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CHINA E JAPÃO: AS TENSÕES MAIS SÉRIAS DAS ÚLTIMAS DUAS DÉCADAS

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O ano de 2010 continua como um dos mais problemáticos no continente asiático. Tensões na península coreana, desentendimentos e protestos entre Indianos e Paquistaneses e, no leste asiático, duas das maiores economias da atualidade (China e Japão) estão apresentando um rígido diálogo diplomático, trazendo como conseqüência atrasos no desenvolvimento da região.

Para a economia asiática, estes dois países são fatores influentes e importantes, uma vez que as pequenas economias regionais dependem delas para manter-se competitivas, frente ao comércio regional e internacional.

 

Desde antes da “Segunda Grande Guerra” há tentativas de avaliar as diferenças e rivalidades entre japoneses e chineses, observando-se que as tensões foram diminuindo com o passar dos anos, à medida em que cresceram suas relações comerciais.

Atualmente, a China ultrapassou o Japão como segunda maior economia do mundo, mas isso não alterou a importância dos nipônicos para o desenvolvimento da economia chinesa, havendo um paralelo com a forma como os vizinhos vêem os chineses para a recuperação de suas respectivas economias, bem como de todo o sudeste asiático.

No entanto, embora ambos Estados sejam ligados economicamente, suas relações diplomáticas sempre foram sensíveis. É uma instabilidade histórica em que, quaisquer disputas ou incidentes envolvendo agentes de ambos os lados sempre desestabilizaram suas relações.

No dia 7 de setembro de 2010, o incidente envolvendo um navio pesqueiro chinês com um barco patrulha do Japão despertou a complicada disputa territorial na região.  O caso fez emergir reivindicações nas regiões de administração especial na China, em Hong Kong e também em Taiwan pela disputa por ilhas no “Mar da China Oriental”, que Beijing considera território seu, assim como Taipei (Taiwan), que também considera como estando sob sua soberania.

Na região em questão, estão algumas ilhas pequenas e as ilhas Senkaku, chamadas por chineses e taiwaneses como Diaoyu.  Historicamente, fizeram parte da China e passaram por transições de posse entre taiwaneses e chineses durante o período de guerras internas no “Continente Chinês”. A partir da “II Guerra Mundial”, vários territórios da região foram anexados pelo “Império do Japão”, que mantêm controle sobre algumas ilhas até hoje.

Para muitos analistas japoneses, chineses e taiwaneses, as ilhas não são importantes, mas sim os recursos energéticos à serem explorados. A região, no passado, foi uma importante rota comercial. Hoje, os recursos fazem com que seja altamente disputada. Todas as discussões sobre a soberania da região eram tratadas de forma mais cautelosa e sem grande ênfase para a comunidade internacional, contudo, após o acidente envolvendo as embarcações, ela voltou ao primeiro plano do debate.

Por tal motivo, as relações entre japoneses e chineses estão abaladas no campo diplomático. A China com seu perfil rígido, exige que o capitão da embarcação seja libertado imediatamente, algo que ocorreu hoje. Já os ativistas provindos de Hong Kong, Taiwan e de outras regiões chinesas exigem um redesenho da soberania na região, para que o governo japonês lhes “devolva suas terras”. O Japão mantém sua postura de continuar com sua soberania na área, considerando o problema como o maior desafio diplomático para o governo de Naoto Kan.

O primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, ameaçava ontem, quarta feira (22), realizar retaliações se o governo do Japão não libertasse o capitão chinês sob custodia das autoridades do país. Afirmou que “o lado japonês não deu atenção às numerosas representações sérias da China, então a China não pode fazer nada senão tomar as contramedidas necessárias. (…) Se o Japão agir deliberadamente, apesar dos conselhos em contrário, a China tomará novas providências, e o Japão deverá aceitar plena responsabilidade por todas as severas conseqüências”. Para completar a declaração referiu-se às ilhas como “território sagrado da China”.

Segundo o “Global Times”, “a China deveria ter um conjunto de planos para impor mais sanções ao Japão, conduzindo uma batalha diplomática com o Japão por meio de retaliações sucessivas”. Analistas acreditam que se o governo japonês não se mobilizar de forma rápida e eficaz, revelará que o problema é maior, sendo isto apenas a “ponta do iceberg”.

Em resposta, a chancelaria japonesa informou que deseja uma “discussão de alto nível” com Beijing para resolver esta crise diplomática. Em declaração dada à imprensa pelo porta-voz do governo japonês, Yoshito Sengoku, “Seria oportuno realizar discussões de alto nível, incluindo um diálogo de conjunto sobre questões estratégicas, logo que possível”.

Durante a cúpula da ONU realizada ontem em Nova York, para discutir as “Metas do Milênio”, os líderes de ambos os lados não discutiram o tema. Naoto Kan afirmou que o ambiente não era propício e as autoridades de ambos os lados devem marcar uma reunião “séria e definitiva”.

Nos dois países, criticas duras recíprocas e mobilizações significativas estão trazendo mais elementos para a crise. Complementarmente, nesta semana, o “Departamento de Estado dos Estados Unidos” emitiu um comunicado para as nações asiáticas, chamando a atenção para os investimentos militares da China, algo que mobilizou as nações da região, sobretudo o Japão, que está investindo no aumento de suas “Forças Terrestres de Auto-Defesa” para, aproximadamente, 168 mil (atualmente, contam com 155 mil soldados). Esta é a primeira vez, desde 1972, que as forças japonesas ampliam seu quadro. Segundo o noticiário japonês, o motivo desta mobilização é conter uma possível “reação” chinesa.

O clima na região está mais tenso do que o apresentado, pois o caso mobilizou as populações dos envolvidos. Ativistas partem de barco para a região, protestando contra os japoneses. Em terras chinesas, agem próximo aos escritórios consulares do Japão. Embora o clima seja preocupante nas relações diplomáticas, analistas econômicos e políticos do Japão acreditam que isso não afetará as relações comerciais de ambos.

Segundo Shigeki Sakamoto, professor de Direito da Universidade de Kobe, a “disputa é um conflito por recursos energéticos. As ilhas em si, na verdade, não são tão importantes”.  Para ele, China e Japão não querem por em risco suas relações comerciais devido a crise diplomática, pois os custos econômicos serão muito alto para ambos os lados, principalmente para o Japão.

Segundo os observadores, a situação econômica japonesa é preocupante e a China contribui e continuará contribuindo para a recuperação do país, por isso o governo do Japão atuará ativamente no caso para que a crise não afete as relações econômicas sino-japonesas.

Os protestos na parte continental chinesa levaram a empresa de cosméticos do país, Baojian, a cancelar a viagem de 10 mil funcionários para o país vizinho e emitiu um comunicado dizendo que criarão alternativas em seu país para o futuro próximo das relações sino-japonesas. Isto foi considerado pelos nipônicos como uma política de “boicotem o Japão”.

A ação preocupa investidores de ambos os lados. Se a crise se agravar, inúmeros projetos de cooperação e de exploração conjunta de recursos, que foram congelados “temporariamente” pelo governo chinês, podem ser canceladas definitivamente, afetando diretamente alguns setores das economias envolvidas.

É consenso entre os especialistas que, historicamente, o clima entre as duas potências asiáticas nunca foi ameno, mas, neste momento, as autoridades precisam trabalhar para reduzir as tensões, tentar recuperar o crescimento positivo destas relações e será um momento em que a opinião pública internacional deverá se posicionar apoiando o diálogo, pois a relação destas potências econômicas afetam a economia global.

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Fabricio Bomjardim - Analista CEIRI - MTB: 0067912SP

Bacharel em Relações Internacionais (2009) e técnico em Negociações Internacionais (2007) pela Universidade Anhembi Morumbi (UAM). Atua na área de Política Econômica com foco nos países do sudeste e leste asiático, sendo referência em questões relacionadas a China. Atualmente é membro da Júnior Chamber International Brasil-China, promovendo as relações sócio-culturais sino-brasileiras em São Paulo e Articulista da Revista da Câmara de Comércio BRICS. Também atuou como Consultor de Câmbio no Grupo Confidence.

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