o Acre) para fazer o deslocamento de famílias de indígenas da região dos Andes (mais pobre) para a região amazônica (mais rica e onde tem grande oposição).

Apesar de ser uma medida de emergência, número significativo de analistas interpretaram a ação como uma medida que será disseminada para deslocar populações internamente, em direção às regiõesem que Moralesnão tem maioria e tem oposição intensa das elites, as quais podem chegar ao uso da violência em futuro breve.

No caso dos brasileiros, essa foi a interpretação dos analistas que viram uma forma de contrabalançar a contraposição que Morales recebe no Departamento de Pando onde estão esse brasileiros na faixa fronteiriça. Os Departamento correspondem aos Estados no Brasil, como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Amazonas, Maranhão etc.

Pando faz parte da divulgada “Média Luna” (Meia Lua) grupo composto pelos Departamentos mais ricos, que comportam 44% do PIB (Produto Interno Bruto) boliviano, e se opuseram ao governo central, reivindicando autonomia administrativa e controle dos tributos. Essa região é composta por Pando, Bene, Santa Cruz deLa Sierrae Tarija.

Diante desse quadro; das medidas adotadas atualmente; do marketing político que será feito, usando vários elementos para tanto, dentre eles o prêmio de “Defensor Mundial da Mãe Terra” que Morales recebeu da ONU (Organização das Nações Unidas) no final de agosto deste ano, 2009, por intermédio do nicaragüense Miguel D’Escoto Bockmann, presidente da Assembléia Geral das Nações Unida; do apoio externo que lhe tem sido dado por líderes do terceiro mundo, sendo o mais importante o apoio do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, a tendência é que Morales se reeleja. Além disso, que consiga controlar as regiões e, principalmente, estabeleça o controle sobre Legislativo, se forem confirmadas as tendências eleitorais atuais. O resultado será a implantação efetiva de seu projeto sobre a Bolívia.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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