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CAMPANHA ELEITORAL EM HONDURAS INICIA COM CONFIANÇA DE QUE RESULTADO NÃO SERÁ CONTESTADO

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A campanha eleitoral em Honduras iniciou na segunda-feira, dia 31 de agosto, com ampla movimentação, apesar das declarações feitas por líderes da América Latina, chefes de organizações internacionais e dos anúncios na mídia internacional.

Na pesquisa apresentada sobre a tendência eleitoral, o domínio tradicional dos dois principais partidos, o Liberal (PL) e o Partido Nacional (PN), esta sendo mantido, pois o candidato do PL, Elvin Santos, tem 37% do eleitorado e Porfírio Lobo, do PN, 42%. O restante distribui-se entre outros partidos menores e candidatos independentes.  A somatória dos dois aproxima-se do índice disponibilizado por estudos sobre o que chamam de bipartidarismo hondurenho, uma vez que ambas as agremiações partidárias sempre controlam, aproximadamente, 95% do eleitorado. 

 

Dois aspectos das eleições devem ser destacados e, certamente, são trunfos nas mãos do atual governo hondurenho: primeiro, que além do Presidente da República, a eleição que ocorrerá em novembro elegerá centenas de cargos, dentre eles 128 Deputados, 20 representantes do Parlamento Centroamericano e 300 prefeitos; segundo, o fato de tanto o PL, partido de origem do presidente afastado, Manuel Zelaya, quanto o PN, estarem no pleito com candidatos aptos a vencer as eleições.

Pode-se afirmar que ambos os fatores, especialmente a amplitude na eleição de cargos, têm força suficiente para problematizar qualquer resposta internacional contra o processo que começou no início desta semana, bem como para esvaziar as manifestações daqueles que desejam o retorno de Zelaya ao poder, restando ao atual governo à tarefa, não muito tranqüila, de garantir que o processo eleitoral transcorra sem violências e atos de exceção, algo que pode ser garantido com maciça participação popular.

Isso está presente nos cálculos estratégicos do atual presidente, Roberto Micheletti, tanto que ele está conclamando o povo a entrar na campanha eleitoral e deu declarações de que os líderes dos demais países não poderão colocar sob suspeitas uma disputa que ocorre com amplo debate, liberdade de imprensa, pleno direito de representação e de manifestação, mesmo dos partidários de Zelaya, em sua luta para frear as eleições.

Seu argumento faz sentido, pois, no caso de uma recusa do resultado por parte da sociedade internacional, a resposta de qualquer oposição terá de ser direcionada a todo o pleito eleitoral, para que não haja incoerência em qualquer posicionamento. Contudo, dificilmente será possível que se aceite a reversão de um processo tão amplo.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, um dos protagonistas do movimento internacional contra o atual governo hondurenho, afirmou na segunda-feira, dia 31 de agosto, ser improvável o retorno de Manuel Zelaya ao seu cargo, demonstrando com tal declaração que já aceita como vitoriosa, até o momento, a resistência do grupo que assumiu o poder.

Para reduzir o significado da perda nessa declaração, o mandatário venezuelano tem afirmado que o acontecimento do dia 28 de junho (data do afastamento do ex-presidente) carrega como traço significativo a oposição explícita às elites tradicionais da América Latina, despertando as massas, e servirá como ponto de partida para um novo comportamento do povo hondurenho. Uma interpretação possível para o que disse é que ele interpreta que foi criada uma consciência de classe contra os poderosos daquele país. É o novo discurso que está sendo adotado também pelos partidários do presidente afastado, além das demais forças de esquerda no continente.

Contudo, paira expressiva dúvida sobre a coerência das afirmações de Chávez e das demais personagens que desejam a renúncia do governo de Micheletti e o encerramento da campanha eleitoral, pois, com o início do atual embate político, alguns componentes estão sendo jogados ao público internacional, despertando o questionamento daqueles que antes se posicionavam imediatamente, mas detinham apenas parcela das informações:

  1. inversamente do que se divulgava sobre as constantes manifestações contra o governo que se instalou e sobre um possível repúdio às eleições de novembro, está  ocorrendo intensa mobilização dos partidos políticos, dos líderes na campanha que iniciou, bem como da população para dar continuidade ao processo eleitoral;
  2. agora, estão sendo mais divulgados internacionalmente os questionamentos acerca da legitimidade do resultado que elegeu Zelaya, pois ele foi vitorioso com pequena margem de votos sobre o segundo candidato, algo em torno de 1,7%, quando foi encerrada a contagem faltando a apuração de 15% das urnas. Ou seja, começam a surgir questionamentos éticos sobre o presidente afastado, cujo principal argumento é o da manutenção de um mandato que foi resultado de uma escolha legítima feita pelo povo;
  3. apesar dos anúncios de corte de todos os financiamentos internacionais para Honduras, o FMI (Fundo Monetário Internacional) está mantendo os empréstimos para o país e os EUA ainda não decidiram o que farão;
  4. a resistência do atual presidente, Roberto Micheletti, e de seu grupo começa a ser aceita por segmento mais amplo da opinião pública internacional como um movimento contra a expansão das ações bolivarianas no continente e, por essa razão, também começa a ganhar corpo a interpretação de que o ato do grupo que afastou Zelaya pode influir na mudança do “modus operandi” do presidente da Venezuela em sua política externa, bem como de sua estratégia.

Esses elementos estão dando força a Micheletti para resistir mais três meses, até o pleito de 29 de novembro, e, apesar de Zelaya estar negociando com várias lideranças internacionais, o atual presidente também está costurando suas negociações, pois sabe que deve ganhar tempo diante da sociedade internacional, enquanto continua a inflamar o povo para comparecer as urnas.

Após o resultado, o trabalho dos governantes atuais será facilitado, pois terá até 27 de janeiro de 2010, quando assume o cargo o novo presidente eleito, para mostrar ao mundo que, preservando a Constituição, a Democracia em Honduras se manteve, pois o resultado foi legítimo, algo que poderá ser comprovado, caso ocorra, pelos quase vinte mil observadores internacionais que acompanharão todo o processo.

No presente momento, a preocupação é garantir que a campanha eleitoral transcorra sem violência para não trazer dúvidas sobre os resultados, algo que atrapalharia a vitória política do grupo de Micheletti.

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Marcelo Suano - Analista CEIRI - MTB: 16479RS

É Fundador do CEIRI NEWSPAPER. Doutor e Mestre em Ciência Política pela Universidade em São Paulo e Bacharel em Filosofia pela USP, tendo se dedicado à Filosofia da Ciência. É Sócio-Fundador do CEIRI. Foi professor universitário por mais de 15 anos, tendo ministrado aulas de várias disciplinas de humanas, especialmente da área de Relações Internacionais. Exerceu cargos de professor, assessor de diretoria, coordenador de cursos e de projetos, e diretor de cursos em várias Faculdades. Foi fundador do Grupo de Estudos de Paz da PUC/RS, do qual foi pesquisador até o final de 2006. É palestrante da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG-RS), tendo exercido também os cargos de Diretor de Cursos e Diretor do CEPE/CEPEG da ADESG de Porto Alegre. Foi Articulista do Broadcast da Agência Estado e do AE Mercado (Política Internacional), tendo dado assessoria para várias redes de jornal e TV pelo Brasil, destacando-se as atuações semanais realizadas a BAND/RS, na RBS/RS e TVCOM (Globo); na Guaíba (Record), Rádioweb; Cultura RS; dentre vários jornais, revistas e Tvs pelo Brasil. Trabalhou com assessoria e consultoria no Congresso Nacional entre 2011 e 2017. É autor de livros sobre o Pensamento Militar Brasileiro, de artigos em Teoria das Relações Internacionais e em Política Internacional. Ministra cursos e palestra pelo Brasil e no exterior sobre temas das relações internacionais e sobre o sistema político brasileiro.

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