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A “Reunião de Cúpula do grupo BRIC” (Brasil, Rússia, Índia e China), que estava agendada para hoje, sexta-feira, foi antecipada para ontem, dia 15 de abril, a pedido do presidente chinês Hu Jintao, que deseja antecipar seu retorno à China devido à catástrofe sísmica sofrida na região noroeste do país.

 

O presidente chinês fez viagem de retorno  às 23 horas (horário de Brasília), logo após a Cúpula e seu encontro bilateral com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva. O Presidente Hu também adiou sua visita aos países sul-americanos, Chile e Venezuela, e a visita à Birmânia, Indonésia e Brunei.

Apesar da antecipação, a reunião se mostrou produtiva. Com o tema: “O papel do BRIC na transformação global pós-crise econômica“, foram discutidos os temas do uso de suas respectivas moedas para suas transações comerciais; a importância dos países emergentes para as Relações Internacionais e, também, a necessidade de um “mundo multipolar”.

Referente à suspensão do uso do dólar em trocas comerciais entre os países do BRIC, ainda não foi tomado “nenhum tipo de decisão sobre esse assunto“. De acordo com o “Ministério brasileiro das Relações Exteriores”, o tema está sendo discutido com muita cautela, antes de confirmar tal medida.

Todos os países têm interesse em caminhar numa direção que permita, em longo prazo, uma substituição imperceptível [do dólar] para algo mais adequado, mas ninguém pretende fazer uma coisa que cause marolas. Não se trata de inventar jogadas que vão gerar especulações sobre a inadequação do dólar“, disse Roberto Jaguaribe, subsecretário-geral de “Assuntos Políticos do Itamaraty”.

O estudo do uso de suas moedas locais em transações comerciais está a cabo dos “Bancos Centrais” dos quatro países e as transações realizadas entre Brasil-China em suas moedas locais, que vem apresentando resultados positivos, será uma das referências que poderá ser posta à mesa no final do mês, assim que as novas análises das autoridades econômicas destes países forem discutidas na reunião entre eles, que será próxima à reunião do “Fundo Monetário Internacional” (FMI).

Os Presidentes Lula (Brasil), Hu (China), Manmohan Singh (Índia) e Dimitri Medvedev (Rússia) estão confiantes no sucesso do BRIC e quanto a sua importância para a economia mundial. A diplomacia brasileira vê o grupo como um “propugnador por grandes mudanças no contexto internacional“, uma vez que a formação deste não foi de uma deliberação política e diplomática, mas sim de uma avaliação financeira do mercado.

A atuação dos quatro países foi responsável por mais de 50% do crescimento mundial no período do ano 2000 ao ano de 2009 e já existem previsões do FMI para que o grupo contribua com 61,3% do crescimento no mundo. Além deste ponto animador, as trocas entre o Brasil e os outros membros aumentaram em 382% entre no período de 2003 a 2008. A marca de US$ 50 Bilhões foi ultrapassada só no ano de 2008, antes da crise financeira. Estima-se que o comércio entre os países do grupo crescerá 12% ao ano até 2030.

Além do aspecto econômico, os chefes de Estado afirmaram seus interesses comuns em defender um “mundo multipolar”, apoiando reformas e a representatividade dos países em desenvolvimento nas Organizações Internacionais. Este tema é mais enfatizado pelo presidente brasileiro e pelo presidente chinês. Alguns acadêmicos afirmam que, no chinês moderno, o tema pode ser traduzido para “anti-imperialismo dos EUA”.

Lula e Hu em comunicado conjunto declararam: “Temos a obrigação de lutar para uma nova ordem internacional. Estamos unindo esforços em defesa de uma governança global, que dará a todos os povos e nações a mesma esperança de um futuro de paz, prosperidade e entendimento“. O comunicado conjunto destes líderes demonstra claramente um avanço nas relações sino-brasileiras, um interesse comum que vem sendo trabalhado entre ambos os países, que têm como objetivo ser a voz dos emergentes em questões globais.

Os interesses comuns do BRIC em reformas no FMI e fazer do G-20 uma referência no mundo, é um dos principais motivos da união do grupo. Para o especialista em China do “Instituto Brookings”, em Washington, Kenneth Lieberthal, “esses países têm divergências, mas compartilham um grande interesse, que é o de ter um papel mais relevante nas discussões sobre a economia global. Querem ser atores relevantes nesse cenário”. Riordan Roett da “Universidade Johns Hopkins”, tem afirmado que “os diferentes interesses nacionais dos países do BRIC não impedem que atuem com força na pressão para que os países industriais reconheçam sua importância“.

O que firma a aliança e a confiança mútua dos BRIC, além de seus interesses comuns, é o fato de, entre eles, fora as Relações sino-indianas, não terem ocorrido atritos de grande seriedade nas relações destes durante a história. Desta forma, fica mais fácil o grupo fortalecer a confiança mútua de maneira mais estável, mesmo que haja algumas divergências em suas políticas externas e também disputas econômicas.

A união destes países em prol de objetivos internacionais em comum os leva a manter relações pragmáticas, sem considerar suas divergências de interesses nacionais, mas apenas os interesses externos em comum. Outro ponto considerado convergente é que nenhum destes países tem declarado, pelo menos até o presente momento, desejar ser uma Super-Potência Global e enfrentar as dificuldades e os desafios internacionais sozinhos. Logo, a idéia de um mundo multipolar torna-se mais atraente para resolver as questões internacionais, com os BRIC tendo mais força em instituições como FMI, OMC e outros organismos. Conseqüentemente, a responsabilidade das ações em questões internacionais não cairá apenas sobre um deles, mas sim em um grupo como um todo.

Para Jim O`Neil, economista da “Goldman Sachs”, criador da sigla BRIC, em 2001, suas previsões sobre a importância do grupo e sua contribuição para o mundo, seja na economia, seja na política internacional, tem sido confirmada, pois o desenvolvimento do BRIC foi “especialmente bom”. Em suas palavras, “Faz agora oito anos e meio que referi pela primeira vez à sigla BRIC e é com alegria que vejo que eles têm tido um bom desempenho”. O`Neil também concorda com o BRIC na defesa dos mercados emergentes terem “mais voz” no FMI, no “Banco Mundial” e em todo o sistema financeiro internacional.

Especialistas chineses também se mantêm animados com o desenvolvimento do grupo. O vice-ministro dos “Negócios Estrangeiros da China”, Cui Tiankai, declarou que o grupo “contribui para aumentar a influência dos países emergentes em vias de desenvolvimento, e para promover o desenvolvimento do multilateralismo”. Para o vice-presidente da “Academia de Ciências Sociais da China”, Li Yang, o grupo irá se desenvolver de forma mais saudável e produtiva no decorrer do crescimento da confiança mútua entre eles.

Após a reunião de cúpula, os presidentes Hu e Lula realizaram seu encontro bilateral, com a celebração de acordos entre os dois Estados e, também, fizeram considerações sobre o Caso do “programa nuclear do Irã”, defendendo o uso deste material para fins pacíficos. Também houve o encontro entre Lula e o presidente indiano Manmohan Singh, reforçando laços bilaterais e preparativos para o encontro entre ambos com a África do Sul. O encontro entre Lula e Dimitri Medvedev será realizado hoje, como havia sido previsto. Esta foi à segunda cúpula de reunião do BRIC realizada em menos de um ano.

O encontro realizado em um curto intervalo de tempo trouxe á luz a emergência de um trabalho coletivo para a construção do “mundo multipolar” que está sendo realizado pelos países em desenvolvimento.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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